Por Doutrina Donroe, Trump prioriza embaixadores “políticos”
Últimas atualizações em 23/08/2026 – 21:18 Por AFP
A nomeação de Daniel Perez para ser o novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, aprovada este mês pelo Senado americano e que ainda aguarda agrément do governo Lula, é o exemplo mais recente da onda de embaixadores de perfil político que caracteriza a atual política externa da gestão Donald Trump.
A indicação de nomes de outros segmentos profissionais – em alguns casos, doadores de campanha – em vez de diplomatas de carreira como chefes das representações de Washington no exterior reflete a consolidação da chamada Doutrina Donroe, por meio da qual Trump busca deter a influência da China e da Rússia nas Américas e combater o tráfico de drogas e a migração ilegal.
“Essa mudança de perfil ocorreu porque a gestão de Donald Trump prioriza a nomeação de executivos, doadores e aliados políticos vistos como mais leais e alinhados à sua agenda nacionalista e de confronto geopolítico, em detrimento da burocracia tradicional do corpo diplomático”, disse Ricardo Caichiolo, professor de relações internacionais e diretor do Ibmec Brasília, em entrevista à Gazeta do Povo.
“Trump quer embaixadores mais antenados com seu ponto de vista de forma mais incisiva em diretrizes como a Doutrina Monroe [do século XIX, que inspirou a Doutrina Donroe], assim como o slogan America First; essa estratégia busca garantir que seus enviados sigam estritamente seu pensamento, sem a moderação técnica que normalmente prevalece entre os diplomatas de carreira”, acrescentou.
Dados da Associação do Serviço Exterior Americano (AFSA, na sigla em inglês), divulgados pelo jornal The Washington Post, mostraram que até julho a segunda administração Trump contava com 65 embaixadores “políticos” contra apenas 25 diplomatas de carreira nesses postos em todo o mundo – havia outras 102 vagas não preenchidas ou pendentes de confirmação.
Os números traduzem uma mudança significativa em relação ao primeiro mandato de Trump (2017-2021), quando havia 91 embaixadores que eram diplomatas de carreira e apenas 36 “políticos”, e ao do governo do democrata Joe Biden (2021-2025), quando havia 84 diplomatas de carreira e 50 indicados políticos chefiando embaixadas.
Perez, filiado ao Partido Republicano e que preside a Câmara dos Representantes da Flórida, possui tamanha proximidade e afinidade ideológica com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, que foi apelidado de “Mini Rubio”.
A sua nomeação para a embaixada americana em Brasília foi o mais recente ponto de atrito entre a gestão Trump e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: Washington revogou no início de agosto o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, devido à demora da gestão Lula em conceder o agrément a Perez.
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Embaixadores “políticos” irritam a esquerda latino-americana e a China
Os embaixadores de perfil político de Trump têm demonstrado grande afinidade com governos de direita latino-americanos e entrado em atrito com a esquerda local.
No Panamá, o embaixador Kevin Marino Cabrera, que exerceu cargos dentro do Partido Republicano e eletivos na Flórida antes de ser chamado para a função, estabeleceu uma parceria com o presidente José Raúl Mulino contra o crime organizado e a imigração ilegal na região da Selva de Darién, na fronteira com a Colômbia.
“Graças à liderança dos presidentes Trump e Mulino, Darién está agora fechada para cartéis de drogas, organizações criminosas transnacionais e imigrantes ilegais”, disse Cabrera em um evento em maio, no qual criticou as políticas de “fronteiras abertas” da gestão Biden.
Na Argentina, o embaixador Peter Lamelas, que fez carreira como médico e empresário no setor de saúde, estabeleceu um alinhamento com o presidente Javier Milei, simbolizado por uma visita conjunta ao porta-aviões USS Nimitz em abril.
“A presença do presidente Milei nos lembra de que estamos em uma nova era de relacionamento bilateral, indo além da mera cooperação e avançando rumo a um alinhamento profundo e estratégico que enfrenta abertamente os desafios do século XXI”, disse Lamelas na ocasião.
Sua atuação vem irritando a esquerda argentina e a China. No ano passado, antes de ser confirmado para o cargo, ele cobrou publicamente que a ex-presidente peronista Cristina Kirchner, que está em prisão domiciliar por uma condenação por corrupção, receba “a Justiça que merece”, levantando questionamentos sobre o suposto envolvimento da esquerdista no acobertamento de iranianos envolvidos no atentado à Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), que matou 85 pessoas em 1994, e na morte misteriosa do promotor Alberto Nisman, que denunciou o caso, em 2015.
O governador peronista Axel Kicillof e a própria Kirchner rebateram Lamelas, acusando-o de “evocar os tempos mais sombrios da interferência dos Estados Unidos na vida democrática da nossa região”.
