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O cerco a André Mendonça e a disputa pelo controle das investigações

Últimas atualizações em 02/09/2026 – 16:07 Por Redação GNI

A atuação do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal ganhou uma dimensão política que ultrapassa os limites dos processos que estão sob sua responsabilidade. Segundo reportagem publicada pela Revista Oeste, Mendonça estaria enfrentando resistência de setores do governo, da Polícia Federal, da Procuradoria Geral da República e de integrantes da própria Corte em razão de sua condução das investigações envolvendo o escândalo dos descontos indevidos no Instituto Nacional do Seguro Social e as suspeitas de fraude envolvendo o Banco Master.

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O primeiro ponto de tensão surgiu quando Mendonça foi sorteado, em agosto de 2025, para assumir a relatoria das investigações relacionadas ao INSS. Naquele momento, o caso já provocava enorme desgaste político para o governo Lula e começava a alcançar pessoas próximas ao núcleo político do presidente. A reportagem afirma que a chegada do processo ao gabinete de Mendonça provocou preocupação tanto no governo quanto em setores do STF.

A situação se tornou ainda mais delicada diante das informações reunidas pela CPMI do INSS. Segundo a Oeste, documentos analisados pela comissão apontaram relações entre Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha, e Antônio Carlos Camilo Antunes, chamado de Careca do INSS pela investigação. A reportagem também menciona a atuação da lobista Roberta Luchsinger e afirma que esses elementos aumentaram a pressão política em torno do caso.

Mendonça, entretanto, avançou com as investigações. Autorizou medidas para aprofundar as apurações e determinou que informações relevantes fossem preservadas sob controle de seu gabinete. De acordo com a reportagem, a Polícia Federal demorou meses para entregar determinados documentos ao ministro, apesar de ter solicitado anteriormente a quebra de sigilos. Mendonça teria cobrado os dados em diversas oportunidades.

Esse episódio colocou o ministro em confronto com a direção da Polícia Federal. A Oeste afirma que houve tentativas de limitar as decisões tomadas pelo relator e de transferir parte das investigações para outras instâncias. Uma dessas movimentações teria ocorrido quando uma nova investigação envolvendo Lulinha foi encaminhada ao STF sem indicação clara de que deveria permanecer com Mendonça. O novo sorteio, porém, novamente colocou o processo nas mãos do ministro.

A disputa ganhou outro capítulo com a CPMI do INSS. Mendonça havia permitido sua prorrogação, mas a decisão posteriormente foi submetida ao plenário do STF. Em março de 2026, por oito votos a dois, a Corte derrubou a prorrogação e encerrou os trabalhos da comissão. Para a Revista Oeste, esse episódio representou uma derrota para Mendonça e uma vitória para a ala do Supremo liderada por Gilmar Mendes.

Mas o caso do INSS não foi o único problema enfrentado pelo ministro.

Em fevereiro de 2026, Mendonça também passou a relatar processos relacionados ao Banco Master, depois da saída de Dias Toffoli da relatoria. A investigação envolvia suspeitas de uma fraude financeira de grandes proporções e alcançava empresários, instituições financeiras e agentes públicos.

Sob a relatoria de Mendonça, a Operação Compliance Zero avançou e foram autorizadas prisões e outras medidas cautelares contra pessoas ligadas ao caso. Foi justamente nesse momento que as divergências dentro do STF ficaram mais evidentes.

Gilmar Mendes passou a questionar aspectos da operação e estabeleceu comparações com a Operação Lava Jato. Mendonça reagiu afirmando que o STF não estava julgando a Lava Jato, mas uma investigação relacionada a uma grande fraude financeira. O ministro também procurou deixar claro que não pretendia utilizar prisões como instrumento para obter delações.

O ponto mais importante dessa disputa está na possibilidade de futuras contestações judiciais. A reportagem sustenta que os questionamentos feitos durante os julgamentos podem eventualmente ser utilizados pelas defesas para tentar anular procedimentos, provas ou decisões tomadas durante a investigação.

Essa é uma questão particularmente relevante porque o histórico recente do Judiciário brasileiro demonstra que problemas processuais podem ter consequências enormes. A própria Lava Jato tornou-se um exemplo de como decisões judiciais posteriores podem modificar completamente o destino de investigações que pareciam consolidadas.

Mendonça, segundo a reportagem, estaria justamente tentando evitar esse cenário. A estratégia seria produzir provas de maneira tecnicamente resistente, limitar diligências genéricas, controlar os procedimentos policiais e evitar que eventuais irregularidades processuais comprometam todo o trabalho investigativo.

A disputa, contudo, não estaria limitada aos processos. A Revista Oeste relata que Gilmar Mendes e Flávio Dino teriam pressionado pessoas próximas ao ministro e empresários que mantinham relações com ele. A publicação interpreta esses episódios como parte de uma tentativa mais ampla de isolamento político e institucional de Mendonça.

É nesse ponto que o caso deixa de ser apenas uma disputa jurídica e passa a revelar uma questão maior: qual será o equilíbrio interno do Supremo nos próximos anos?

As futuras aposentadorias compulsórias de ministros poderão modificar significativamente a composição da Corte. Segundo a reportagem, quatro vagas deverão ser abertas até 2033, o que poderá alterar a correlação de forças entre os diferentes grupos existentes dentro do tribunal.

O caso André Mendonça, portanto, precisa ser observado com atenção. Não apenas pelo conteúdo das investigações do INSS e do Banco Master, mas pelo significado institucional de um ministro enfrentar resistência enquanto conduz processos de enorme repercussão política e econômica.

É importante separar aquilo que está comprovado nos processos daquilo que representa interpretação política ou jornalística. A reportagem da Revista Oeste apresenta a existência de um movimento coordenado para limitar Mendonça como sua principal tese. Essa interpretação deve ser confrontada com documentos, decisões judiciais e manifestações oficiais das instituições envolvidas.

Ainda assim, uma pergunta permanece legítima e merece ser feita: quando um ministro do Supremo passa a enfrentar resistência justamente ao tentar preservar sua autonomia na condução de investigações sensíveis, quem fiscaliza os limites dessa resistência?

Essa talvez seja a questão mais importante de todo o episódio. Em uma democracia, instituições fortes não deveriam depender da personalidade de um ministro, de suas alianças ou de sua posição política. Deveriam depender das regras. E, acima de qualquer disputa entre grupos, deveria prevalecer uma coisa que interessa a todos os brasileiros: que investigações sejam conduzidas com independência, provas sejam preservadas e a Justiça alcance os responsáveis, qualquer que seja o nome ou a posição de quem estiver sob investigação.

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Redação GNI

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