Por que americanos deram início a uma nova corrida do ouro
Últimas atualizações em 22/05/2026 – 21:12 Por Gazeta do Povo | Feed
Na manhã de um dia útil na Califórnia, um homem na faixa dos 30 anos entra em uma loja de ferragens fundada em 1852 para comprar ferramentas de escavação. O objetivo do cliente – buscar ouro nas montanhas de Sierra Nevada – tem se tornado cada vez mais comum nos Estados Unidos.
Movido pela forte valorização do ouro e inspirado por influenciadores digitais, o comportamento reflete uma perda crescente de confiança do cidadão americano no Estado e na moeda fiduciária, como mostra reportagem deste mês da revista New Yorker.
Neste mês, o preço do ouro está orbitando a marca histórica de US$ 4.532 por onça-peso (cerca de R$ 728/g). O fenômeno revela o temor de um colapso inflacionário global, que já afeta o custo de vida em diversos países e as taxas de juros em economias emergentes, como o Brasil.
A fuga para os ativos reais ocorre no momento em que a economia formal sinaliza falhas no sistema de proteção ao trabalhador médio. Ao longo da Rota 49, rodovia que conecta as cidades que protagonizaram o ciclo do ouro em 1849, prateleiras antes dedicadas à construção civil agora exibem bateias — uma espécie de gamela usada na mineração — e detectores de metal avançados, mostra a publicação americana.
O comércio local atende a famílias inteiras e a cidadãos comuns que tentam, por meio do esforço físico direto, criar uma reserva de valor independente do sistema bancário.
O proprietário da Placerville Hardware, uma das lojas mais antigas da região, constata que o interesse popular muda de patamar de acordo com as cotações financeiras. “Nas últimas semanas, o movimento aumentou bastante. Quando todos souberem que o preço atingiu cinco mil dólares, será um marco”, diz o comerciante Albert Fausel à revista.
A percepção do empresário ilustra como a barreira psicológica de preço atrai o cidadão comum, transformando uma atividade de nicho em uma alternativa de sobrevivência econômica diante da perda de poder de compra.
A deterioração da renda real é visível nos indicadores macroeconômicos recentes dos Estados Unidos. Em abril de 2026, o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) do país acelerou para 3,8% no acumulado de 12 meses, registrando o ritmo de avanço mais rápido desde maio de 2023.
A raiz do problema está na cadeia de fornecimento, onde o Índice de Preços ao Produtor (PPI) saltou 6% no mesmo período, atingindo o maior nível desde dezembro de 2022. Esse choque foi primariamente tracionado por um encarecimento de 22,7% nos custos de energia, reflexo direto da instabilidade geopolítica no Oriente Médio, que envolve nações produtoras de petróleo, como o Irã.
Enquanto isso, a remuneração real dos americanos sofreu uma queda de 0,5% na comparação mensal em abril, evidenciando que o custo de vida tem corroído o orçamento familiar em uma velocidade superior à dos reajustes salariais.
A consequência dessa instabilidade é uma rejeição crescente às aplicações financeiras tradicionais, o que leva a população a buscar a segurança dos bens físicos e tangíveis.
Movimento também reflete busca por liberdade e rejeição ao establishment institucional
O aspecto financeiro, no entanto, é apenas o catalisador de um fenômeno sociológico mais profundo que envolve a rejeição ao establishment institucional. O interesse pela prospecção mistura elementos de sobrevivencialismo, libertarianismo e uma busca pela recuperação de uma masculinidade de outros tempos considerada perdida.
Programas de televisão dedicados ao garimpo e milhares de vídeos no YouTube e no TikTok transformaram a extração mineral no símbolo de um indivíduo que vence sozinho, longe das regulações e dos impostos do Estado.
Para o historiador Quinn Slobodian, da Universidade de Boston, a tendência aponta para um desejo latente de operar à margem de um sistema governamental percebido como ineficiente e punitivo, recriando uma versão idealizada do passado.
O aspecto, de certa forma contraditório, dessa rejeição ao sistema moderno é a extrema dependência da tecnologia de ponta para a sua execução. Garimpeiros contemporâneos não utilizam apenas pás, mas aplicam ferramentas de mapeamento topográfico a laser (LiDAR), disponibilizadas pelos órgãos de gestão de florestas, para localizar leitos de rios secos ignorados no século 19.
Além disso, a viabilidade econômica para a maioria desses prospectores não está no minério em si, segundo a reportagem, mas na monetização do conteúdo digital gerado durante as expedições. Assim, a imagem de autossuficiência é convertida em um produto consumido por milhões de usuários de redes sociais.
