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Racha no chavismo fragiliza Delcy e anima oposição venezuelana

Últimas atualizações em 13/06/2026 – 01:46 Por AFP


Cinco meses depois da captura do ditador Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, o chavismo enfrenta uma crise interna. A turbulência atual tem sido alimentada por críticas de representantes do movimento contra a líder interina Delcy Rodríguez, que vem sendo acusada por essas figuras de ceder demais diante da pressão constante de Washington. Essa crise ficou ainda mais exposta após o exercício militar de 23 de maio, quando os EUA realizaram uma “simulação de resposta militar” em Caracas, com aeronaves do Corpo de Fuzileiros Navais pousando na sede da embaixada americana com aval do próprio regime interino de Delcy.

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Para analistas, a perda de unidade no chavismo pode tirar do regime venezuelano sua principal blindagem contra crises e abrir uma janela importante para que a oposição pressione por eleições livres, embora também aumente o risco de rebelião por parte de grupos ainda leais ao madurismo.

O exercício militar

No último dia 23 de maio, forças americanas realizaram em Caracas um amplo exercício militar que incluiu o sobrevoo da capital venezuelana por duas aeronaves MV-22 Osprey do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e o pouso delas na sede da embaixada americana. O exercício foi autorizado pelo regime interino de Delcy, mas foi fortemente criticado pela base chavista, que chegou a realizar protestos contra a atividade.

O exercício contou com a presença do general Francis Donovan, chefe do Comando Sul dos Estados Unidos (Southcom), que acompanhou as manobras nessa que foi sua segunda visita oficial à Venezuela desde 3 de janeiro, quando os EUA realizaram a operação militar que capturou Maduro, hoje preso em Nova York e aguardando julgamento.

A realização do exercício militar foi o estopim de uma insatisfação contra Delcy que já vinha crescendo no chavismo desde a queda de Maduro. Depois da atividade americana em Caracas, militantes e líderes do movimento decidiram romper o silêncio e passaram a criticar abertamente a liderança da ditadora interina. Alguns até chegaram a sugerir que a captura de Maduro só teria sido possível por uma suposta traição dentro do próprio regime.

A reação mais dura contra Delcy partiu da deputada Iris Varela, ex-ministra dos regimes de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Em publicação na rede social X, ela criticou os Estados Unidos e rejeitou qualquer aproximação da Venezuela com Washington. Em entrevista a um podcast citada pela agência Associated Press (AP), Varela também endossou a tese de traição interna na captura de Maduro, recorrendo a uma analogia bíblica: “Todo Cristo tem um Judas”.

A chavista e ex-ministra de Chávez Mary Pili Hernández também criticou a autorização de Delcy para a operação americana. De acordo com o jornal venezuelano El Nacional, ela afirmou que nem nos períodos de melhor relação entre Caracas e Washington um governo venezuelano havia permitido a presença de aeronaves militares dos EUA no território nacional. Em seguida, questionou se o próximo passo seria aceitar uma base militar americana no país.

Aproximação de Delcy com os EUA irrita os chavistas

Desde que assumiu como líder interina, Delcy Rodríguez viabilizou algumas mudanças na Venezuela. Ela reabriu a indústria petrolífera para o capital privado, com receitas sendo supervisionadas pelo governo do presidente Donald Trump, reatou laços da Venezuela com o Fundo Monetário Internacional (FMI), promulgou uma anistia que libertou parte dos presos políticos (embora a medida tenha sido criticada por órgãos de direitos humanos por seu alcance limitado) e entregou aos Estados Unidos, em maio, o empresário Alex Saab, aliado próximo de Maduro, que agora responde em território ameircano a investigações criminais.

Sob Delcy, as relações diplomáticas entre os EUA e a Venezuela, que ficaram rompidas por sete anos, também foram restabelecidas em março e, em abril, voltaram os voos diretos entre Miami e Caracas. Os americanos também reabriram a embaixada em Caracas e diversos representantes da Casa Branca já visitaram o país.

Para Marco Aurelio da Silva, professor de Comércio Exterior do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), as decisões tomadas por Delcy nos últimos meses, que aproximaram a Venezuela dos EUA, atingiram o “coração” da identidade chavista.

“O antiamericanismo e a retórica do inimigo externo foram o cimento ideológico do chavismo por mais de duas décadas. Ao autorizar exercícios militares americanos em território venezuelano e chancelar a deportação de Alex Saab para Miami, Delcy quebrou um tabu histórico”, disse o analista à Gazeta do Povo.

