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O que a reunião de Lula e Trump significa para a China

Últimas atualizações em 07/05/2026 – 22:10 Por AFP


O encontro de quase três horas entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Casa Branca, nesta quinta-feira (7), foi além da tentativa de reaproximação entre Brasília e Washington. Ao afirmar que os Estados Unidos “deixaram de olhar para a América Latina” e abriram espaço para o avanço da China na região, Lula indicou o pano de fundo geopolítico da reunião: a disputa entre americanos e chineses por influência econômica e estratégica sobre o Brasil.

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Enquanto Trump se limitou a avaliar a conversa como “muito boa” em uma postagem em rede social, Lula disse que saiu do encontro na Casa Branca com a percepção de que deu “um passo importante na consolidação da relação com os EUA” e que quer que os EUA voltem a ver o Brasil como destino de investimentos após perderem espaço para a China.

No ano passado, o Brasil foi o principal destino global dos investimentos chineses, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). As empresas do país comunista asiático aportaram US$ 6,1 bilhões (R$ 30,1 bilhões) no Brasil em 2025 – alta de 45% em relação ao ano anterior e o maior valor desde 2017.

Pequim vê o Brasil como peça central de sua estratégia de influência na América Latina, abalada após a operação americana na Venezuela que derrubou Nicolás Maduro. Semanas depois da captura do líder venezuelano, o ditador chinês, Xi Jinping, telefonou para Lula para defender os “interesses comuns do Sul Global”, em um gesto interpretado como tentativa de reforçar a presença chinesa na região.

Agora, após os sinais de reaproximação entre Brasília e Washington deixados pela reunião desta quinta-feira, analistas avaliam que Pequim tende a acompanhar os movimentos dos EUA em relação ao Brasil com cautela.

China deve reagir com cautela ao encontro

Para analistas internacionais, Pequim já tem um roteiro para esse tipo de movimento — e ele não passa por retaliação.

“Enquanto os Estados Unidos jogam xadrez e visam o xeque-mate em termos estratégicos, a China joga outro jogo: vai botando peças até eliminar o inimigo. Isso leva tempo, leva mais observação do que necessariamente ação”, diz o estrategista internacional Cezar Roedel, citando análise do ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger.

A tendência é que Pequim ofereça condições ainda melhores para competir com os EUA, na avaliação de Cássio Eduardo Zen, professor de Direito Internacional do Centro Universitário FAPI. “Os chineses querem, de uma maneira geral, fazer negócios”, diz.

Nesse sentido, o analista Marco Aurélio da Silva, professor dos cursos de negócios e gestão da FSG – Centro Universitário da Serra Gaúcha, avalia que a China lê a tentativa de aproximação com os EUA como o Brasil exercendo sua “autonomia estratégica”.

“Pequim sabe que o Brasil não quer um alinhamento automático, mas sim usar a competição entre potências para valorizar seu próprio passe”, afirma.

Ainda assim, o analista pondera que o gigante asiático pode ver a aproximação entre Brasília e Washington como “uma ofensiva americana para frear o avanço chinês na região”, especialmente após o Brasil ter se tornado o maior destino de investimentos chineses em 2025.

Sobre como Pequim deve responder a essa possível maior aproximação entre os EUA e Brasil, Marco Aurélio da Silva é direto: “A China raramente responde com retórica agressiva; ela responde com capital. Espera-se que a China reforce sua presença através da Nova Rota da Seda, oferecendo condições de financiamento que os EUA hoje têm dificuldade em equiparar”. Para o analista, há “alta probabilidade” de Pequim acelerar investimentos em infraestrutura logística e área energética – especialmente transmissão elétrica e portos.

Minerais críticos e terras raras no centro do tabuleiro

Lula confirmou na coletiva que conversou com Trump sobre a questão das terras raras e minerais críticos do Brasil, setor que concentra a disputa geopolítica entre China e EUA e que colocou o Brasil na mira de Washington. O Brasil detém 23% das reservas mundiais de terras raras, sendo o segundo maior do mundo nesse quesito, atrás apenas da própria China.

Lula disse que apresentou a Trump o marco legal dos minerais críticos, aprovado pela Câmara dos Deputados na véspera do encontro, e defendeu que o Brasil é “solo fértil” para investimentos na área.

