Perícia pode descobrir o que Moraes escreveu para Vorcaro?
Últimas atualizações em 21/09/2026 – 05:46 Por Gazeta do Povo | Feed
A divulgação das mensagens supostamente trocadas entre Daniel Vorcaro e um número atribuído ao ministro Alexandre de Moraes levantou uma questão que vai além do conteúdo das conversas: se a Polícia Federal (PF) conseguiu recuperar o que o ex-banqueiro enviou, também seria possível descobrir o que Moraes escreveu?
A resposta, com base nas informações do relatório da PF enviado ao ministro André Mendonça e que levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a uma crise institucional sem precedentes, exigiria, segundo fontes a par das apurações, uma distinção.
A perícia conseguiu reconstruir mensagens enviadas por Vorcaro porque encontraram vestígios no próprio celular dele. Seria necessário fazer o mesmo com o celular do ministro, o que é apontado como algo remoto no horizonte das investigações.
As evidências identificadas no celular de Vorcaro podem até registrar que determinadas mensagens enviadas tenham recebido respostas, mas isso nunca esteve no alvo das apurações.
Fontes envolvidas nas investigações afirmam que há probabilidade de ter havido algum tipo de interlocução uma vez que foram enviadas ao menos 52 mensagens do ex-banqueiro ao contato do ministro. “Neste contexto, ninguém enviaria tantas mensagens a outra pessoa sem ter havido algum tipo de interlocução”, alerta o constitucionalista Alessandro Chiarottino.
Isso não significaria que peritos tenham recuperado mensagens que, eventualmente, tenham sido redigidas por Moraes.
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O que a perícia encontrou no celular de Vorcaro
Para entender por que algumas mensagens puderam ser recuperadas, é preciso compreender como funciona uma perícia em celular.
Quando uma pessoa utiliza um smartphone, o aparelho registra mais informações do que aquilo que aparece na tela. Arquivos temporários, registros de funcionamento dos aplicativos, horários de utilização e outros dados podem permanecer armazenados mesmo depois que determinada informação deixa de ser visível ao usuário.
Foi a existência desses vestígios que permitiu reconstruir parte das mensagens enviadas por Vorcaro.
Segundo a metodologia descrita, o ex-banqueiro não escrevia diretamente no aplicativo de troca de mensagens em determinadas situações. Ele utilizava o aplicativo de notas para redigir o texto. Depois, fazia captura de tela e enviava a imagem, utilizando o recurso de visualização única.
Esse detalhe foi fundamental à perícia. Ao fazer uma captura de tela no iPhone, o sistema operacional pode produzir arquivos temporários relacionados àquela operação. Neste caso foram encontrados arquivos em uma área temporária do aparelho que correspondiam às imagens produzidas a partir das notas.
Mesmo que a imagem enviada pelo WhatsApp tivesse sido configurada para desaparecer após visualizada, o celular de Vorcaro deixou outros rastros relacionados à criação.
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Como os peritos reconstruíram as mensagens
Os investigadores cruzaram diferentes tipos de informação do aparelho de Vorcaro. De um lado, estavam arquivos temporários das capturas de tela. De outro, registros do funcionamento dos aplicativos, capazes de indicar quando o aplicativo Notas foi utilizado e quando uma captura de tela foi realizada.
Também foram analisados registros do WhatsApp, incluindo informações sobre envio das mensagens e respectivos horários. Ao comparar dados, os peritos conseguiram estabelecer uma sequência de acontecimentos.
O celular registrava a utilização do aplicativo de notas; em seguida, aparecia o registro da captura de tela; praticamente no mesmo momento, havia o registro do envio de uma mensagem para determinado destinatário.
Quando esses acontecimentos coincidiam no tempo, os arquivos temporários encontrados no aparelho ajudavam a revelar o conteúdo que havia sido enviado.
É como se a perícia tivesse encontrado várias peças de um quebra-cabeça. Isoladamente, cada registro poderia não revelar muita coisa. Quando colocados juntos eles permitiram reconstruir o que havia acontecido.
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Em que cenário as mensagens vieram à tona
A existência da suposta interação veio a público depois que Mendonça, então relator do caso no STF, retirou o sigilo do relatório da PF de 218 páginas. O documento reúne informações obtidas durante a análise do primeiro celular de Vorcaro apreendido em novembro na primeira fase da Compliance Zero que investiga as fraudes bilionárias do Master. O celular teria registrado milhares de comunicações e uma vasta rede de apoio e sustentação estabelecida pelo ex-banqueiro.
Em depoimento ao gabinete de Mendonça em 27 de agosto, Vorcaro chegou a admitir ter construído rede de proteção a partir de contatos com autoridades dos três poderes, estrutura que, segundo Vorcaro, acabou se voltando contra ele.
