Delação de Vorcaro derrete e aumenta risco de nova transferência
Últimas atualizações em 20/05/2026 – 21:24 Por Gazeta do Povo | Feed
A transferência de Daniel Vorcaro para uma cela convencional da Superintendência da Polícia Federal em Brasília, na segunda-feira (18), após deixar a sala em estilo de Estado-maior que ocupava desde março sob expectativa de firmar um acordo de delação premiada, passou a ser vista por investigadores do caso Master como mais um sinal de enfraquecimento e desidratação nas negociações da colaboração. Além disso, o acordo corre o risco de não sair do papel, o que pode levar o ex-banqueiro ao Centro de Detenção Provisória conhecido como Papudinha nos próximos dias ou ainda de volta ao sistema penitenciário federal.
A transferência ampliou o endurecimento no tratamento dado a Vorcaro. Diferentemente da sala onde estava desde março, a nova cela tem características de uma prisão comum, sem itens como ar-condicionado ou frigobar e submetida a regras mais rígidas de permanência. Na prática, ele passa a seguir a rotina ordinária da custódia da PF, com controle mais rigoroso de horários, circulação, visitas e de advogados.
A estrutura é considerada provisória e de passagem, o que significa que ele não deve permanecer ali por muito tempo. Embora esteja sozinho na cela, o espaço pode ser dividido a qualquer momento por outros presos, dependendo da demanda e da chegada de novos custodiados à unidade da Polícia Federal no Distrito Federal.
A mudança na condição carcerária, apesar de não confirmada pela PF, estaria relacionada ao esvaziamento do conteúdo apresentado pela sua defesa ao que seria uma prévia de sua delação premiada. O conteúdo foi considerado superficial, sem muitas novidades e provas além das já detectadas em sete diferentes fases da operação.
Parte dos investigadores analisa a possibilidade de nomes influentes estarem sendo poupados ou protegidos pelo ex-banqueiro, o que incluiria autoridades dos Três Poderes da República, como deputados, senadores, líderes governistas, ministros do STF e nomes ligados ao sistema financeiro nacional. Também há a suspeita de esquemas que incluam até o crime organizado.
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A pressão sob o ex-controlador do Master se acentuou com a prisão do pai dele, Henrique Vorcaro, durante a sexta fase da Compliance Zero na semana passada. Segundo a PF, o avanço das investigações teria revelado que, mesmo após a primeira prisão de Daniel Vorcaro, o esquema seguiu sendo operacionalizado com envolvimento de seu pai.
A defesa de Henrique Vorcaro classificou como excessiva e injustificada a prisão. Os advogados sustentam que a medida teria sido adotada com base em elementos que consideram lícitos e que ainda não estariam devidamente esclarecidos ou comprovados nos autos da investigação.
Somado ao fato da prisão do pai, houve ainda a quinta fase da operação, com busca e apreensão em endereços ligados ao senador e presidente do Partido Progressistas (PP), Ciro Nogueira, a quem Vorcaro chegou a chamar em conversas vazadas como “um grande amigo de vida”.
A percepção entre policiais federais e agentes da Procuradoria-Geral da República é de que Vorcaro teria preservado nomes, como o do pai e do senador, além de relações com outras figuras públicas e familiares de ministros do STF que nem sequer teriam aparecido de forma aprofundada na proposta de delação apresentada há pouco mais de duas semanas, antes da deflagração da quinta e sexta fases da operação.
A troca de advogados, incluindo a entrada de José Luís Oliveira Lima, conhecido por atuações em acordos de delação na Lava Jato, chegou a ser interpretada como um indicativo de que o empresário estava disposto a abrir completamente o jogo. Dois meses depois, o clima é outro. A avaliação predominante entre investigadores é de que a proposta apresentada até aqui não atende às expectativas.
Mesmo sem o conteúdo robusto esperado na delação, novas fases da operação não estão descartadas. Considerando tudo o que foi apreendido até agora, há margem para aprofundamento das apurações ao longo de todo o ano, podendo inclusive avançar para 2027.
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As ausências de informações, provas e inconsistências deixam Vorcaro cada vez mais distante de firmar o acordo de colaboração, que poderia suavizar suas condições de prisão ou mesmo o tempo de detenção, no caso de uma eventual condenação. Para analistas, a mudança na prisão já indica que as negociações não caminham bem para o ex-banqueiro.
“A possibilidade de uma delação do Vorcaro sair do papel tem se tornado cada vez mais incerta nos bastidores da investigação. Embora as negociações tenham avançado, os movimentos passaram a ser interpretados como sinais de enfraquecimento do acordo e até um possível fracasso das tratativas da forma como foram apresentadas até agora”, afirma o criminalista.
