Por que o modelo de El Salvador não deu certo no Equador
Últimas atualizações em 15/08/2026 – 20:46 Por Gazeta do Povo | Feed
Uma onda de direita está redesenhando o mapa político da América Latina, impulsionada por uma demanda crescente dos países por políticas robustas de segurança. Diante desse cenário, o modelo de tolerância zero de El Salvador para o crime surge como um exemplo a ser seguido.
Um dos países que tem se apoiado nessa visão é o Equador. Eleito em 2023 com a promessa de sufocar o narcotráfico por meio de mais investimentos em segurança, o presidente Daniel Noboa ainda não conseguiu replicar o método de Nayib Bukele, apesar de se inspirar na política linha-dura do líder salvadorenho, que conseguiu derrubar drasticamente os índices de criminalidade em El Salvador em pouco tempo por meio de seu regime de exceção.
Um dos pontos centrais que explicam a falta de sucesso do Equador em replicar a política de Bukele é a estrutura dos grupos criminosos que atuam nos dois países. Ricardo Caichiolo, professor de relações internacionais e diretor do Ibmec Brasília, explica que o fracasso se deve principalmente pela diferença entre as realidades enfrentadas.
Ao contrário de El Salvador, que combateu gangues urbanas de controle local, como a MS-13 e o Barrio 18, o Equador se tornou nos últimos anos um refúgio para os maiores cartéis do mundo, como o de Sinaloa (México), que passaram a usar o território para o escoamento de drogas rumo à Europa e aos EUA, operando com um poder financeiro muito superior ao das facções salvadorenhas.
O analista explica que o foco de atuação das facções salvadorenhas está concentrado em bairros e voltado ao cometimento de crimes de menor potencial ofensivo, como o de extorsão. Já o caso equatoriano é mais complexo, pois organizações criminosas transnacionais, com financiamento praticamente ilimitado, ganharam espaço no país.
“Essa complexidade acaba se refletindo nas estatísticas de aumento da violência, a despeito da militarização das ruas, do aumento do número de prisões e da declaração de conflito armado interno”, afirma.
As medidas adotadas pelo Equador para lidar com a segurança pública
O Equador está imerso em uma profunda crise de segurança pública que se agravou em 2021 com uma série de confrontos no sistema prisional entre gangues rivais como Los Choneros, Los Lobos e Los Lagartos. A situação deixou mais de 600 detentos mortos nos últimos cinco anos.
A grande maioria das prisões foi militarizada no país desde janeiro de 2024, quando o presidente Daniel Noboa declarou um “conflito armado interno” para combater a violência generalizada, que deu ao Equador o título de país com a maior taxa de homicídios da América Latina. A medida se assemelha ao regime de exceção de Bukele, que segue em vigor desde 2019.
Outro projeto inspirado no modelo Bukele que saiu do papel foi uma prisão de segurança máxima localizada em uma área isolada da província costeira de Santa Elena. O presídio, com capacidade para 736 detentos, foi uma das grandes promessas de Noboa quando chegou ao poder em 2023.
Desde então, o governo já militarizou as ruas e presídios do país, integrando as Forças Armadas às equipes de segurança dos estados. Às vésperas das eleições presidenciais do ano passado, o governante decretou um novo estado de emergência em sete províncias e em todas as unidades prisionais do país, medida que inclui toque de recolher, limitações à mobilidade e suspensão de garantias constitucionais.
Em março, o Equador anunciou uma megaoperação em colaboração com os EUA contra o crime organizado, visando cartéis de drogas que atuam no país sul-americano. A iniciativa é a primeira ação da aliança internacional contra o crime organizado que reúne 17 países e foi lançada pelo presidente
Donald Trump neste mês, o chamado Escudo das Américas.
Em julho, Noboa assinou um decreto executivo para integrar o Plano Nacional de Segurança 2025-2029 à sua política pública, com o objetivo de orientar a estratégia de segurança do Estado pelos próximos quatro anos. A medida propõe o fortalecimento da cooperação internacional para combater o crime organizado transnacional, considerado pelo governo uma das principais ameaças à nação andina.
Apesar das ações duras contra a criminalidade, o narcotráfico possui profunda influência dentro do aparato estatal, o que tem dificultado resultados semelhantes à El Salvador. Além disso, a fragmentação das facções devido à fuga de lideranças criminosas, como “Fito”, líder de Los Choneros, tem limitado a atuação das autoridades, visto que enfrentar um inimigo pulverizado e descentralizado se torna uma tarefa mais árdua.
Outro obstáculo para Noboa que diferencia sua política à de Bukele no combate ao crime são as limitações institucionais e jurídicas para aplicar sua política linha-dura. O judiciário tem imposto limites à renovação ilimitada dos estados de exceção, justificando que a medida pode ser considerada abuso de autoridade.
Ao mesmo tempo, o Equador enfrenta um déficit fiscal crônico e alto endividamento. O país está na lista dos mais endividados com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Até outubro do ano passado, a dívida estava estimada em US$ 8,85 bilhões (equivalente a 6,8% do PIB).
As diferenças territoriais também afetam os resultados de cada país. El Salvador é aproximadamente 13 vezes menor que o Equador, o que prejudica a gestão política das regiões tomadas pelo crime. Quito também possui áreas de difícil acesso e fronteiras vulneráveis, o que facilita a ação dos cartéis e grupos locais aliados.
Mas não é apenas o Equador que tem se inspirado na política linha-dura de El Salvador. A crescente insatisfação popular com a segurança pública no Brasil também levou presidenciáveis de direita como Romeu Zema (Novo-MG) e Renan Santos (Partido Missão) a proporem modelos de combate ao crime semelhantes ao do país centro-americano.
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