Um desabafo do nosso chefe de redação – Gazeta do Povo

Olá, tudo bem?

Antes de qualquer coisa, preciso me apresentar.

Meu nome é Ewandro Schenkel. Sou um dos chefes de redação da Gazeta do Povo, jornal no qual trabalho há mais de 20 anos e de onde pude observar e cobrir os principais acontecimentos do país neste período.

Sinto que temos algo em comum que precisamos conversar: o descrédito descomunal pelo qual passa o STF, que deveria ser o guardião da nossa Constituição e, por consequência, do estado democrático de direito.

Claro que eu já desconfiava que a imagem dos ministros não era das melhores entre os leitores. Mas quando me deparei com os resultados parciais do Quiz do STF, em que pedimos aos nossos leitores para avaliarem os ministros do STF (e que você pode responder neste link), os números me deixaram atônito. Por isso quis escrever esta carta.

Até o momento, os leitores e assinantes da Gazeta do Povo estão dando uma nota média de 1,1 ponto entre dez possíveis. É uma falência de imagem que nunca imaginei me deparar.

Se 1,1 é uma média, isso significa que praticamente todos os ministros estão mal avaliados. E entre os que detêm a pior avaliação dentro do universo de respostas colhidas até aqui estão figuras que, de alguma maneira, condensam o papel a que se presta o STF em tempos atuais.

O pior avaliado é o ministro Gilmar Mendes, com estonteante 0,2 ponto. Mendes é contra a prisão em segunda-instância, a delação premiada e a condução coercitiva, comumente aplicada no país até que foi usada contra o ex-presidente Lula, réu em diversas ações.  Recentemente, ele manobrou a pauta do STF para inverter o papel histórico da Lava Jato.

Gilmar Mendes promoveu o debate judicial sobre a parcialidade de Moro, não provada, aliás, e salvou a pele do ex-presidente Lula, que dispara na construção de sua candidatura à presidente. Poucas ações recentes tiveram impacto tão direto nas eleições.

Logo atrás dele estão empatados com incrível 0,3 ponto Dias Toffoli, que votou pela anulação de uma delação que poderia atingi-lo, Ricardo Lewandowski, que salvou os direitos políticos de Dilma após o impeachment em claro desacordo com a Constituição, e Alexandre de Moraes, o juiz que investiga, denuncia e julga (e se diz vítima) no indecoroso “inquérito das fake news”.

O resultado final, com a média de cada ministro do STF, será divulgado no dia 1º de julho, em primeira mão por e-mail, para todos que responderem o Quiz do STF.

O STF se tornou muito ativo nos últimos anos. Principalmente após abrir as portas para os partidos que perderam espaço dentro do Congresso e relevância dentro da sociedade. Muitas pautas que deveriam estar sendo debatidas dentro do Legislativo pegam atalhos em alguma “ação direta” por algum partido sem voto para que o STF promova “os seus avanços”.

E aqui vou chover no molhado: aborto, ideologia de gênero e questões econômicas intervencionistas conseguem vitórias no tribunal enquanto são completamente rechaçadas pela maioria da população. Assim, o ativismo judicial acaba criando leis (papel do legislativo) e determinando como e quando devem ser executadas, sequestrando o papel do Executivo (vide o caso do censo demográfico).

Como falei no começo deste texto, temos algo em comum para conversar. Eu provavelmente não daria uma nota muito maior do que a média dos leitores.

Considero, inclusive, que o STF é hoje um dos poderes que mais desafiam a confiança no estado democrático de direito, cujos poderes deveriam servir de contrapesos entre si. Isso sem falar na instabilidade jurídica gerada por decisões que oscilam conforme os ventos. Decisões estas que têm suas contradições expostas na cobertura diária aqui na Gazeta do Povo.

Posso dizer que poucos jornais no Brasil são tão críticos ao ativismo judicial corrente. Contestamos sempre que o STF decide reinterpretar os textos da Constituição com contradições evidentes. Nos contrapomos mesmo sabendo que esta posição pode trazer consequências.

É preciso ter coragem para jogar luz no que talvez seja hoje o poder que, desculpe-me a redundância, é o poder que detém o maior poder. E também é preciso ter perseverança, pois a única saída é a longo prazo, com a troca paulatina dos ministros atuais por, torço, juristas renomados e que sejam fiéis aos textos constitucionais e com reputação ilibada.

Se concordamos na avaliação atual do STF, espero que concorde comigo quando classifico a Gazeta do Povo como um dos pilares da defesa da liberdade de expressão no Brasil. E, por isso, deixo um pedido para que considere se tornar um assinante e nos ajudar nessa batalha.

Por um Brasil melhor,

Ewandro Schenkel
Chefe de Redação

Um desabafo do nosso chefe de redação


Publicado com Autorização