Além disso, tanto a PF quanto a PGR teriam sinalizado que, para viabilizar a delação, além de entregar provas robustas e ainda não alcançadas, o ex-banqueiro teria de devolver de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões pelo que foi identificado até o momento decorrente de supostas fraudes e movimentações ilegais.
O próprio Vorcaro teria pressa em fechar o acordo para devolver ao menos R$ 40 bilhões que estariam, supostamente, em paraísos fiscais em nome e sob gestão de terceiros correndo o risco de os valores se deteriorarem ou desaparecerem antes da assinatura do acordo. “Se o dinheiro desaparecer e não puder haver o ressarcimento, então a delação definitivamente cai por terra”, frisa o criminalista.
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Há semanas investigadores da Polícia Federal e da PGR avaliam que o material sugerido pela defesa de Vorcaro estaria muito distante do que normalmente se espera de uma colaboração premiada, sobretudo diante da magnitude do caso e de tudo que os investigadores têm em mãos.
Os milhares de documentos apreendidos até o momento e os cerca de 100 aparelhos eletrônicos, entre celulares e outros equipamentos, já dariam consistência para ampliar a investigação por meses e deflagrar inúmeras fases da operação ou desdobramentos.
Investigadores reconhecem que até o momento não é possível dimensionar o tamanho do rombo e das influências de Vorcaro. Somente do ex-banqueiro, ainda teriam pelo menos cinco celulares para serem periciados, e os outros três aparelhos que começaram a ser analisados já teriam indicado mais coisas que o próprio Vorcaro indicou delatar em sua proposta de colaboração premiada.
“A transferência [de Vorcaro] para a sala especial havia ocorrido justamente no contexto em que a defesa demonstrava intenção de avançar com uma delação ampla. Agora, a retirada do empresário desse espaço reforça a percepção de que o acordo pode não evoluir”, analisa o cientista político Gustavo Alves.
Para especialistas, avançar sobre supostas ações familiares e as possíveis ligações de pessoas do seu entorno fecharia, ainda mais, o cerco contra o empresário. “Avançar sobre familiares pode interferir no que ele teria a dizer e que ainda não se evidenciou em sua proposta de delação”, afirma o advogado André Marsiglia, especialista em Direito Constitucional.
Suspeita de omissões provoca alerta entre investigadores
Desde o início das tratativas da delação, em março passado, investigadores dizem ter identificado movimentos para minimizar vínculos e impactos no caso Master com figuras importantes da República. Entre os pontos que mais chamam atenção está a ausência, na proposta de delação apresentada, de referências consideradas relevantes sobre relações mantidas com parte dessas autoridades.
“Pode ser que haja a percepção entre investigadores de que o empresário tenta construir uma delação seletiva, preservando determinados personagens enquanto entrega informações periféricas ou já conhecidas”, reforça Nunes.
A tendência, segundo pessoas próximas ao caso, é de que a delação seja rejeitada na forma atual, caso não se apresentem fatos novos com provas robustas. A equipe de investigação inclusive analisaria se a defesa de Vorcaro poderá reestruturar a proposta já apresentada.
Para membros do corpo investigativo, a continuidade das ações ilegais após a primeira prisão de Vorcaro enfraqueceu um dos argumentos centrais da defesa nas negociações da delação, de que ele supostamente teria se afastado dessas atividades. O fim das irregularidades é uma das exigências para fechar o acordo de delação.
Outro ponto que causa estranheza entre investigadores diz respeito ao suposto envolvimento do senador Ciro Nogueira e de outros nomes públicos que teriam dado sustentação política ao esquema bilionário do Master. Nogueira foi alvo de mandados de busca e apreensão autorizados pelo STF dentro da Operação Compliance Zero.
As investigações apontam suspeitas de pagamentos mensais, benefícios financeiros e atuação política do parlamentar em favor de interesses ligados ao Master. Segundo documentos revelados pela investigação, assessores do banco teriam elaborado uma proposta legislativa posteriormente apresentada pelo senador ao Congresso, a qual ficou conhecida como “Emenda Master”. A medida foi rejeitada pelo Parlamento.
A defesa do senador rejeitou as suspeitas levantadas pela investigação e afirmou que o parlamentar jamais recebeu vantagens indevidas ou praticou qualquer irregularidade. Em manifestações públicas, Ciro Nogueira classificou a operação como uma tentativa de atingir sua reputação e negou qualquer envolvimento com os fatos apurados.
Os advogados de Nogueira também criticaram o caráter considerado invasivo das medidas autorizadas, alegando estranheza pelo fato de a investigação ter como base, até aquele momento, mensagens e dados extraídos de aparelhos de terceiros. A defesa informou ainda que buscaria acesso integral aos autos para analisar o conteúdo completo da apuração e apresentar esclarecimentos. Segundo os representantes do parlamentar, o material apreendido não geraria preocupação para a equipe jurídica.
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