Moraes deflagra guerra interna no STF contra Mendonça
Últimas atualizações em 04/09/2026 – 00:17 Por Gazeta do Povo | Feed
Num movimento abrupto e inesperado, o ministro Alexandre de Moraes enviou nesta quinta-feira (3) ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, um pedido para investigar o colega André Mendonça no inquérito das fake news. O ato é uma reação à pretensão de Mendonça de investigar Moraes pelo envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro. Nos dois casos, a decisão compete ao plenário, formado por todos os integrantes do tribunal, cabendo a Fachin marcar o julgamento.
Com base em relatórios de inteligência fornecidos pelo diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, Moraes acusa Mendonça de direcionar as investigações sobre as fraudes do Banco Master e do INSS. O objetivo seria incriminar o próprio Moraes; o presidente do Senado, Davi Alcolumbre; e o filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fábio Luís, o Lulinha, suspeito de tráfico de influência no governo.
Numa decisão proferida dentro do próprio inquérito das fake news, Moraes imputou a Mendonça atos de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade – esse último, passível de impeachment, punição a que Moraes também está sujeito por causa das dezenas de denúncias de que já é alvo no Senado.
No documento, Moraes diz que, na supervisão das operações Compliance Zero (do Master) e Sem Desconto (INSS), Mendonça teria atuado com quebra da imparcialidade e para favorecer “determinados grupos políticos” – sem especificar quais exatamente.
Os relatórios de inteligência da PF citados por Moraes apontam que Mendonça teria dirigido diretamente as investigações, usurpando funções dos delegados que comandam as investigações. A premissa é que caberia ao ministro somente supervisionar os inquéritos, para evitar ilegalidades e excessos nas diligências.
“Avalia-se que o juízo relator vem exercendo, na Operação Sem Desconto e em feitos conexos, poderes típicos de presidência da investigação, e não de supervisão judicial, com três efeitos convergentes: subordinação de atos de gestão administrativa da Polícia Federal ao controle judicial; acesso direto ao acervo probatório bruto; e supressão da supervisão técnica do delegado sobre o produto analítico da unidade. Avalia-se que o terceiro efeito, corretamente compreendido, é o de maior gravidade”, diz um dos relatórios da PF citados por Moraes.
O direcionamento, segundo a direção da PF, se daria pela requisição de dados brutos extraídos de celulares apreendidos, interferência nas negociações de colaboração premiada e indicação prévia de medidas que deveriam ser apresentadas a ele pela PF.
A PF sugere que, com os dados brutos, sem análise conclusiva do delegado responsável, Mendonça poderia manipular as provas e selecionar apenas aquelas contra alvos de seu interesse. O mesmo poderia ocorrer em conversas com advogados de investigados interessados em fazer delação premiada.
Um dos relatórios diz que Mendonça teria extrapolado suas funções ao mandar a PF produzir o relatório que listou todas as mensagens de Vorcaro a Moraes. A inteligência da corporação diz que ele poderia no máximo pedir para a PF certificar que o destinatário era Moraes, não para reproduzir todas as menções ao ministro nas conversas que mantinha com interlocutores pelo WhatsApp.
“Isso não é identificação: é ato de investigação de alcance amplo, dirigido a pessoas determinadas, produzido sem autorização específica e perante juízo que, quanto a duas delas, não detém competência”, diz o relatório da PF.
Sobre Alcolumbre, a PF diz que, para Mendonça, o presidente do Senado “constitui provável alvo estratégico, considerada sua força política, o favoritismo para manter-se na presidência do Senado Federal e o consequente controle da pauta daquela Casa, notadamente quanto ao processamento de pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal”.
O direcionamento contra Lulinha, ainda segundo a PF, estaria na conclusão, atribuída a Mendonça, de que o ex-prefeito de Salvador ACM Neto não teria cometido tráfico de influência, embora suas condutas tenham sido semelhantes às do filho de Lula.
Por fim, a PF diz que, em reuniões com investigadores, Mendonça teria dito “reiteradamente” que não confiaria em Andrei Rodrigues em razão de sua “proximidade inadequada” com Lula. Do mesmo modo, teria dito que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, seria “indigno de confiança” por causa da proximidade com o ministro Gilmar Mendes. Segundo a PF, Mendonça ainda estaria cogitando chamar Gonet para depor como testemunha numa investigação para que, nesse caso, ele não pudesse atuar como representante da acusação.
André Mendonça ainda não se manifestou sobre essas imputações.
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A decisão de Moraes abre uma guerra interna no STF. O ministro tem aliados no tribunal que também questionam a atuação de Mendonça e que buscam enfraquecê-lo. Acusam-no de desgastar a imagem da Corte para favorecer a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL) e de buscar vingança contra Moraes em razão de sua atuação contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, que o indicou ao STF. Os principais apoiadores de Moraes são Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin.
Com o ato de Moraes, caberá a Fachin arbitrar um racha interno ainda mais profundo. Nesta semana, Mendonça pediu ao presidente do STF para levar a situação de Moraes ao plenário, para uma possível abertura de investigação. No relatório da PF que mandou produzir, comprovou-se que o ministro editou o contrato de R$ 131 milhões do Master com o escritório de advocacia de sua família. Provou-se, também, que Vorcaro consultava Moraes para escapar das investigações sobre as fraudes no banco.
Ainda na noite desta quinta, Fachin pediu a Mendonça que esclareça como o relatório foi produzido. O objetivo é verificar se o ministro atuou de forma regular ao mandar a PF produzir o documento. O procurador-geral, Paulo Gonet, se manifestou pela nulidade das provas, acusando Mendonça de atropelar o rito processual, que exige que qualquer ato de investigação contra um ministro seja condicionado à prévia abertura de um inquérito contra ele, autorizado pelo plenário do STF.
Gonet também sustenta que Mendonça não poderia ter determinado a produção do relatório porque isso não faria parte das atribuições do juiz, que deveria se limitar a supervisionar a investigação. A medida, nesse sentido, deveria ter partido de iniciativa da PF ou da PGR, se o inquérito já estivesse aberto e em andamento, cabendo ao relator somente autorizar ou não a medida.
De posse das informações, caberá a Fachin marcar a data de julgamento, no plenário do STF, para decidir se será aberto ou não o inquérito contra Moraes, e se as provas colhidas por Mendonça serão válidas ou anuladas, como defende a PGR.
O mesmo deve ocorrer agora com o pedido de Moraes para investigar Mendonça no inquérito das fake news. Fachin, no entanto, ainda não despachou nesse caso.
Em razão das pressões dos dois lados, em fogo cruzado, o presidente do STF passará agora a arbitrar o conflito entre Mendonça e Moraes. Desde que assumiu o cargo, em setembro, Fachin tem buscado melhorar a imagem do tribunal, desgastado com as revelações do envolvimento de Moraes e Dias Toffoli com o Master.
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