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Vorcaro usou festas de luxo para capturar a cúpula da República

Últimas atualizações em 17/04/2026 – 05:42 Por Gazeta do Povo | Feed

O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado, que acabou rejeitado por seis votos a quatro após uma manobra do governo na noite de terça-feira (14), descreveu uma das etapas mais sofisticadas de infiltração nas instituições brasileiras, sobretudo as relações do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, acusado de montar um “arsenal de instrumentos de cooptação” para garantir uma rede de proteção que atravessava os três Poderes da República.

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O documento foi apresentado pelo relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE). A Gazeta do Povo procurou a defesa de Vorcaro, mas até a publicação da reportagem não obteve retorno. O espaço segue aberto.

Um dos pilares da estratégia dos convescotes, segundo o documento de 221 páginas, era a organização sistemática de festas privadas e eventos de altíssimo luxo voltados exclusivamente para autoridades, o que indica ser um modelo de negócios de Vorcaro.

Em mensagens trocadas com sua então noiva, Martha Graeff, interceptadas pela Polícia Federal e que constam no relatório da CPI, o próprio banqueiro admitia que a realização dessas festas não era um passatempo, mas parte de seu “business“. Ou seja, encontro de negócios.

Ao longo de sua trajetória como comandante do grupo financeiro, Vorcaro teria organizado cerca de 300 eventos desse tipo, segundo o relatório da CPI, todos desenhados para estabelecer vínculos de proximidade e dependência com e entre figuras-chave de diferentes poderes do Estado.

O relatório fala que o esforço de captura institucional ficou em registros contábeis e fiscais analisados pela CPI. Segundo apurações da Polícia Federal, apenas no ano de 2024, os gastos de Daniel Vorcaro com eventos e mimos para autoridades atingiram a marca astronômica de US$ 11,5 milhões, o que equivale a aproximadamente R$ 60 milhões na cotação da época.

Segundo o relator, há evidências de que os recursos não apenas financiavam o entretenimento, mas serviam para lubrificar as engrenagens de um sistema que buscava impunidade e favorecimento regulatório.

O relatório destaca que o volume desses repasses e festas cresceu de forma substancial no triênio 2023-2025, justamente o período em que o banqueiro mais necessitava de “proteção política” para viabilizar a venda de ativos e escapar do cerco das autoridades investigativas.

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Cine Trancoso tinha protocolo de sigilo e recrutamento internacional de mulheres

O capítulo mais sombrio das festas de Vorcaro se refere aos encontros realizados em uma casa de veraneio no sul da Bahia, em Trancoso, que ficou conhecido como “Cine Trancoso”. Ele ganhou destaque no relatório de Alessandro Vieira. De acordo com documentos da Polícia Federal entregues ao STF e compartilhados com a CPI, esses eventos eram descritos como reuniões destinadas a um “grupo restrito de autoridades”.

A logística do “Cine Trancoso” envolvia o recrutamento e o transporte, custeados pelo banqueiro, de mulheres estrangeiras provenientes de diversos países, incluindo Rússia, Ucrânia, Lituânia, Suíça, Noruega, Suécia, Holanda, México e Venezuela.

Segundo os investigadores, a escolha deliberada por mulheres de fora do Brasil não era apenas estética, mas estratégica: o objetivo era garantir que as convidadas não reconhecessem as altas autoridades brasileiras presentes, reduzindo o risco de vazamentos ou identificação dos participantes em escândalos futuros.

Para manter a blindagem total desses encontros, Vorcaro teria imposto protocolos rígidos de segurança. Todos os participantes eram obrigados a deixar seus aparelhos celulares desligados, sob a guarda de seguranças particulares da organização.

Enquanto as autoridades eram privadas de seus meios de comunicação para garantir o sigilo, Vorcaro mantinha na residência, ainda segundo o relator, um circuito interno de câmeras que registrava tudo o que ocorria.

Na visão do relator da CPI, esse sistema permitia que ele mantivesse registros de todos os presentes, criando um potencial e perigoso mecanismo de controle ou chantagem sobre os agentes públicos cooptados. O relatório não menciona nomes de possíveis autoridades frequentadoras desses eventos.

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Varredura digital revela 400 GB de arquivos sobre festas e relações do banqueiro

A confirmação da existência e do teor dessas festas não se deu apenas por depoimentos, mas por uma varredura digital, segundo o relatório apresentado à CPI. A investigação obteve acesso a aproximadamente 400 gigabytes de arquivos extraídos de celulares e do armazenamento em nuvem de Daniel Vorcaro.

O conteúdo desse acervo é descrito no relatório como “estarrecedor” e inclui registros de festas privadas em Brasília, Trancoso e até em Londres (essa ocorrida em abril de 2024); imagens de passaportes de dezenas de mulheres estrangeiras, o que comprovaria o fluxo internacional de transporte financiado pelo esquema, e vídeos de teor íntimo, que reforçariam as suspeitas sobre a natureza dos “serviços” e vantagens oferecidos nessas reuniões.

O relatório ressalta que esse material comprova que a proximidade social entre o banqueiro, magistrados e políticos extrapolava qualquer liturgia do cargo, apesar de nenhum nome estar diretamente vinculado às festas privadas.