Vale destacar que desde que retirou o sigilo do relatório, Mendonça tem afirmado não ter tentado investigar Moraes, nem estava apresentando acusações contra o ministro. O que aparece no relatório e o que, para Mendonça, precisaria ser esclarecido, é a identificação de um dos interlocutores de Vorcaro como sendo o número atribuído a Moraes.
Na terça-feira (15), ocorreu a sessão que deveria definir se o relatório da PF que mencionava Moraes seria ou não validado pela Corte, o que poderia definir se Moraes seria investigado, mas após um dia de bate-boca, os ministros nem sequer saíram da chamada questão de ordem colocada pelo ministro Gilmar Mendes para julgar esse procedimento junto com o que vai analisar a conduta de Mendonça por supostamente ter avançado investigação sobre um colega.
O procedimento envolvendo Moraes acabou interrompido após uma série de tumultos que culminou com o pedido de vista do ministro Flávio Dino. Dino tem até 90 dias para devolver o processo ao plenário. Moraes só será investigado se houver manifestação favorável pela maioria no plenário.
Em defesa, Moraes não contesta que tenha respondido a mensagens
Na noite de segunda-feira (14), Moraes protocolou defesa de 44 páginas ao presidente do STF, Edson Fachin, às vésperas do julgamento que definiria se ele seria alvo de investigação formal. O ministro negou conduta criminosa com o ex-banqueiro e pediu a anulação do relatório da PF.
Moraes classificou como retaliação política ligada às condenações do 8 de janeiro, sustentando que por trás da acusação estaria uma motivação eleitoral, associando o episódio a um desdobramento tardio do que chamou de “tentativa de golpe”.
Em 121 tópicos, a defesa argumenta pela nulidade do procedimento por dois motivos: a ausência de manifestação prévia da PGR e a falta de aprovação em plenário, antes da tramitação.
Moraes também contesta a validade técnica do relatório, alegando quebra na cadeia de custódia e que parte do trabalho teria contado com apoio de órgão externo, possivelmente estrangeiro, o que configuraria, em sua leitura, uma tentativa de interferência no processo eleitoral brasileiro. No entanto, Moraes não negou que tenha trocado mensagens com Vorcaro ou se encontrado com ele.
Desde que o relatório se tornou público, a Gazeta do Povo tenta contato com o gabinete do ministro, mas não obteve retorno.
O relatório mostra que houve comunicação, mas não revela o conteúdo de Moraes
A análise do celular de Vorcaro permite identificar a existência de comunicação com o contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, associado ao número atribuído ao ministro.
Também aparecem registros de mensagens temporárias e indicações de mensagens apagadas pelo remetente. O problema é que uma coisa é identificar que uma mensagem existiu. Outra é recuperar o texto que estava dentro dela.
Quanto às mensagens atribuídas a Moraes, não aparecem com o conteúdo textual recuperado, inclusive pelo fato de Moraes não ser investigado nem ter tido seu aparelho periciado. Em determinados momentos, o que resta é apenas uma indicação do próprio aplicativo de que uma mensagem foi apagada pelo remetente.
Isso significa que a perícia conseguiu estabelecer a existência de interações, mas não conseguiu reconstruir, por ora, o conteúdo dessas mensagens ou que aquele interlocutor não era alvo das apurações.
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O celular de Moraes poderia fornecer uma resposta diferente
Se o celular associado ao ministro fosse submetido à perícia, investigadores poderiam procurar registros do WhatsApp, bancos de dados, arquivos temporários e outros rastros relacionados às mensagens enviadas e fechar o cruzamento das informações.
Nesse cenário, a perícia não dependeria do material existente no aparelho de Vorcaro. Os investigadores poderiam procurar diretamente no dispositivo que teria sido utilizado para enviar mensagens.
Ainda assim, mesmo uma análise desse tipo não garantiria a recuperação de todo conteúdo, caso tenha sido apagado. A possibilidade dependeria do estado do aparelho, dados disponíveis e vestígios que ainda permanecessem armazenados.
A diferença estaria na origem dos dados. No caso de Vorcaro, a PF tinha acesso ao celular do ex-banqueiro. Para recuperar o conteúdo de uma mensagem enviada por outra pessoa, seria necessário encontrar sinais dessa mensagem no aparelho de Vorcaro ou analisar o dispositivo do próprio remetente. Investigadores acreditam ser improvável que o celular de Moraes possa ser submetido à análise.
Com base estritamente nas informações da PF, não seria possível dizer que se tenha recuperado o conteúdo escrito por Moraes a Vorcaro.
Às mensagens supostamente atribuídas a Moraes, essa cadeia de vestígios não aparece no material divulgado até porque o ministro não é alvo de investigação.
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