Rússia utiliza drones para realizar “safári humano” na Ucrânia
Últimas atualizações em 06/08/2026 – 22:13 Por AFP
Um vídeo divulgado pela Polícia Nacional da Ucrânia na terça-feira (4) mostrou um drone russo perseguindo um vendedor de verduras pelas ruas de Kherson, no sul do país. O homem tentou escapar do objeto correndo ao redor de uma caminhonete, mas o equipamento acompanhou seus movimentos até mergulhar em sua direção e explodir. Ele sobreviveu com ferimentos provocados por estilhaços, concussão e outros traumas.
Veja o momento em que o homem é caçado pelo drone russo:
A gravação é um dos exemplos mais recentes do chamado “safári humano”, expressão usada por moradores, autoridades ucranianas e organizações de direitos humanos para descrever ataques em que operadores de drones russos parecem escolher, seguir e atingir civis deliberadamente.
Identificado como Yurii, de 52 anos, o vendedor havia acabado de começar a organizar caixas de legumes quando ouviu o ruído do equipamento. Segundo o relato dado por ele no hospital, sua mulher conseguiu fugir, enquanto o drone passou a persegui-lo ao redor do veículo e até por baixo de uma cobertura instalada no local.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, divulgou o vídeo afirmando que o episódio se tratava de um ataque russo deliberado contra um civil. Já o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, classificou a ação como crime de guerra e disse que o operador tinha condições de saber que o alvo não era um militar ucraniano.
A Rússia nega atacar civis ucranianos de forma intencional. No entanto, investigações independentes apontam que o caso do vendedor não foi um episódio isolado e faz parte de uma sucessão de ataques russos contra pedestres, ciclistas, motoristas, residências, ambulâncias e outros alvos civis na região de Kherson.
Como funciona o “safári humano” promovido pela Rússia na Ucrânia
Os ataques são realizados principalmente com pequenos drones do tipo quadricóptero ou FPV, sigla em inglês para “visão em primeira pessoa”. Esses equipamentos possuem câmeras que transmitem imagens ao vivo para o operador, que controla o voo com um aparelho portátil e pode acompanhar o alvo até o momento da explosão.
De acordo com a Human Rights Watch, os drones empregados pelas forças russas podem carregar granadas, minas antipessoais, explosivos incendiários e outras munições. Por serem pequenos e manobráveis, conseguem seguir veículos, voar entre construções e se aproximar de pessoas que tentam se esconder.
O alcance pode variar de cinco a 25 quilômetros. As imagens transmitidas pela câmera permitem que o operador veja em tempo real se o alvo está usando uniforme, carregando armas ou realizando uma atividade civil, como caminhar, pedalar ou transportar alimentos. Os aparelhos também podem permanecer parados sobre telhados ou em outros pontos da cidade para economizar bateria. Depois que uma pessoa ou um veículo aparece, o operador coloca o drone novamente em movimento e inicia a perseguição.
Essa capacidade de observação é um dos elementos usados por investigadores para sustentar que muitos ataques de drones realizados por russos contra civis foram deliberados. A Human Rights Watch documentou pelo menos 45 ataques de drones russos em áreas de Kherson que aparentavam ter como alvo civis ou estruturas sem finalidade militar. Em oito desses casos, a organização comparou depoimentos de testemunhas com vídeos publicados em canais ligados às forças russas.
Civis perseguidos nas ruas
Em setembro de 2024, Anastasia Pavlenko, de 23 anos, seguia de bicicleta para um compromisso quando percebeu que um drone russo havia começado a persegui-la. O equipamento acompanhou a jovem por quase 300 metros antes de lançar um explosivo contra ela.
A explosão provocou ferimentos no pescoço, na perna e na região das costelas. Mesmo machucada, ela continuou pedalando, coberta de sangue e com os pneus furados, até conseguir ajuda.
Segundo a Human Rights Watch, vídeos gravados pelo próprio drone e publicados depois em canais militares russos mostravam a perseguição. As imagens permitiram confirmar que o aparelho acompanhou a ciclista antes de soltar a munição explosiva a poucos metros dela.
A organização também registrou casos de drones seguindo pessoas que caminhavam, dirigiam ou estavam dentro de suas casas. Ambulâncias, equipes de resgate, hospitais, ônibus, mercados e veículos usados para transportar alimentos também já foram alvejados por drones russos.
Em um dos relatos coletados pela entidade, uma mulher contou que tentou se esconder entre árvores enquanto o drone circulava o local onde ela estava e se aproximava cada vez mais. Em outro caso, um ciclista afirmou que o equipamento lançou uma granada e permaneceu sobre ele durante vários minutos depois da explosão.
Por que Kherson é o principal alvo
Kherson está localizada na margem direita do rio Dnieper. As forças russas permanecem posicionadas do outro lado do rio, em áreas ocupadas, a poucos quilômetros da cidade.
Essa proximidade permite que drones de curto alcance sejam lançados contra bairros residenciais, estradas e comunidades ribeirinhas. Desde meados de 2024, os ataques de drones contra a região se tornaram parte da rotina da população.
Os bairros mais próximos do rio estão entre os mais atingidos. Drones circulam constantemente sobre essas regiões, dificultando a entrega de comida e medicamentos, o trabalho de equipes de manutenção e até mesmo a saída dos moradores de suas casas.
Segundo a Human Rights Watch, os constantes ataques de drones russos contra mercados e veículos de entrega levaram ao fechamento ou à transferência de estabelecimentos comerciais. Moradores passaram a percorrer distâncias maiores para comprar produtos básicos, o que aumenta a exposição aos drones e aos bombardeios.
As ações também prejudicaram o acesso à saúde. Ambulâncias, profissionais médicos, veículos de resgate e bombeiros foram atacados enquanto tentavam socorrer vítimas ou responder a emergências.
Mortos, feridos e cidades esvaziadas
Entre maio e dezembro de 2024, ataques com drones deixaram pelo menos 30 civis mortos e 483 feridos em Kherson, segundo números citados pela Human Rights Watch. Em janeiro de 2025, os drones responderam por 70% das vítimas civis registradas na cidade pela missão de monitoramento da ONU.
Dados reunidos pelas autoridades locais de Kherson apontam que os ataques de drones russos deixaram mais de uma centena de mortos e mais de mil feridos nos nove primeiros meses de 2025.
Além das mortes e dos ferimentos, sobreviventes relataram pesadelos, desorientação, ansiedade e medo constante de sair de casa. Moradores passaram a prestar atenção permanente ao ruído dos drones e a procurar árvores, viadutos ou outras estruturas que possam servir de abrigo.
Crimes de guerra e contra a humanidade
O direito internacional proíbe ataques direcionados contra civis e objetos de uso civil. Também exige que as partes em conflito diferenciem alvos militares de pessoas e estruturas protegidas.
Segundo a Human Rights Watch, os ataques de drones russos contra civis registrados em Kherson constituem aparentes violações das leis de guerra e, quando cometidos deliberadamente, podem ser classificados como crimes de guerra.
A organização aponta ainda que a repetição, a escala e o padrão das ações indicam uma estratégia voltada a espalhar terror entre a população. Em conjunto, ataques que resultaram em mortes e ferimentos graves podem constituir crimes contra a humanidade.
Uma comissão independente da ONU apontou que forças russas mataram e feriram civis repetidamente na Ucrânia, destruíram residências e ajudaram a forçar milhares de pessoas a abandonar suas comunidades.
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