Em fevereiro, o governo Trump lançou o chamado “Projeto Vault”, um plano estratégico de US$ 12 bilhões (R$ 59,3 bilhões) para criar um estoque nacional de terras raras e minerais críticos, com o objetivo de reduzir a dependência americana da China.

A iniciativa de Trump já alcançou o Brasil: em abril, a mineradora brasileira Serra Verde, produtora comercial de terras raras, foi vendida à americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões (R$ 13,8 bilhões), com participação direta do governo dos EUA por meio de um aporte de US$ 565 milhões (R$ 2,8 bilhões) da agência de fomento Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (DFC). A operação, contudo, chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde partidos de esquerda tentam suspendê-la sob o argumento de que a venda fere a soberania nacional.

Apesar da tentativa dos Estados Unidos de ampliar sua presença e garantir protagonismo no setor de minerais críticos no Brasil, Lula afirmou que, durante a reunião, não ofereceu qualquer tipo de exclusividade a Washington.

O petista declarou que o país seguirá aberto a investimentos estrangeiros de diferentes origens nas áreas de terras raras e minerais estratégicos. Segundo Lula, o governo brasileiro pretende atrair capital “de quem quiser investir”, citando explicitamente empresas e grupos dos Estados Unidos, China, Alemanha, Índia e outros países. O petista também reforçou que o tema é tratado pelo governo como uma questão de soberania nacional.

Marco Aurélio da Silva avalia que o setor de minerais críticos e terras raras é “o ponto mais crítico” da disputa EUA-China no Brasil.

“Para os EUA, investir nas terras raras brasileiras é uma questão de segurança nacional para reduzir a dependência de Pequim, e o Brasil corre o risco de virar um ‘campo de batalha'”, afirma.

Segundo ele, a aprovação do marco dos minerais críticos na Câmara é “um sinal de que o Brasil quer atrair capital americano, mas a China não abrirá mão de sua vantagem tecnológica no processamento desses minerais facilmente”.

Para Roedel, decisões centrais sobre a questão da exploração dos minerais críticos no Brasil e quais parceiros o Brasil deve buscar devem ficar para depois das eleições presidenciais de outubro.

“Estamos entrando no período eleitoral e os governos sabem disso – tanto o americano quanto o chinês. Não há tempo para uma mudança drástica na política de ativos de terras raras”, avalia.

EUA ainda são maiores investidores do Brasil

Apesar do avanço chinês sobre o comércio do Brasil nos últimos anos, os EUA seguem como maiores investidores diretos no país em estoque acumulado.

Segundo o Relatório de Investimento Direto (RID) divulgado pelo Banco Central em 2025, o estoque de investimentos americanos no Brasil pelo critério de controlador final somou US$ 232,8 bilhões (R$ 1,1 trilhão) em 2024 – o maior entre todos os países e quase seis vezes superior ao da China, que aparece em sexto lugar com US$ 40,3 bilhões (R$ 199 bilhões).

Enquanto o capital americano se concentra em setores tradicionais como serviços financeiros, tecnologia da informação e comércio, os investimentos chineses dos últimos anos se voltaram para áreas estratégicas: eletricidade, mineração, petróleo e a indústria automotiva, com destaque para a fabricação de carros elétricos.

Reunião na Casa Branca foi densa e contou com assuntos sensíveis, avaliam analistas

Para Cezar Roedel, o tempo de duração da reunião desta quinta e a ausência de uma coletiva conjunta entre Trump e Lula indicam que o encontro na Casa Branca foi denso.

“Não é comum uma reunião de trabalho ser tão extensa. O fato de não ter havido coletiva de imprensa leva a crer que existem alguns assuntos talvez mais sigilosos”, avalia.

Entre os temas sensíveis que podem ter sido tratados a portas fechadas, Roedel cita a possível classificação das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, a investigação americana sobre práticas comerciais brasileiras (Seção 301) e a venda da mineradora Serra Verde. Lula negou em coletiva que tenha falado com Trump sobre a classificação das facções brasileiras como terroristas.

Na avaliação de Marco Aurélio da Silva, Lula buscou, nesta reunião, reduzir tensões comerciais entre Brasil e EUA, aliviar tarifas e atrair investimentos americanos, enquanto Trump deve ter demonstrado interesse em ampliar a cooperação em segurança regional e garantir o acesso dos EUA aos recursos considerados estratégicos, como minerais críticos.

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