Reino Unido enfrenta pressão com Malvinas e separatismo
Últimas atualizações em 15/09/2026 – 07:03 Por AFP
No cargo há menos de dois meses (assumiu em 20 de julho), o primeiro-ministro do Reino Unido, o trabalhista Andy Burnham, enfrenta as três primeiras grandes crises do seu governo – e todas motivadas por questões territoriais.
Ele vem sendo cobrado pela sua intenção de levar adiante um acordo para entregar às Ilhas Maurício a soberania do arquipélago de Chagos, que o país do Oceano Índico reivindica desde que deixou de ser uma colônia britânica em 1968, plano que foi aprovado pela gestão trabalhista anterior.
Além disso, a Argentina renovou no início deste mês a pressão pelas Ilhas Malvinas e nesta segunda-feira (14) os primeiros-ministros do País de Gales, da Escócia e da Irlanda do Norte divulgaram um memorando de entendimento no qual pediram que o governo britânico “facilite mudanças constitucionais” para a independência dos três países.
Caso os referendos solicitados sejam realizados e confirmem o desejo das populações locais pela independência, isso na prática resultaria na dissolução do Reino Unido, já que apenas a Inglaterra permaneceria no bloco.
Burnham é o sétimo premiê britânico desde a votação do Brexit, referendo sobre a saída do país da União Europeia, realizado em 2016, e o modo como lidará com essas crises pode ser decisivo para sua permanência no cargo.
Na semana passada, durante debate no Parlamento, a líder do Partido Conservador, Kemi Badenoch, disse que outros países “sentem o cheiro de fraqueza” do premiê britânico.
Ao questionar o plano do premiê de transferir o controle de Chagos para as Ilhas Maurício, projeto que seu antecessor, Keir Starmer, havia aprovado, mas depois voltou atrás, Badenoch disse que essa intenção encorajou a Argentina a reivindicar com mais ênfase as Ilhas Malvinas.
“Essa é uma decisão fraca, e não é de se admirar que a Argentina esteja agora ameaçando as Malvinas”, disse Badenoch.
O fator Trump
O presidente americano, Donald Trump, teve participação nas três crises. Ele criticou a transferência de Chagos, ao classificar o plano como “estupidez” e alegar riscos à base militar conjunta de EUA e Reino Unido em Diego Garcia, ilha que faz parte do arquipélago. Essas críticas fizeram Starmer suspender o plano sobre Chagos.
No caso das Malvinas, Trump falou no final de agosto sobre a possibilidade de reavaliar a posição dos EUA sobre a disputa entre Argentina e Reino Unido pelo arquipélago no Atlântico Sul, que atualmente é de neutralidade, mas reconhecendo o controle britânico sobre as ilhas.
Dias depois, em 3 de setembro, o presidente argentino, Javier Milei, anunciou sanções a empresas que exploram recursos naturais nas Malvinas e disse que vai construir uma base naval integrada na província da Terra do Fogo para aumentar a pressão militar de Buenos Aires nessa disputa.
Por fim, antes do anúncio dos primeiros-ministros do País de Gales, da Escócia e da Irlanda do Norte nesta segunda-feira, Trump havia afirmado no fim de semana que gostaria de ver a Irlanda reunificada.
“Vocês têm a Irlanda do Norte e a Irlanda”, disse Trump a jornalistas no domingo (13), durante um torneio de golfe em um dos seus resorts na vila irlandesa de Doonbeg. “Parece-me que uma das soluções mais naturais de todos os tempos seria uni-las.”
Em sua coluna no jornal Daily Mail, o ex-primeiro-ministro britânico conservador Boris Johnson (2019-2022) sugeriu que as alfinetadas de Trump sobre as questões territoriais do Reino Unido são uma resposta por Londres ter se recusado a ajudar os Estados Unidos a reabrir o Estreito de Ormuz durante a guerra com o Irã.
“Isso provocou grande irritação na Casa Branca. Não foi nenhuma surpresa que Trump tenha decidido, então, colocar em dúvida seu compromisso com a soberania do Reino Unido sobre as Malvinas — especialmente se lembrarmos quanto tempo [Ronald] Reagan realmente levou, em 1982, para apoiar [Margaret] Thatcher”, disse Johnson, em referência à guerra entre britânicos e argentinos pelo arquipélago, vencida por Londres há 44 anos.
“Não é de se estranhar que Javier Milei, o presidente argentino, tenha aproveitado o momento para intensificar sua retórica e adotar um tom muito mais assertivo quanto à reivindicação do seu país sobre as ilhas”, escreveu o ex-premiê conservador.
Nos dois últimos episódios, o governo Burnham tentou mostrar força e pedir união. No caso das Malvinas, um porta-voz da sua gestão disse que as Forças Armadas britânicas “estão de prontidão 24 horas por dia, sete dias por semana, para proteger o Reino Unido e os nossos interesses”.
No episódio dos pedidos de separação de países do Reino Unido, o governo Burnham disse que o país “está em sua melhor forma quando as pessoas se unem em torno de nossos valores compartilhados e da resolução de problemas, em vez da divisão”.
“Mandato de Burnham está mais em jogo que integridade do Reino Unido”, diz analista
Em entrevista à Gazeta do Povo, Igor Lucena, economista e doutor em relações internacionais, disse que Trump vem utilizando a questão das Malvinas como um instrumento de pressão, por não ter afinidade política com os trabalhistas britânicos.
“É muito mais uma retórica do que, de fato, uma preocupação [real]. Isso é especialmente relevante porque os americanos precisam de acesso às bases britânicas para a sua defesa. Então, é muito mais importante o acesso americano às bases militares da Otan e do Reino Unido como um todo do que, de fato, tomar um posicionamento pró-Argentina na questão política e ideológica da América Latina”, afirmou Lucena.
Já os pedidos de independência da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte, apesar de terem um componente muito mais político do que efetivamente jurídico e poucas chances de seguir adiante, podem gerar mais desgaste para Burnham, avaliou o analista.
“Os primeiros-ministros desses países querem provar que existe uma fraqueza de Westminster. Um dos motivos do que está ocorrendo é uma questão econômica. Depois do Brexit, as três regiões — Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales — foram economicamente muito prejudicadas pelos problemas relacionados à queda nas exportações e às relações econômicas com a União Europeia. Eles acreditam que, se saírem do Reino Unido, poderiam entrar na União Europeia de uma maneira mais rápida e ter benefícios econômicos muito maiores”, disse Lucena.
O analista afirmou que o caso de Burnham “é um péssimo exemplo de como a instabilidade política gera esses problemas”.
“Ele tem uma carreira política baseada na ideia de que essas regiões do Reino Unido deveriam ter mais independência do ponto de vista econômico para decidir seus destinos. Ao mesmo tempo, é crítico e afirma que a independência desses países nunca vai ocorrer porque eles fazem parte de um Reino Unido indivisível”, apontou.
“Haverá, sim, uma discussão grande. Isso vai pautar totalmente o governo de Burnham e, se de alguma maneira ganhar tração, ele vai perder todo tipo de ajuste e a capacidade de fazer as mudanças necessárias na economia britânica, que é a base”, disse Lucena.
“Então, o que está ameaçado, na minha avaliação, é muito menos a integridade do Reino Unido como nação, como um território de quatro países unidos, do que o mandato de Burnham”, concluiu.
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