Sem brechas para nulidades, Vorcaro tenta terceira delação
Últimas atualizações em 14/08/2026 – 06:07 Por Gazeta do Povo | Feed
Preso pela segunda vez desde março deste ano, Daniel Vorcaro reforçou sua equipe jurídica para tentar destravar uma nova proposta de colaboração premiada – a terceira desde que se tornou alvo das investigações e da Compliance Zero -, mas ele tem encontrado um caminho espinhoso pela frente.
Sem muitos trajetos abertos para explorar brechas e tentar nulidades processuais capazes de reverter a situação, a aposta do ex-controlador do Banco Master passou a ser reconstruir a relação com as autoridades responsáveis pela investigação, movimento que promete render, ainda nesta semana, uma reunião entre seu novo advogado e o ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF).
Quem assumiu a tarefa de reabrir esse canal foi o criminalista Daniel Bialski, contratado há poucos dias para atuar ao lado do advogado Sérgio Leonardo, que acompanha Vorcaro desde o início das investigações. Bialski já defendeu nomes como o ex-governador do Rio Cláudio Castro e atuou em casos relacionados à Lava Jato.
Ele deve dizer ao ministro que pretende apresentar uma proposta de colaboração viável e ampla, avaliando haver espaço para uma nova rodada de negociação. O próprio Bialski afirmou na terça-feira (11) que pretende retomar essas tratativas para o acordo de colaboração premiada.
Segundo ele, Vorcaro está disposto a prestar esclarecimentos e colaborar com as investigações, mas a defesa ainda precisa aprofundar o conhecimento sobre as acusações e sobre as informações apresentadas nas tentativas anteriores de delação, rejeitadas pela PF e pela PGR.
O advogado confirmou que pediu a audiência com Mendonça e pretende ampliar o tempo de visitas a Vorcaro na Papudinha nos próximos dias.
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Uma reformulação completa da estratégia
Neste momento, a intenção da defesa não seria simplesmente reapresentar uma versão ajustada das duas propostas anteriores, ambas rejeitadas pela Polícia Federal (PF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), mas recomeçar as tratativas do zero, dessa vez com uma delação mais robusta e com um potencial de entregar mais.
Para isso, os advogados protocolaram um pedido formal para que o STF autorize acesso ampliado a Vorcaro, de até seis horas diárias, tempo que seria usado para um levantamento completo de tudo o que o banqueiro sabe sobre o esquema do Master, na tentativa de afastar a desconfiança de que ele estaria omitindo informações e nomes relevantes do esquema.
A ideia é que, se a negociação for retomada, ela ocorra de forma simultânea com a PF e a PGR, evitando o desgaste de conversas fragmentadas com cada órgão separadamente. A defesa também estaria sinalizando, nos bastidores, um discurso de transparência total com as instituições.
As duas tentativas frustradas de acordo deixaram claro, segundo fontes ligadas à investigação, quais são os pontos que Vorcaro precisará resolver caso queira emplacar uma eventual terceira proposta. O primeiro é a exigência de que ele assuma formalmente a autoria dos crimes apurados, algo que teria irritado tanto a PF quanto a PGR por não ter sido feito nas rodadas anteriores.
O segundo obstáculo envolve, mais uma vez, dinheiro. As autoridades questionam o valor exato a ser ressarcido e, principalmente, onde estariam os recursos desviados no esquema do Master, cujo rombo é estimado na casa dos R$ 60 bilhões. O terceiro entrave é a ausência de fatos novos. A PF argumenta que boa parte do que Vorcaro apresentou até agora já constava em dezenas de celulares e dispositivos eletrônicos apreendidos ao longo das investigações.
Diante desse histórico, o ceticismo predomina entre investigadores e procuradores. Avalia-se que uma real chance de destravar as negociações só existiria se o ex-banqueiro decidisse reformular por completo sua colaboração e revelar informações efetivamente inéditas, o que, até o momento, ninguém no meio das investigações considera garantido.
Resistência dentro das instituições
Além do histórico de rejeições, a nova investida da defesa esbarra em outra barreira: a falta de disposição, neste momento, dentro das instituições. Na PGR, por exemplo, nem sequer haveria disposição para se discutir uma terceira proposta. Procuradores a par das investigações relatam que o entendimento é de que as negociações com Vorcaro estão encerradas e esgotadas.
