Suspeitas vagas e coincidências baseiam ação sobre Dark Horse
Últimas atualizações em 14/09/2026 – 12:25 Por Gazeta do Povo | Feed
As investigações sobre o Dark Horse, o filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, se baseiam principalmente em suspeitas vagas, coincidências e informações preliminares. Foi o que mostraram os documentos que vieram a público no fim de semana com a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, de levantar o sigilo do caso.
Para juristas, a própria fundamentação do despacho revela dados ainda preliminares, condições dependentes de prova e ressalvas do relator que constituem pontos suscetíveis de questionamentos.
Segundo o constitucionalista Alessandro Chiarottino, chama atenção o caráter hipotético das imputações. A decisão situa a posição do deputado Mário Frias como “agente central” ou “liderança” no “terreno hipotético da investigação”, apoiando-se em “fortes indícios” e na utilização de empresas que teria ocorrido “em tese”.
Há evidências de desvios de recursos públicos contra empresas de Karina Ferreira da Gama, que é produtora do filme. Mas a conexão dessas suspeitas com o Dark Horse se baseia apenas em coincidências temporais, hipóteses de triangulação de recursos e no fato das empresas e da produtora do filme terem o mesmo endereço.
Para Chiarottino, essa formulação evidencia que determinadas conclusões ainda dependem da evolução da investigação e da consolidação dos elementos probatórios.
A alegação usada por governistas para atacar Flávio Bolsonaro de que uma das empresas de Karina teria conexão com a facção PCC (Primeiro Comando da Capital) se baseia em um relatório de inteligência que nunca foi apresentado.
O criminalista Márcio Nunes aponta como questão juridicamente sensível a alegação de vínculo com o PCC. “Essa conexão é sustentada por “menção a atos interligados” e pela “linha investigativa mencionada nos autos”, sem que o corpo do despacho detalhe elementos probatórios diretos e consolidados que demonstrem essa ligação”.
Além disso, foram achadas brechas para a adulteração de provas no material apreendido pela polícia, o que pode apontar tentativa de manipulação de provas.
Ao menos 13 celulares, computadores e pendrives foram recusados pela perícia porque foram colocados em sacos com problemas de lacre. Os peritos suspeitaram que os aparelhos poderiam ser conectados a cabos para inserção de provas falsas depois de terem sido apreendidos.
A polícia de São Paulo disse que ao todo 27 aparelhos foram apreendidos. Sobre os que poderiam ter adulterações a Secretaria de Segurança Pública afirmou que: “o procedimento foi documentado, os itens foram novamente lacrados e, posteriormente, recebidos pela perícia.”
Inquérito não identificou transação entre empresas suspeitas e filme sobre Bolsonaro
No último domingo (13), Dino determinou a quebra do sigilo dos autos da investigação que apura se os recursos de emendas parlamentares e de contratos com a prefeitura de São Paulo repassados para o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e para a Academia Nacional de Cultura (ANC) teriam sido destinados para a produção de Dark Horse.
O ICB e a ANC são empresas de Karina Ferreira da Gama, que também é sócia proprietária da Go Up Entertainment, produtora do filme que relata a trajetória de Bolsonaro.
Nas quase quatro mil páginas que vieram a público por ordem de Flávio Dino, não há comprovação de transferências bancárias da conta do ICB, da conta específica do contrato com a Prefeitura de São Paulo e da ANC para a conta da Go Up, responsável pelo filme.
Os autos demonstram que as representações e investigações ainda não foram capazes de individualizar uma transação ou operação financeira concreta que estabeleça o trânsito direto de recursos públicos para a atividade cinematográfica. Os investigadores levantam a hipótese de transferências indiretas de contas não identificadas.
Karina nega que o filme Dark Horse recebeu dinheiro público. “Dark Horse não tem emenda. Não existe emenda para Dark Horse, nenhuma emenda. Nunca foi feito projeto público para o Dark Horse, nunca foi”, afirmou ela à CNN Brasil.
Após a retirada do sigilo da operação, sua defesa afirmou que considera positiva a decisão do ministro e que “a publicidade dos elementos da investigação permitirá que os fatos sejam conhecidos em sua integralidade e examinados objetivamente, para além de especulações ou juízos antecipados”.
O constitucionalista André Marsiglia avalia que a retirada do sigilo do material teria produzido, na prática, um “inquérito paralelo”. Isso porque também há investigações sobre o Dark Horse com o ministro André Mendonça.
Para Marsiglia, a medida adotada por Dino poderia gerar conflito de competência e produzir efeitos sobre a condução das investigações por Mendonça. O jurista interpreta as referências feitas por Dino a posições de Mendonça e Edson Fachin sobre publicidade processual como parte de uma construção argumentativa destinada a preparar o debate no Plenário do STF.
