Um Príncipe em Nova York 2

Não é nenhum exagero dizer que Um Príncipe em Nova York revolucionou o cinema. No longa de 1988, a imagem estereotipada da África em Hollywood foi confrontada com uma direção de arte impressionante. Eddie Murphy iniciou a tradição de interpretar diversos personagens em um mesmo filme; mas, acima de tudo, o longa marcou como o primeiro filme com um elenco inteiramente negro que foi um sucesso ao redor do globo. Esse fenômeno cultural foi estabelecido e replicado apenas, talvez, com o lançamento de Pantera Negra décadas mais tarde. O legado do filme de John Landis é tão grande, que a sequência que chega anos depois carrega uma responsabilidade imensa nos ombros.

Por isso, é um alívio ver que Um Príncipe em Nova York 2 soube seguir os passos do primeiro e investir em suas forças. Se Zamunda teve tanto impacto cultural, que passemos mais tempo em Zamunda. Se os barbeiros se tornaram icônicos, que vejamos eles novamente. O roteiro de Kenya Barris é tão espertinho que traz nossos queridos personagens de volta para recriar diversos momentos, estabelecendo uma história que remete à original, sem fazer disso uma viagem sem imaginação. Mesmo que a trama da sequência se assemelhe à do primeiro longa, Um Príncipe em Nova York 2 faz questão de evoluir personagens, trazendo para o centro a importância de lidar com decisões feitas no passado.

Três décadas depois de passar uma temporada em Nova York com seu fiel amigo Semmi (Arsenio Hall), o agora Rei Akeem (Murphy), ainda casado com Lisa (Shari Headley), descobre que tem um filho bastardo deixado para trás na América. Voltando ao solo estadunidense, a dupla relembra momentos do primeiro filme, se conecta com novos parentes e traz o jovem Lavelle (Jermaine Fowler) para aprender a ser rei no país da África. Mas claro, estamos em 2021, e a ideia de recuperar um herdeiro homem para se tornar regente de Zamunda não é tão bem recebida pelas três filhas de Akeem. Tudo isso acontece enquanto o rival do Rei, o General Izzi (Wesley Snipes), insiste em um casamento arranjado entre Lavelle e sua filha para unir os povos de Zamunda.

O desejo de honrar o legado do primeiro permeia toda a sequência. Com a consciência de que seria impossível recriar a importância do original, Um Príncipe em Nova York 2 aproveita o espaço para elevar os figurinos, a direção de arte, e explorar a única questão que se tornou ultrapassada sobre o primeiro filme: a voz das mulheres. Aqui, existe uma vontade de explorar o empoderamento feminino com personagens mais desenvolvidas e centrais. Ainda que isso não tenha sido realizado de modo completo – afinal, teria sido mais interessante explorar as princesas de Zamunda ao invés de simplesmente colocá-las como injustiçadas – a intenção de centralizar a questão é clara. A sequência também dá uma ótima piscadela para o original e a relevância da rainha para os acontecimentos.

Já que estamos falando de tropeços, sejamos rápidos e concisos, porque a sequência merece muito mais elogio do que crítica. Mas vale notar que Um Príncipe em Nova York 2 tem uma quantidade incômoda de merchandising e traz de volta cenas do original de um modo peculiar, simplesmente dando play no primeiro filme em alguns momentos. A ideia é justificável, já que seria necessário apresentar o mundo do primeiro filme para o novo público, mas reproduzir cenas inteiras do longa anterior certamente parece deslocado no novo filme.

Para compensar, temos um clima divertido de Um Maluco no Pedaço na nova situação de Lavelle, um romance bem construído e a presença de basicamente todos os personagens que marcaram o primeiro filme. Mais engraçado que o primeiro, Um Príncipe em Nova York 2 aproveitou sua posição para reunir um elenco e participações especiais gigantes em uma celebração da cultura africana e afro-americana que resulta em uma festa – cheia de números musicais – e aparições de Salt-N-Pepa, Gladys Knight e atores que farão o público levar um susto. Neste cenário, as adições de Leslie Jones e Tracy Morgan são ótimas, e Wesley Snipes rouba as cenas em que aparece com uma faceta cômica deliciosa de ver.

A sequência também tem uma autoconsciência afiada, que sabe tirar sarro do politicamente correto ao mesmo tempo que tem o coração no lugar certo. O filme de Craig Brewer merece aplausos pelo carisma e leveza que ele conseguiu levar para uma obra tão importante. É difícil honrar a tradição e levar a história para frente do modo que Um Príncipe em Nova York 2 fez.

Júlia Sabagga, Omelete, Rede GNI