Na avaliação de Marco Aurelio da Silva, para as bases mais radicais e os setores ideológicos do chavismo, as concessões que já foram feitas por Delcy aos EUA “ultrapassam o pragmatismo e beiram a capitulação”. Isso, segundo ele, está rachando a unidade que sustentou o regime chavista nos últimos anos.

 “A narrativa oficial tenta reconfigurar a sobrevivência do regime por meio da estabilização econômica, mas a perda da coesão interna retira do regime a sua principal blindagem contra crises”, explica o analista.

Andrés Izarra, ex-ministro da Comunicação no regime de Chávez e do Turismo no de Maduro, atualmente rompido com o chavismo e exilado, afirmou ao portal argentino Infobae que as atuais divisões internas no movimento não são motivadas apenas por diferenças ideológicas entre os participantes, mas por disputas de poder. Segundo ele, o chavismo perdeu seu projeto político após a morte de Chávez, em 2013, e passou a ser marcado apenas por uma disputa por cargos, influência e recursos.

“É simplesmente uma luta por poder, dinheiro, posições e sobrevivência”, declarou.

Janela para a oposição

É justamente essa perda de coesão dentro do chavismo que pode abrir uma rara oportunidade para a oposição venezuelana pressionar ainda mais por mudanças concretas no país.

“Regimes híbridos ou autoritários tornam-se altamente vulneráveis quando sua elite racha”, lembra Marco Aurelio da Silva.

Segundo o professor, se setores chavistas começarem a abandonar de vez o regime interino, Delcy Rodríguez terá duas saídas: buscar novas bases de apoio ou fazer concessões para se manter no poder. Nesse cenário, afirma o analista, as forças democráticas da oposição podem ganhar espaço para cobrar medidas como o fim das inelegibilidades políticas e a reestruturação do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), base para a realização de novas eleições presidenciais.

A líder opositora María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, tem classificado o regime interino de Delcy Rodríguez como “insustentável” e se colocado como a principal interlocutora da oposição nas negociações por uma transição democrática na Venezuela.

Para Marco Aurelio da Silva, a oposição ainda depende de pressão externa para transformar a crise chavista em mudanças concretas no país. Ele lembra que a anistia promulgada por Delcy devolveu alguma capacidade de articulação às forças democráticas venezuelanas, mas ressalta que o Judiciário e a engrenagem eleitoral continuam sob controle do chavismo.

“Sem uma vigilância estrita e sanções condicionais mantidas por Washington e pela comunidade internacional, a oposição corre o risco de ser usada apenas como um figurante legítimo em um processo eleitoral desenhado para manter o novo arranjo governante no poder”, alerta.

No começo deste mês, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou em audiência na Câmara dos Deputados que o governo Trump gostaria de ver eleições na Venezuela “o quanto antes”, mas defendeu antes a criação de uma nova comissão eleitoral, espaço para os partidos se organizarem e imprensa independente para que o processo seja “multipartidário, livre e justo”.

Divisão no chavismo eleva risco de rebelião

Para Marco Aurelio da Silva, o “racha” no chavismo também eleva o risco de reação interna contra Delcy, especialmente entre grupos que enriqueceram sob o regime de Maduro e podem se sentir ameaçados pelas concessões feitas pela líder interina a Washington.

Delcy reformulou, logo após a queda de Maduro, o Ministério da Defesa da Venezuela e também mexeu no alto comando militar para reduzir os espaços de influência dos setores ainda leais ao antigo ditador, segundo explica o analista. Mesmo assim, ainda existe um risco “latente e elevado” de reação entre esses quadros, sobretudo militares que se sustentavam por meio de economias ilícitas, de se voltarem contra a líder interina.

“Se esses setores perceberem que sua própria imunidade ou sobrevivência financeira está em risco devido às concessões de Delcy [aos EUA], tentativas de contragolpe ou motins localizados não podem ser descartados”, afirma.

No curto prazo, analistas avaliam que a crise em curso pode terminar em um rearranjo interno de poder. Em vez de uma ruptura imediata, a cúpula do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), o partido chavista, tentaria substituir figuras de liderança, conter os grupos descontentes e vender ao exterior a imagem de um chavismo mais moderado.

Contudo, Marco Aurelio da Silva avalia que a tentativa de reorganizar o chavismo por dentro pode ter efeito contrário. Se a insatisfação das bases chavistas e de militares de médio escalão se converter em uma rebelião aberta contra Delcy, a crise deixaria de ser apenas uma disputa interna e poderia abrir uma brecha inesperada para a oposição pressionar por uma transição democrática.

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