Quem são os ultrarradicais que sabotam negociações EUA-Irã
Últimas atualizações em 16/05/2026 – 20:51 Por AFP
Dentro do regime extremista do Irã existe uma facção que consegue ser ainda mais radical: a Frente de Sustentabilidade da Revolução Islâmica, conhecida como Frente Paydari, que faz uma defesa intransigente dos princípios da ditadura islâmica implantada no país persa em 1979.
Criada a princípio como uma lista eleitoral para as eleições legislativas de 2012, a Frente Paydari hoje tem ampla influência dentro do regime e sua atuação tem sabotado as negociações para encerrar a guerra do Irã contra Estados Unidos e Israel.
O novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, foi discípulo de Mohammad-Taqi Mesbah-Yazdi, arquiteto ideológico da Frente Paydari e que morreu em 2021.
Mojtaba Khamenei assumiu o cargo de líder supremo depois que seu pai, Ali Khamenei, foi morto no primeiro dia do atual conflito, em 28 de fevereiro. Ele tem sido “amplamente visto como o principal patrono político e financeiro da Frente Paydari, cujos membros o consideram o garantidor da identidade revolucionária da República Islâmica depois do seu pai”, descreveu recentemente o site Iran International.
Além disso, uma reportagem de 2024 da The Economist apontou que a geração mais recente de comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã frequentou acampamentos de verão dirigidos por clérigos da Frente Paydari, muitos dos quais também são designados para unidades das forças armadas iranianas.
Essa influência tem feito a nova geração da Guarda Revolucionária ser “mais ideológica e agressiva, menos experiente e menos pragmática”, segundo afirmou à revista britânica Saeid Golkar, especialista da Universidade do Tennessee.
Na eleição presidencial de 2024, o candidato apoiado pela facção, Saeed Jalili, ficou em segundo lugar.
Apesar de ser ainda mais linha dura do que outras facções dentro do regime islâmico, a Frente Paydari foi convidada a participar das negociações com os Estados Unidos realizadas no Paquistão em abril. O convite foi feito com o objetivo de mostrar coesão interna no Irã, mas os ultrarradicais estão sabotando as conversas para impedir que um acordo seja fechado.
Em artigo publicado no início de maio, a Raja News, site porta-voz da Frente Paydari, disse que as negociações deveriam ser interrompidas.
“Do outro lado do campo, [o presidente americano, Donald] Trump, [o premiê israelense, Benjamin] Netanyahu, [o secretário da Guerra dos EUA, Pete] Hegseth e alguns senadores americanos falam continuamente e descaradamente sobre o assassinato do nosso imã [Ali Khamenei], dos nossos comandantes e cientistas, e, sem qualquer hesitação, falam sobre a necessidade de matar outros oficiais e comandantes iranianos como os próximos alvos!”, afirmou o site.
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“Porque perceberam que, mesmo que martirizem nosso imã, ainda haverá pessoas dispostas a negociar, apertar as mãos de [Steve] Witkoff [enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio], [o vice-presidente J.D.] Vance e [o enviado Jared] Kushner, sorrir para os assassinos do nosso imã e falar sobre a necessidade de resolver mal-entendidos, solucionar questões passadas e iniciar um novo capítulo nas relações!”, disse a Raja News.
Frente Paydari visa líder iraniano nas negociações
No X, o deputado Seyyed Mahmoud Naboyan, integrante da Frente Paydari, disse que representantes do Irã que participaram das negociações para o acordo nuclear de 2015 (do qual os EUA se retiraram, na primeira gestão Trump) deveriam ser excluídos das novas conversas.
No post, Naboyan aproveitou para alfinetar o presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, que é um dos líderes nas negociações e desafeto da Frente Paydari, que já fez pressão para retirá-lo da liderança do Legislativo iraniano.
“Pelo histórico de descumprimento [de acordos] dos Estados Unidos, e especialmente pela presença das partes do humilhante acordo nuclear junto do senhor Ghalibaf nas negociações, não há esperança de negociações e de um acordo favorável para o Irã”, argumentou o deputado.
Em entrevista à Gazeta do Povo, Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), disse que dois fatores têm feito a Frente Paydari ganhar voz no Irã.
O primeiro é o fato de Mojtaba Khamenei ser o patrono do grupo, “o que faz com eles se sintam encorajados a pronunciar mais e mais sua agenda radical”; o segundo foi a eliminação de muitas lideranças e praticamente toda a cúpula do regime islâmico na guerra, o que abriu espaço para que membros da facção integrassem a delegação que fez negociações com os EUA no Paquistão.
“Como são radicalizados, eles naturalmente se opõem a um acordo com os EUA, mas não a um entendimento. Eles acreditam que os EUA, para encerrar o atual conflito, deveriam ‘capitular’ frente ao Irã”, afirmou Teixeira Moita.
O especialista destacou que, embora “muito barulhenta”, a Frente Paydari ainda é “muito marginal” e por enquanto está sendo contida por figuras importantes do regime, como Ghalibaf. Porém, segue sendo um grande risco para o futuro do Irã e do mundo.
“Se o conflito terminar, não significa o fim da hostilidade da Frente Paydari, pelo contrário. Desde sua origem, eles defendem uma ‘guerra moral’ contra o Ocidente e há uma visão apocalíptica de seus membros de entender que só será possível avançar no processo revolucionário por meio de uma confrontação generalizada, em todos os campos, que possa mudar o mundo”, alertou Teixeira Moita.
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