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Alerta para tráfico de pessoas e exploração sexual

O relatório da CPI do Crime Organizado, que acabou rejeitado após uma manobra do governo, concluiu que o “negócio das festas” não constituía apenas um caso de lobby agressivo ou corrupção. O senador Alessandro Vieira destacou que as evidências apontam para possíveis práticas de crimes ainda mais graves. Segundo o documento, “há indícios robustos de tráfico internacional de pessoas e exploração sexual”.

A análise teria demonstrado que as mulheres estrangeiras eram recrutadas, transportadas e hospedadas para servirem como uma vantagem indevida, uma espécie de “moeda de troca”, para capturar parcelas do aparato estatal.

O relatório final sustenta que Daniel Vorcaro utilizou esse arsenal de experiências de luxo e redes de exploração para anular o dever de imparcialidade de magistrados e a capacidade fiscalizatória de órgãos reguladores.

Ao oferecer jatinhos privados, jantares e festas blindadas, o esquema do Banco Master teria transformado a função pública em mercadoria.

Relator cita supostos gastos com “Gilmarpalooza”

A agenda de reuniões sociais de Vorcaro incluía festas dentro e fora do Brasil, apesar de os eventos, por si só, não configurarem crimes em si pela natureza de suas realizações.

Um dos episódios mais detalhados pela CPI do Crime Organizado ocorreu durante o Fórum Jurídico de Lisboa, também conhecido informalmente como “Gilmarpalooza”, organizado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes.

Gilmar era um dos nomes de ministros que constavam no relatório de Vieira com pedidos de indiciamento, ao lado de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet.

O STF divulgou uma nota oficial em que manifestou repúdio à inclusão dos ministros no relatório final da CPI (leia o conteúdo na íntegra abaixo). No comunicado, assinado pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin, a presidência da Corte classifica como indevida a menção aos magistrados e destaca que eventuais desvios de finalidade nas CPIs podem comprometer pilares democráticos e ameaçar direitos fundamentais.

A nota reconhece a importância das comissões parlamentares como instrumento legítimo de fiscalização, desde que respeitados os limites constitucionais e a pertinência temática. O STF também reforça que ninguém está acima da lei, mas ressalta que os direitos fundamentais previstos na Constituição devem ser integralmente observados, assim como a independência entre os Poderes.

O tribunal afirma ainda que seguirá atuando na defesa da Constituição e das liberdades democráticas, reiterando a necessidade de respeito à autonomia institucional. Ao final, a Presidência do STF declara solidariedade aos ministros citados no relatório da CPI.

No relatório, Vieira chama atenção para o fato de que, paralelamente à programação oficial do evento em Portugal, a equipe de Vorcaro teria montado uma “agenda paralela” luxuosa, que incluiu festas com DJs, dançarinas profissionais, jantares em restaurantes premiados e até excursões de compras em shoppings de luxo.

Somente nessa incursão em Lisboa, as despesas chegaram a US$ 1,6 milhão, cerca de R$ 8 milhões. O pacote de hospitalidade teria incluído ainda o fretamento de dois jatinhos particulares para transportar autoridades de volta ao Brasil, ao custo de US$ 232,6 mil, próximo de R$ 1,2 milhão na cotação da época.

Gilmar Mendes pediu que a Procuradoria-Geral da República investigue o relator por possível abuso de autoridade. Para ele, o documento gera constrangimento institucional ao propor o indiciamento de ministros do STF.

O ministro também criticou o conteúdo do documento, classificando-o como uma tentativa de desviar o foco das investigações e de inflar o debate político com interesses eleitorais. Ele também questionou a legalidade dos pedidos ao sustentar que CPIs não têm competência para indiciar por crimes de responsabilidade e apontou uma tentativa de deslegitimar instrumentos como o habeas corpus.

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Confira na íntegra a nota emitida pelo STF

A Presidência do Supremo Tribunal Federal repudia de forma enfática a indevida inclusão e o alegado envolvimento dos Ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, indevidamente mencionados no relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Crime Organizado, no Senado Federal.

A Presidência reconhece que é uma garantia fundamental da democracia o exercício das Comissões Parlamentares de Inquérito, nos limites constitucionais e circunscritas à pertinência temática que deu ensejo à sua criação, como instrumento de fiscalização e controle pelo Poder Legislativo e da sociedade.

Desvios de finalidade temática dessas Comissões, todavia, enfraquecem os pilares democráticos e ameaçam os direitos fundamentais de qualquer cidadão.

Ninguém está acima da lei, e os direitos fundamentais prescritos na Constituição devem ser integralmente observados. A independência do Poder Legislativo deve ser preservada na apuração de fatos, sempre com responsabilidade e pertinência.

Este Tribunal está ciente de que cabe a todos respeitar a independência e a autonomia dos Poderes da República, como é da secular tradição de nossas instituições.

O Supremo Tribunal Federal reafirma que seguirá firme em sua missão de guardar a Constituição e proteger as liberdades democráticas. A Presidência se solidariza, por isso, com os colegas Ministros mencionados no relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Crime Organizado.

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