Mário Frias é relacionado nas investigações
O deputado federal Mário Frias (PL-RJ) também é investigado. Ele foi alvo da operação Make Up da Polícia Federal, deflagrada no dia 10 para apurar os supostos desvios relacionados à produção de Dark Horse.
Ele é identificado como um dos roteiristas do filme e algumas de suas emendas enviadas a empresas de Karina para outros fins são alvo de suspeitas de irregularidades.
O deputado classificou a operação policial como uma “cortina de fumaça”. Em publicação em suas redes sociais, negou quaisquer irregularidades, declarou-se à disposição para colaborar com a entrega de documentos e afirmou que confia no arquivamento do processo.
Diante desse cenário, Chiarottino ressalta a admissão, pelo próprio relator, dos riscos associados ao levantamento do sigilo. Ao determinar a publicidade dos autos, Dino reconhece tratar-se de uma “viragem jurisprudencial” que demandará “debates mais profundos no Plenário do STF”, admitindo possíveis reflexos sobre a presunção de inocência e sobre a eficiência das investigações.
Dino, no entanto, afirma nos autos que há suspeitas de que Frias integre uma organização criminosa que desviou recursos públicos para financiar a obra.
“As diligências preliminares indicam a possível ocorrência de crimes, notadamente desvios de recursos públicos, praticados por organização criminosa – integrada pelo Deputado Federal Mário Frias – que teria direcionado verbas federais, via termos de fomento custeados por emendas parlamentares, repassadas às Organizações Sociais denominadas Instituto Conhecer Brasil (ICB) e Academia Nacional de Cultura (ANC) – ambas presididas por Karina Ferreira da Gama”, escreveu o ministro na decisão que autorizou a operação da PF.
Como Dino tenta ligar suspeitas sobre Karina e Frias com o Dark Horse
A investigação sobre os possíveis desvios para a produção de Dark Horse que tramitava em São Paulo foi remetida ao STF por determinação de Dino, após pedido da Polícia Federal (PF). Segundo a PF, as investigações não apuram esquemas isolados, mas, sim, um contexto único articulado para captar, circular e ocultar verbas públicas.
Os recursos investigados têm duas origens. Uma delas é um contrato entre o ICB e a prefeitura de São Paulo no âmbito do projeto WiFi Livre SP, para fornecimento de 5 mil pontos de wi-fi na cidade. Firmado em 2024, o valor inicial do contrato era de R$ 108 milhões e chegou a R$ 157 milhões em razão de aditivos.
A outra origem seria de emendas parlamentares no valor de R$ 2 milhões do deputado Mário Frias destinadas ao Instituto Conhecer Brasil para a realização dos projetos sociais “Jovem Empreendedor” e “Lutando pela Vida”, sendo R$ 1 milhão para cada.
Os argumentos que a investigação usa para ligar o filme a suspeitas que recaem sobre as empresas de Karina e as emendas de Frias:
- Gestão única e sede compartilhada: Karina Gama figura simultaneamente como presidente do ICB, da ANC e única sócia e produtora executiva da Go Up Entertainment Ltda. (empresa privada que atuou na produção do filme). Além disso, o ICB, a Go Up e outra empresa ligada à Karina, a GO7, compartilham a mesma sede física na Avenida Paulista.
- Coincidência temporal: As gravações do filme Dark Horse ocorreram no mesmo período de vigência e de repasses do contrato com a Prefeitura de São Paulo, sem que a origem do financiamento privado do longa tenha sido identificada ou declarada.
- Hipótese de triangulação indireta: Diante da ausência de repasses diretos, a Polícia Civil e o Ministério Público trabalharam com a linha de apuração de que o dinheiro público pode ter sido “pulverizado” por meio das contas das empresas subcontratadas e das contas pessoais da investigada para, posteriormente, ser lavado e canalizado ao custeio do filme.
Quais são as suspeitas sobre as empresas de Karina
Os autos mostram que o ICB firmou contratos no valor de R$ 98 milhões com empresas subcontratadas e apresentou R$ 8,5 milhões em faturas sem valor fiscal, notas fiscais canceladas após a emissão e autofaturamento contra si mesmo. A empresa de Karina não tinha experiência na instalação de internet e subcontratou outras companhias.
Segundo a documentação, o ICB teria apresentado notas e faturas inidôneas, falsas ou canceladas para a prestação de contas do projeto WiFi Livre SP. Algumas são do próprio instituto, enquanto outras são de empresas terceirizadas contratadas para prestar serviços ao projeto.
Quatro dessas faturas, no valor de R$ 8,5 milhões, foram emitidas por uma empresa de tecnologia digital, subcontratada pelo ICB para a locação de equipamentos eletrônicos e prestação de serviços no projeto.
