Flávio Bolsonaro quer Forças Armadas contra o narcotráfico
Últimas atualizações em 18/08/2026 – 05:55 Por Redação GNI
A definição do papel das Forças Armadas e dos rumos da política externa expõe divergências estruturais entre as propostas contidas nos planos de governo de Flávio Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para as eleições deste ano.
O debate central gira em torno de discutir qual é a maior ameaça ao Estado brasileiro e como os recursos militares devem ser empregados.
A proposta de Flávio Bolsonaro, entregue no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 13 de agosto, prioriza o uso dos militares no combate ao crime organizado transnacional e às redes de narcotráfico que atuam na América do Sul. Já o plano do governo Lula, registrado no TSE no início do mês, direciona a atuação militar para dissuadir outros Estados de atacarem o Brasil.
O uso das Forças Armadas está alinhado com as propostas de política externa de cada um. Enquanto Flávio foca sua proposta de política externa no pragmatismo comercial, Lula aposta em uma proposta de política externa ideológica de alinhamento com os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos).
Flávio combaterá o narcoterrorismo regional
Na proposta de Flávio Bolsonaro, a soberania brasileira é associada diretamente à capacidade de segurança pública interna.
A avaliação central do plano é que o principal desafio enfrentado pelo país decorre da atuação de facções criminosas e redes transnacionais que operam além das fronteiras nacionais. A estratégia preconiza o envolvimento direto das Forças Armadas no combate às organizações narcoterroristas.
“Incentivaremos amplo espectro de tecnologias disponíveis, com foco em inovação como drones e inteligência artificial”, diz parte do plano de governo de Flávio sobre o combate ao narcotráfico e ao terrorismo.
Ao adotar essa abordagem, o plano de Flávio se alinha com a política externa americana, que vem focando esforços em erradicar o narcoterrorismo da América do Sul.
Lula fala em investimento militar e defesa contra inimigo externo
As diretrizes do plano de Lula fundamentam-se no conceito tradicional de defesa nacional, no qual a principal função das instituições militares é salvaguardar o território, a Amazônia e os recursos estratégicos diante de ameaças de países estrangeiros.
O texto do plano de Lula enfatiza que a segurança pública civil deve permanecer sob a gestão de órgãos específicos, enquanto as Forças Armadas mantêm seu foco na prontidão operacional e na autonomia tecnológica do Estado. Sem citar diretamente os EUA, o plano petista diz que o Brasil deve ser capaz de tomar decisões e adotar políticas independentes de influências internacionais.
Nesse contexto, o fortalecimento da Base Industrial e Tecnológica de Defesa (BITD) é apontado como vetor central para promover inovação e reduzir a dependência externa de suprimentos militares.
“Aprovamos nova legislação orçamentária que assegura previsibilidade e continuidade para os investimentos em defesa, o que garante continuidade dos projetos e fortalece a Base Industrial e Tecnológica de Defesa como vetor de inovação”, destaca o plano de reeleição do petista.
Modelos em contraste
A comparação das propostas evidencia duas doutrinas distintas para a atuação internacional e de segurança do Estado.
Segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, a proposta de Flávio Bolsonaro vincula a credibilidade internacional da soberania ao combate ostensivo do crime organizado, priorizando a cooperação com mercados consolidados e a convergência com padrões internacionais de governança.
A diretriz de Lula, por outro lado, concebe a soberania como a capacidade de manter autodeterminação geopolítica perante outros países, investindo em autonomia industrial militar e consolidando a integração com países de blocos emergentes, como o Brics.
Assim, a análise comparativa expõe dois caminhos definidos: de um lado, a convergência entre defesa nacional e segurança pública focada no narcotráfico; de outro, a separação constitucional entre defesa soberana contra ameaças de países estrangeiros e a segurança pública interna, como explica o especialista em Relações Internacionais Cézar Roedel.
“Flávio procura articular o retorno das relações com aliados tradicionais, como os Estados Unidos, e combater o crime organizado com mais pragmatismo, mesmo se for necessária a ajuda de aliados estrangeiros. A tônica de Lula é uma suposta defesa da soberania contra potências estrangeiras”, explicou.
O especialista em segurança e presidente da Associação dos Oficiais do Paraná, Alex Erno Breunig, acredita que a principal demanda do eleitor brasileiro é a segurança pública. Nesse cenário, investir em defesa contra outros países é, segundo ele, no mínimo desvio da realidade.
“Se a ideia do governo é proteger o país contra países vizinhos, não necessitamos de grandes ampliações nos investimentos. O Brasil não possui nenhum adversário potencial em suas fronteiras. Se a ideia do governo é proteger o território nacional contra grandes forças armadas, a exemplo dos EUA, não adianta investir”, disse.
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