Malvinas: petróleo reacende disputa entre Argentina e Reino Unido
Últimas atualizações em 17/07/2026 – 23:12 Por AFP
A histórica disputa territorial entre Argentina e Reino Unido pelas Ilhas Malvinas, localizadas no Atlântico Sul, voltou a ganhar os holofotes nos últimos dias com a manifestação de jogadores durante uma partida de semifinal da Copa do Mundo, que ganhou apoio do governo de Javier Milei.
Mas, para além do campo esportivo, outra movimentação em relação ao território ultramarino reivindicado tem elevado a irritação da atual gestão da Casa Rosada com o país europeu: a exploração de petróleo a aproximadamente 480 km da costa da Patagônia.
Um projeto de cerca de US$ 2 bilhões, adiado por mais de uma década, ganhou forma e está prestes a impulsionar o setor energético do arquipélago controlado pelos ingleses. Trata-se do campo Sea Lion, descoberto em 2010.
A construção da infraestrutura que abrirá a região para a exploração de petróleo entrou em sua fase inicial e as primeiras extrações estão previstas para começar em 2028, o que dará um novo ritmo econômico ao território reivindicado pelos argentinos.
Investimentos em petróleo podem triplicar PIB do arquipélago
A irritação de Javier Milei com o novo investimento bilionário reside no fato de que a exploração de petróleo pode triplicar o atual Produto Interno Bruto (PIB) das Malvinas – estimado em cerca de US$ 164 milhões atualmente – sob controle dos ingleses.
Segundo projeções citadas pelo jornal britânico Financial Times, somente as primeiras extrações no arquipélago podem render 50 mil barris por dia até 2032. Já no pico da produção, o valor total acumulado de impostos e royalties estimados pelos proprietários do Sea Lion – a israelense Navitas Petroleum e a britânica Rockhopper – equivaleria a cerca de 280 milhões de libras por ano, ou seja, 80 mil libras anuais para cada um dos aproximadamente 3.500 habitantes das ilhas.
O governo das Malvinas, que possui certo grau de autonomia apesar do controle inglês, disse que parte das receitas do petróleo seria destinada à defesa do território e à manutenção da guarnição do Exército britânico na região.
Milei diz que exploração é tentativa do Reino Unido de avançar sobre recursos da Argentina
A perspectiva de um “boom” do petróleo na região voltou a esquentar a disputa diplomática, iniciada ainda na década de 1980, quando o arquipélago do Atlântico Sul foi palco de uma guerra entre os países. O território já era controlado pelos ingleses desde 1833.
Javier Milei deixou claro que defenderá a soberania de Buenos Aires sobre as Malvinas durante seu governo, apesar de ter adotado um tom menos belicista que a oposição kirchnerista.
Antes mesmo de ser eleito presidente, ele abordou o assunto em sua campanha, argumentando que o impasse deveria ser resolvido por meios diplomáticos. Em sua visão, a reconstrução econômica do país, uma prioridade de sua administração, também poderia ajudar a solucionar a questão de forma mais rápida.
Em abril do ano passado, durante as comemorações do aniversário da guerra das Malvinas, o presidente argentino afirmou que deseja transformar a Argentina em uma potência para que os próprios habitantes das Malvinas “prefiram ser argentinos”.
Em abril deste ano, o presidente argentino descreveu o Sea Lion como uma tentativa “unilateral e ilegítima” do Reino Unido de avançar sobre recursos que pertencem ao seu país. O governante prometeu empreender esforços diplomáticos para barrar o desenvolvimento do projeto.
A posição argentina se apoia na Resolução 31/49 da Assembleia Geral da ONU, aprovada em 1976, que recomenda à Argentina e ao Reino Unido que se abstenham de adotar medidas unilaterais capazes de alterar a situação das Ilhas Malvinas enquanto a disputa de soberania permanecer sem solução. Buenos Aires sustenta que a autorização para a exploração de petróleo se enquadra nesse tipo de medida, interpretação rejeitada por Londres.
O governo britânico afirmou recentemente que apoia o direito dos habitantes das Ilhas Falkland – como se refere às Malvinas – de explorar os recursos naturais do arquipélago em benefício de sua economia. Segundo Londres, a decisão de desenvolver a exploração de hidrocarbonetos foi tomada democraticamente pelos moradores das ilhas e cabe ao governo local conduzir o projeto em parceria com as empresas envolvidas. Para o Reino Unido, essa prerrogativa decorre do direito de autodeterminação dos povos.
Para Renata Alvares Gaspar, professora doutora em Direito Internacional, a exploração de petróleo tende a elevar a tensão entre Buenos Aires e Londres justamente por envolver um território cuja soberania permanece em disputa. “Apesar de os países não estarem mais em guerra, o território continua em disputa, visto que os britânicos mantêm domínio administrativo sobre as Ilhas Malvinas e a Argentina reivindica o arquipélago”, afirma.
Segundo a especialista, o governo de Javier Milei já sinalizou disposição para negociar com o Reino Unido, mas as conversas não avançaram. “Estamos falando de exploração de petróleo e, portanto, de poder econômico. Sem sombra de dúvida, essa autorização por parte desse consórcio pode abrir um novo capítulo nessa crise diplomática”, diz.
Empreendimento surge em momento de declínio da exploração energética no Reino Unido por pressão de políticas climáticas
Desde o início dos anos 2000, a exploração de petróleo no Mar do Norte vem caindo em até 80%. Parte desse declínio vem de políticas climáticas que ganham cada vez mais destaque nos planos dos governos europeus em meio a uma busca de equilíbrio entre as metas de neutralidade ambiental e a segurança energética.
O governo trabalhista de Keir Starmer endureceu as restrições à concessão de novas licenças para exploração de petróleo e gás no Mar do Norte, em linha com sua agenda climática. Como consequência, a indústria de petróleo e gás do Reino Unido teve o pior desempenho de todos os tempos em termos de atividades de exploração no ano passado, situação que tende a piorar, segundo a imprensa britânica.
A empresa de consultoria de energia Wood Mackenzie informou que nenhum poço foi perfurado em águas britânicas em 2025, o que marcou a primeira vez em que não houve atividade nova de exploração na bacia desde que petróleo e gás foram descobertos na região, ainda na década de 1960.
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