Ao menos três notas fiscais foram emitidas pelo próprio ICB como tomador e prestador de serviços, no valor de R$ 1,4 milhão. Essas faturas foram apresentadas para justificar gastos gerais do projeto.
Além disso, uma nota fiscal emitida por outra terceirizada no valor de R$ 2 milhões foi cancelada no mesmo dia de sua emissão, 6 de novembro de 2025. O documento foi incluído na prestação de contas por custos com serviços de verificação e reparo técnico de equipamentos.
Outras três notas de uma outra empresa, no valor de R$ 405 mil, também foram canceladas poucos dias após a emissão. Foram apresentadas na comprovação de despesas relativas ao exercício de 2024 do projeto, sob a justificativa de aluguel e fornecimento de equipamentos.
Segundo a investigação, a emissão e o uso das notas teriam servido para respaldar ou encobrir saídas massivas de recursos da conta do projeto sem a efetiva contraprestação dos serviços ou o recolhimento dos impostos devidos.
Investigação aponta que valor de serviços foi superfaturado
A investigação ainda aponta que o valor dos serviços prestados para o projeto está acima do valor de mercado. De acordo com o contrato, o valor pago ao ICB foi de R$ 1.800,00 por ponto público de internet por mês. Contratos anteriores da prefeitura com a estatal PRODAM custavam cerca de R$ 230,00 para implantação e R$ 306,00 para manutenção.
Além disso, dos 5 mil pontos previstos, apenas 3.200 foram instalados. A prefeitura, contudo, repassou cerca de R$ 69 milhões ao instituto quando o valor proporcional seria R$ 43 milhões, gerando uma diferença não explicada de R$ 26 milhões.
A prefeitura de São Paulo afirmou que a contratação do ICB ocorreu por chamamento público transparente, que a execução é monitorada e que é “descabida” e “irresponsável” qualquer associação entre o contrato do programa WiFi Livre SP e o financiamento do filme Dark Horse.
Há suspeita sobre repasses de Mário Frias
Na decisão que autorizou a operação Make Up, há menção a relatórios de inteligência financeira (RIF) do Conselho de Controle Atividades Financeiras (Coaf) e a análises da Polícia Federal detalhando transferências efetuadas por Mário Frias diretamente para a Go Up e uma empresa subcontratada de Karina.
Segundo o relatório, Frias repassou R$ 645 mil em transferências diretas de suas finanças pessoais para a Go Up, entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. O documento menciona a incompatibilidade material entre o valor da remessa e os rendimentos mensais declarados pelo parlamentar (R$ 44.008,52).
A decisão aponta que a circulação de valores entre o parlamentar, empresas subcontratadas para o projeto WiFi Livre SP e o Instituto Conhecer Brasil (ICB) configuraria um “circuito financeiro fechado”. A presença das transferências pessoais do deputado para a Go Up o coloca, segundo a investigação, como participante ativo da engrenagem financeira sob apuração.
Apuração também aponta para possível ligação com PCC
A investigação ainda cita a subcontratação pelo ICB de uma empresa terceirizada para instalação de pontos de wi-fi em favelas de São Paulo, no valor de R$ 12 milhões. A empresa, segundo os autos, é controlada por um empresário que Dino diz ser membro do PCC. Ele baseia a afirmação em relatórios de inteligência que não constam no inquérito e até o momento não têm valor legal.
Na petição em que autoriza a operação Make Up, Dino cita que informações de órgãos de inteligência da polícia apontam que o suspeito seria “membro relevante da facção criminosa PCC no estado”. Consta ainda que ele esteve preso sob acusação de feminicídio.
Notas fiscais incluídas na documentação evidenciam que o ICB teria feito pagamentos de R$ 3 milhões para a empresa.
Nesse contexto, Nunes destaca a dependência de elementos probatórios ainda pendentes. Ou seja, ao retirar o sigilo do caso Dino também determinou que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) quebre o sigilo bancário de Karina e de empresas que tiveram relações com ela.
A medida é uma providência destinada à “confirmação ou não” das teses investigativas, enquanto o próprio despacho reconhece que diversos materiais apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo permanecem “pendentes de extração pericial”.
A divulgação precoce da investigação e as quebras de sigilo determinadas por Dino no domingo (13) apontam para suspeitas vagas e apurações preliminares. Os relatórios do Coaf podem confirmar ou descartá-las. Mas se algo mais for achado pelo Coaf o procedimento de Dino deve ser classificado por opositores como pesca probatória – quando emite-se uma ordem de quebra de sigilo para encontrar crimes diferentes dos originalmente investigados.
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