Essa resistência se soma às razões técnicas, como a falta de elementos novos e a recusa em assumir responsabilidade pelos crimes, o que reforçaria um cenário desafiador que a nova defesa enfrenta antes mesmo de sentar à mesa de negociação.
A aposta de Bialski em uma nova colaboração também teria gerado um desgaste interno. A escolha por essa estratégia estaria contrariando a linha que Sérgio Leonardo vinha adotando, focada em contestar o mérito das acusações e as provas reunidas pela investigação, e não em negociar um acordo.
Ocorre que a guinada de estratégia teria sido um pedido do próprio Vorcaro, que estaria convencido de que uma nova tentativa de colaboração pode ser o caminho mais rápido para a prisão domiciliar.
O processo de montagem da nova equipe também não foi tranquilo. Nas últimas semanas, Vorcaro chegou a negociar com integrantes de pelo menos três escritórios diferentes, recebendo minutas de contrato e discutindo formas de pagamento de honorários, mas adiando repetidamente a assinatura dos documentos, o que gerou desconfiança entre os advogados sondados sobre se a contratação de fato se concretizaria.
Sérgio Leonardo chegou a divulgar uma nota pública reafirmando ser o único advogado constituído no caso, e reclamou diretamente a familiares do ex-banqueiro sobre a indicação de novos nomes para a defesa. Uma semana depois, a entrada de Bialski como novo integrante da equipe acabou confirmada.
Vorcaro se mostra irritado com a própria situação na prisão
Passados cinco meses de prisão, de idas e vindas entre propostas de colaboração recusadas e mudanças de estratégia na defesa, Vorcaro teria demonstrado impaciência com o rumo do processo.
Essa insatisfação ajudaria a explicar por que, mesmo com o ceticismo generalizado sobre as chances de sucesso, Vorcaro insiste em uma nova rodada de negociação. Ele estaria convencido de que apenas um acordo de colaboração poderia relaxar suas condições de cárcere, encerrando o atual regime de reclusão.
Para investigadores a par das apurações, essa nova tentativa perde o principal trunfo que poderia ter: o fator espontaneidade. Como Vorcaro já apresentou duas propostas anteriores, recebeu recusas e, em determinado momento, chegou a mudar de estratégia para focar no enfrentamento direto das provas e acusações, uma terceira tentativa precisa ser vista pelas autoridades como movimento calculado, o que pode dificultar ainda mais o convencimento da PF, da PGR e do próprio Mendonça, que chegou a dizer que não faria questão de uma delação.
Três familiares de Vorcaro também estão presos
Enquanto a defesa tenta reabrir o canal de negociação, a situação prisional não afeta apenas Daniel Vorcaro. Além dele, outros três integrantes de sua família seguem presos em decorrência das investigações sobre o colapso do Banco Master: o pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, também alvo da Compliance Zero; o primo, Felipe Vorcaro; e o cunhado do ex-banqueiro, Fabiano Zettel. Todos negam ter praticado quaisquer irregularidades.
Investigadores consideram que a manutenção dessas prisões reforça a pressão sobre o núcleo familiar e é apontada como mais um fator que tem pesado na decisão de Vorcaro de insistir em uma via negocial com as autoridades, mesmo diante do histórico de recusas à delação.
A busca por um novo acordo de colaboração ocorre no contexto de uma das maiores fraudes financeiras já identificadas no Brasil. A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, expôs um rombo bilionário deixado para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), associado a um esquema que envolvia a emissão de títulos sem lastro real e ativos supervalorizados usados para inflar artificialmente o patrimônio da instituição.
As investigações da Compliance Zero, que resultaram em duas prisões de Vorcaro, seguem avançando também sobre supostas conexões do ex-banqueiro com autoridades públicas e parlamentares, além do rastreamento de bens que ele possa manter fora do país. Essas frentes, somadas ao impasse em torno da delação, mantêm o caso como um dos mais complexos em curso no sistema de Justiça brasileiro e ainda distante do fim.
Somente com o que a PF apreendeu nas fases já deflagradas da Compliance Zero, haveria subsídio e material capazes de render pelo menos 60 fases da operação. A promessa das autoridades é de que ela não deve ser interrompida nem frear durante o processo eleitoral que se aproxima.
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