Instituições também têm deixado dólar para acumular reservas em ouro
Mas a migração da moeda para o minério e a vida rústica não se restringe às pessoas físicas. No cenário macroeconômico, instituições têm feito exatamente o mesmo movimento para proteger suas reservas. Bancos centrais de todo o mundo estão em ritmo de acumular aproximadamente 755 toneladas de ouro em 2026, impulsionando um processo sistemático de desdolarização e diversificação de ativos.
O banco J.P. Morgan projeta que essa demanda, somada à compra por investidores de varejo asiáticos, empurrará o preço do metal para US$ 5.055 a onça até o final de 2026, com potencial de se aproximar dos US$ 8 mil até 2030.
A instituição financeira considera que o movimento de alta não é uma simples bolha especulativa temporária. Trata-se de um realinhamento permanente do capital, motivado pela insegurança em relação à dívida pública americana, que hoje se aproxima da casa dos US$ 40 trilhões.
Essa insegurança global é agravada por uma crise de credibilidade dentro do próprio Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. Em maio de 2026, o Senado americano aprovou a nomeação de Kevin Warsh como o novo presidente da instituição em uma votação apertada, encerrada em 54 a 45, evidenciando uma disputa ideológica na condução da política monetária.
Warsh, que substitui Jerome Powell, assume o cargo indicado pelo presidente Donald Trump. O mandatário pressiona a instituição publicamente pela redução imediata das taxas de juros, a despeito do avanço inflacionário.
A postura do governo reforça o ceticismo do mercado. O próprio presidente americano estimula o culto aos metais preciosos ao lançar diretrizes que referenciam o “padrão ouro” e ao afirmar publicamente que o minério estaria livre de taxações alfandegárias.
O problema é que, quando o próprio chefe do Executivo cria desconfiança na moeda ao pressionar o Fed, o impacto é negativo sobre a previsibilidade econômica global, o que força os mercados a buscar outros ativos como refúgio.
No Brasil, governo quer aumentar regulação sobre mineração de ouro
A ruptura do pacto de estabilidade nos Estados Unidos tem reflexos diretos em economias emergentes, como o Brasil. Para o cidadão brasileiro médio, a nova corrida do ouro e a inflação americana deixam de ser apenas notícias internacionais distantes ao indicarem o encarecimento de seu próprio custo de vida.
A persistência da inflação no atacado dos EUA em 6% impede que o Fed inicie um ciclo seguro de cortes nas taxas de juros no curto prazo. Com isso, títulos do Tesouro americano atraem fluxo de capital que, de outra forma, poderia ser direcionado a mercados como o Brasil.
O resultado da atração de recursos pela economia americana é a desvalorização do real frente ao dólar. Com a moeda nacional enfraquecida, commodities precificadas internacionalmente, como combustíveis, trigo e fertilizantes, encarecem automaticamente no Brasil, forçando um repasse de custos para as prateleiras dos supermercados e para as bombas dos postos de combustíveis.
Enquanto nos Estados Unidos o garimpo amador ressurge como uma estratégia de fuga do controle estatal, no Brasil o movimento ocorre na direção oposta.
Para o cidadão ou investidor brasileiro que eventualmente queira investir no metal buscando proteção patrimonial, o Estado tem ampliado o cerco regulatório, sob a justificativa de desvincular o ativo financeiro de crimes ambientais.
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A iniciativa partiu do Supremo Tribunal Federal (STF), que, em 2023, decidiu, por unanimidade, acabar com a chamada “presunção de boa-fé” no comércio do minério.
Até então, a legalidade da origem do ouro era atestada apenas pela palavra do vendedor. O mecanismo, na avaliação da Corte, funcionava como um escudo para a expansão do garimpo ilegal, do desmatamento e da violência em áreas de proteção e terras indígenas.
Com a invalidação da norma, a comprovação legal passou a ser exigida na origem, com fiscalização repassada às distribuidoras de títulos e valores mobiliários (DTVMs) autorizadas pelo Banco Central.
Na esteira da decisão do STF, a Câmara dos Deputados aprovou, no fim de abril, um projeto de lei proposto pelo governo federal que estabelece um novo marco legal para o setor, criando regras rígidas de controle de origem, compra, venda e transporte do metal precioso no país.
A proposta, que agora tramita no Senado, prevê que a Agência Nacional de Mineração (ANM) regulamente um sistema de rastreabilidade, enquanto a Casa da Moeda ficará responsável pela confecção de uma marcação física no minério.
Para custear essa infraestrutura, o projeto institui a Taxa de Registro das Transações e de Marcação Física do Ouro (Touro), alvo de críticas dos setores de mineração e joalheria.
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