Família condenada por homeschooling conta com 13 professores
Últimas atualizações em 24/08/2026 – 07:45 Por Redação GNI
Após ser condenada, em primeira instância, por manter os filhos em educação domiciliar, a família Vieira, de Blumenau (SC), tem chamado atenção pelos resultados educacionais apresentados. À Gazeta do Povo, a mãe Patrícia da Silva Vieira relata que os filhos em idade escolar são acompanhados por 13 professores e mantêm uma rotina que inclui disciplinas regulares, idiomas, música e programação. O primogênito cursa duas graduações simultaneamente, e todos os irmãos somam mais de 300 medalhas no xadrez.
“Isso acontece porque no homeschooling, nosso tempo rende muito mais”, afirma a mãe, ao explicar que, pela experiência da família, o estudo individualizado permite cumprir conteúdos acadêmicos em menos tempo do que ocorreria em uma escola regular. “E a gente prioriza a criança sendo criança, tendo uma vivência natural e saudável”, diz.
Segundo ela, a rotina da família inicia por volta das 6h30 com desjejum e organização da casa. Logo depois, das 8h às 12h, os quatro filhos em idade escolar se dedicam ao estudo das disciplinas previstas para cada etapa de aprendizado, como Português, Matemática, História e Ciências. Cursos extracurriculares, passeios e projetos ocorrem à tarde.
Patrícia informa ainda que o planejamento foca nas necessidades de cada filho. “O José Gabriel, de 6 anos, realiza atividades voltadas à alfabetização, enquanto o Philippe Miguel, de 8, está na fase gramatical”, explica a mãe, que é responsável pelo ensino dos menores.
À medida que crescem, os filhos passam a direcionar parte da formação ao desenvolvimento de habilidades. Thomas, de 13 anos, pediu aos pais cursos de programação de software. Kyara, de 16, se concentra em música e idiomas. Para isso, a família conta com acompanhamento de 13 professores particulares, que atendem um ou mais filhos durante a semana. “Aulas de violino, por exemplo, só eu faço”, afirma a adolescente.
Família optou pelo homeschooling após experiência do mais velho na escola
Patrícia aponta que foi a atenção às especificidades de cada filho que fez a família optar, há 13 anos, por esse modelo de ensino. A decisão, segundo ela, foi tomada após a experiência do filho mais velho, Igor Vieira, que ingressou em uma escola pública aos 6 anos, conforme legislação vigente à época, mas já havia sido alfabetizado em casa, no dia a dia com a família.
“Ele sabia ler, escrever com letra cursiva e ver as horas, e os amiguinhos ainda estavam aprendendo letras de fôrma e vogais”, conta a mãe.
“Isso fazia com que eu passasse boa parte das aulas esperando pelos demais, e lembro de sentir desinteresse pelas atividades escolares”, recorda Igor, que estudou na escola regular até os oito anos, frustrado.
“Nosso filho estava perdendo o gosto pela aprendizagem porque lá era somente um passatempo, enquanto em casa tínhamos que ficar aplicando por nossa conta conteúdos que trouxessem desenvolvimento”, relata Patrícia, que iniciou, então, a prática do homeschooling.
Aos 19 anos, Igor cursa duas graduações simultâneas e trabalha como professor
Hoje, Igor está com 19 anos e cursa simultaneamente as graduações de Letras e História. Poliglota, o rapaz também trabalha como professor de idiomas, História, Literatura e xadrez, além de atuar como árbitro nacional da modalidade. Ele dá aulas, inclusive, para os irmãos José e Philippe, de seis e oito anos.
“É uma rotina bastante intensa, mas flexível, e fui acostumado desde cedo a organizar meus próprios horários”, destaca o rapaz, que concluiu oficialmente os ensinos Fundamental e Médio ao ser aprovado nas duas provas do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja).
“E tive bom desempenho”, afirma o estudante universitário, que diz já ter recebido convites para estudar em países como Portugal e Itália. “Ainda não consegui aceitar, mas todos estão de pé”, comenta.
Crianças da família amam ler: “Somos uma família leitora”
Segundo Igor, um dos motivos para esse resultado é a prática da leitura, incentivada por seus pais desde cedo. “Sempre li muito em voz alta com meus filhos, então todos gostam”, revela Patrícia, que tem uma biblioteca familiar em casa e leva as crianças quinzenalmente à biblioteca pública de Blumenau. “Somos uma família leitora”.
As crianças, inclusive, chamam atenção pela quantidade de livros que leem. O filho Thomas Raphael, por exemplo, está atualmente com 13 anos, mas já era apaixonado pela prática aos seis, quando leu cerca de 60 livros durante o ano e concluiu a obra “O Pequeno Príncipe” em dois dias.

A irmã Kyara também coordena um clube de literatura online para que meninas de oito a 16 anos desenvolvam o hábito de ler. “Desde que iniciei, já passaram mais de 50 meninas”, afirma a jovem, que publica listas anuais de leitura da família no Instagram. A adolescente também é professora de latim e inglês, dando aulas para os irmãos mais novos e para turmas infantis.
Irmãos acumulam mais de 300 medalhas no xadrez
Outro ponto de destaque na rotina da família é o xadrez, pois todas as crianças aprendem a jogar desde cedo e são incentivadas a participar de torneios da modalidade. Segundo o pai, Diego Vieira, as crianças colecionam resultados em competições regionais e nacionais.
“São mais de 300 medalhas que meus filhos ganharam em competições de xadrez representando o município de Blumenau”, disse, em vídeo publicado nas redes sociais.

Em 2023, inclusive, os irmãos receberam uma Moção de Aplauso da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) em reconhecimento às conquistas no esporte. O destaque foi feito pela deputada estadual Ana Campagnolo.
Família Vieira foi condenada pela prática do homeschooling
Apesar dos resultados em 13 anos praticando homeschooling, Diego e Patrícia foram sentenciados, em julho, a pagar multa de aproximadamente R$ 65 mil e a matricular as crianças em rede regular de ensino. A decisão foi proferida pelo juiz substituto Willyam Guilherme Sandri Junior Lopes, da Vara de Infância e Juventude de Blumenau, e cabe recurso.
A Gazeta do Povo entrou em contato com a Vara, mas foi informada que as informações do processo são sigilosas e que a instituição não poderia passar informações. Durante a ligação, no entanto, a atendente disse que o juiz substituto que proferiu a sentença não estaria mais atuando no local e que a juíza titular da Vara daria sequência ao processo.
Segundo o advogado Marcelo Matteussi, a família apresentou embargos de declaração ao juízo de primeira instância e aguarda decisão. Caso o recurso não seja acolhido, recorrerá ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC).
Regulamentação da educação domiciliar segue parada no Senado
Atualmente, não há lei federal sobre o homeschooling no Brasil, mas o STF reconheceu, em 2018, que a educação domiciliar é compatível com a Constituição do país e que precisa de regulamentação.
O principal Projeto de Lei a respeito é o PL 1.338/2022, que já foi aprovado na Câmara dos Deputados, em 2022, mas segue parado na Comissão de Educação do Senado. Essa comissão é presidida atualmente pela senadora Tereza Leitão (PT-PE).
Gazeta do Povo
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