Coreia do Norte silencia sobre o Irã para tentar diálogo com Trump
Últimas atualizações em 15/04/2026 – 21:10 Por AFP
A Coreia do Norte tem adotado, desde o início do conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel, em 28 de fevereiro, uma postura diferente da que era inicialmente esperada em relação à guerra.
O regime de Kim Jong-un não enviou armas ao Irã, considerado um aliado de Pyongyang, como fez com a Rússia, por exemplo, para onde enviou milhares de soldados e munições para serem utilizadas na guerra contra a Ucrânia. Os norte-coreanos também não prestaram condolências pela morte do líder supremo Ali Khamenei, eliminado no primeiro dia de conflito.
No decorrer da guerra, que está sob cessar-fogo temporário, o Ministério das Relações Exteriores do regime emitiu apenas dois comunicados: no primeiro, um dia após o início do conflito, um porta-voz norte-coreano classificou os ataques de EUA e Israel como um ato ilegal de agressão e condenou o que chamou de comportamento “fora da lei” de Washington e Tel Aviv – mas sem mencionar diretamente o nome do presidente Donald Trump. No segundo, divulgado no dia 10 de março, Pyongyang disse respeitar a escolha iraniana de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo. Depois disso, silêncio.
Segundo a inteligência da Coreia do Sul, esse comportamento do país vizinho tem uma explicação: Kim Jong-un estaria evitando se comprometer neste momento para manter abertas as possibilidades de retomar o diálogo entre Washington e Pyongyang.
Sinal para Trump
O deputado Park Sun-won informou à imprensa sul-coreana que o Serviço Nacional de Inteligência (NIS) comunicou parlamentares, em sessão privada realizada no início deste mês, que a contenção de Pyongyang na guerra em curso no Oriente Médio é uma estratégia deliberada para tentar garantir espaço diplomático com Washington após a cúpula prevista para maio entre o ditador da China, Xi Jinping, e Donald Trump, que deve ocorrer em Pequim.
A leitura do parlamentar sul-coreano ganha força quando se considera o que Kim Jong-un disse no Congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte, em fevereiro.
Na ocasião, ele afirmou que não há razão para que Washington e Pyongyang “não se deem bem”, desde que os americanos reconheçam o status nuclear norte-coreano e abandonem sua “política hostil” contra o regime. O NIS afirma que a fala de Kim no Congresso foi “calculada” para manter aberto o canal diplomático com o presidente Trump.
Analistas do think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) estimam que há chances de Trump se reunir com Kim após o encontro com Xi, em maio. Ao jornal South China Morning Post, de Hong Kong, Victor Cha, especialista em Coreia do CSIS, observa que Trump trata Pyongyang de forma diferente de Moscou ou Pequim – em parte pela memória pessoal das três cúpulas que ele realizou com o ditador durante seu primeiro mandato, que, conforme explica o especialista, o chefe da Casa Branca considera um êxito diplomático a ser retomado.
Apesar do silêncio, Teerã e Pyongyang possuem forte cooperação militar
O distanciamento diplomático de Kim de Teerã no atual conflito, no entanto, não apaga as décadas de cooperação militar norte-coreana com o regime islâmico.
Para o professor Bruce Bechtol, da Universidade Angelo State e um dos principais estudiosos da relação entre Irã e Coreia do Norte, o atual arsenal de mísseis do Irã utilizado no conflito contra EUA e Israel carrega a “impressão digital” norte-coreana.
Segundo ele, isso vai desde os mísseis de curto alcance Qiam até os sistemas de mísseis de médio alcance derivados do norte-coreano Nodong, como o Shahab-3, com capacidade de atingir alvos a quase 2.000 quilômetros.
Em entrevista à Fox News, Bechtol ressalta que a Coreia do Norte não apenas vendeu tecnologia ao Irã nos últimos anos, mas também ajudou a construir fábricas de mísseis no país e treinou suas forças. Em outras palavras: Kim pode estar em silêncio sobre o Irã agora, mas suas armas já estão, de certa forma, no campo de batalha.
O peso da guerra no Irã no bolso da população norte-coreana
A guerra em curso no Oriente Médio já está pesando na economia da Coreia do Norte. Segundo monitoramento feito portal notícias independente Daily NK, junto a mercados informais do país, o preço da gasolina na Coreia do Norte subiu cerca de 17% em apenas duas semanas do mês de março, enquanto o diesel subiu mais de 20% no mesmo período.
A principal causa é a redução no fornecimento de petróleo pela China, principal parceiro de Pyongyang e maior comprador do petróleo iraniano. Com a alta das cotações globais provocada pelo conflito em Teerã, Pequim teria diminuído o volume enviado aos norte-coreanos, que não têm acesso ao mercado internacional por causa das sanções ao país, o que pressiona ainda mais os preços internos.
O impacto também chegou ao câmbio paralelo e aos alimentos. O dólar subiu no mercado negro, enquanto produtos importados e grãos ficaram mais caros. O milho, base da alimentação da população norte-coreana de baixa renda, registrou alta de 8,7% em duas semanas no último mês.
Segundo o serviço de inteligência sul-coreano, a Coreia do Norte também enfrenta neste momento dificuldades na cadeia de suprimentos industriais e tenta agora ampliar ainda mais o acesso ao petróleo da Rússia como alternativa à Pequim.
As lições do conflito em curso no Irã para Pyongyang
A guerra no Oriente Médio tem servido de laboratório para o regime de Pyongyang, segundo centros de pesquisa especializados. A morte do aiatolá Ali Khamenei logo no primeiro dia dos ataques reforçou, de acordo com análise do programa 38 North, da organização Stimson Center, a visão de Kim Jong-un de que o arsenal nuclear de seu país é inegociável – e de que a proteção da liderança e a até a existência de sistemas de comando alternativos são prioridades.
Nesse cenário, a Coreia do Norte intensificou seus testes com mísseis balísticos. Em março, a ditadura anunciou um novo motor de foguete de combustível sólido para mísseis intercontinentais, com capacidade para transportar múltiplas ogivas.
Os testes mais recentes também incluíram mísseis com ogivas de fragmentação, além do desenvolvimento de armas eletromagnéticas e bombas de fibra de carbono voltadas a desativar redes elétricas. Segundo os analistas, essas capacidades refletem lições operacionais extraídas diretamente dos conflitos na Ucrânia e, agora, no Irã.
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