Este mês, a Embaixada da China na Argentina criticou Lamelas por ter se posicionado contra a presença de tecnologia chinesa na região dos campos de gás e petróleo de Vaca Muerta e em outros setores estratégicos do país sul-americano.
“A China exige que as empresas concedam ao Estado chinês acesso a quaisquer dados que passem por sua tecnologia. Tudo é controlado pelo Partido Comunista Chinês; isso é inaceitável. Tampouco ajudará a atrair investidores estrangeiros para Vaca Muerta”, disse o embaixador.
Em resposta, a China afirmou que Lamelas age “motivado por uma mentalidade de Guerra Fria”.
Esquerda do México questiona atuação do embaixador americano
No México, o embaixador Ronald Johnson, que fez carreira nas forças armadas e na CIA e foi embaixador em El Salvador na primeira gestão Trump, também está desagradando a esquerda.
Em abril, ele anunciou a morte de dois membros da equipe da Embaixada dos EUA no México junto de agentes de investigação do estado de Chihuahua em um acidente automobilístico.
O governo da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, e seu partido, o esquerdista Morena, aproveitaram a ocasião para questionar a governadora de Chihuahua, Maru Campos, integrante do partido de oposição PAN, sobre permitir a presença de agentes americanos no estado, que estariam envolvidos no desmantelamento de um laboratório de drogas na Sierra Tarahumara.
A gestão Sheinbaum enviou uma nota diplomática aos EUA para pedir esclarecimentos e abriu uma investigação sobre o caso, enquanto o governo Trump afirmou que o México precisa fazer mais no enfrentamento ao narcotráfico.
No final do mesmo mês, o embaixador publicou em suas redes sociais uma mensagem informando sobre o oferecimento de denúncia criminal contra o então governador de Sinaloa, Rubén Rocha, do Morena, e outras nove pessoas pela Procuradoria Federal dos EUA para o Distrito Sul de Nova York, sob a acusação de envolvimento com o Cartel de Sinaloa.
“A corrupção que viabiliza o crime organizado e prejudica ambos os nossos países será investigada e processada onde quer que a jurisdição dos EUA se aplique”, escreveu Johnson.
O governo Sheinbaum criticou os Estados Unidos por divulgarem publicamente o processo contra Rocha (que se licenciou do cargo no mês seguinte, retornou na última sexta-feira, mas no sábado disse que se afastaria novamente), alegando que a medida violou protocolos diplomáticos de comunicação prévia e confidencialidade.
Embaixadores “políticos” também estão presentes em outras regiões do mundo
Embora a atuação de embaixadores “políticos” seja uma arma importante da Doutrina Donroe, ela não está restrita às Américas.
Na Bélgica, o embaixador Bill White irritou o governo de centro-direita local ao exigir publicamente em fevereiro que as autoridades retirassem um processo que classificou como antissemita contra líderes religiosos judeus, acusados de realizar circuncisões em desacordo com a legislação belga, que determina que apenas médicos podem realizar o procedimento.
Depois que o governo belga pediu que não interferisse “em assuntos internos”, White chamou o ministro da Saúde da Bélgica, Frank Vandenbroucke, de “muito grosseiro” e “bastante detestável” e o acusou de “não gostar” de Trump.
A indicação de embaixadores “políticos” também desagrada diplomatas de carreira americanos. “Há lugar para os benfeitores no conselho do hospital. O problema surge quando os benfeitores superam em número os cirurgiões na sala de cirurgia”, ironizou o presidente da AFSA, John Dinkelman, um dos diplomatas de carreira afastados pela gestão Trump no ano passado, em entrevista ao Washington Post, sugerindo que a presença de doadores de campanha nesses cargos está sendo excessiva.
Ricardo Caichiolo disse à Gazeta do Povo que os limites da atuação dos embaixadores precisam ser baseados nas convenções internacionais que regulam a atividade diplomática.
“Tradicionalmente, elas estabelecem que o representante de um Estado pode e deve defender os interesses econômicos e de segurança de seu respectivo país, mas ao mesmo tempo deve respeitar a soberania local e não interferir em escolhas soberanas do Estado com quem se relaciona”, afirmou o especialista.
“As declarações que criticam decisões domésticas ou que criam algum tipo de pressão interna acabam ultrapassando o papel negocial e ferem o princípio de não intervenção em assuntos internos de outros Estados”, disse Caichiolo.
No ano passado, Tommy Pigott, porta-voz do Departamento de Estado, defendeu as mudanças no serviço exterior implementadas por Trump e Rubio, ao afirmar que a atual gestão “reorganizou todo o Departamento de Estado para garantir que aqueles que estão na linha de frente — os escritórios regionais e as embaixadas — estejam em condições de influenciar políticas públicas”.
“O que não toleraremos é que pessoas usem seus cargos para minar ativamente os objetivos do presidente devidamente eleito”, acrescentou Pigott, em declarações publicadas pelo site Politico.
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