O desabafo de uma enfermeira que enfrenta a Covid-19, na linha de frente

O Relato Real é de uma enfermeira que trabalha no Sistema Único de Saúde, de um determinado estado da federação *1


“Eu resolvi abrir o meu coração, para que a população entenda o que eu e milhares de profissionais da área da saúde estamos passando e enfrentando durante o embate na linha de frente… Desde o início dessa pandemia, eu tenho acordado com muito desânimo. Não me falta garra profissional, me falta ânimo para enfrentar essa doença diariamente, por que eu sou mulher, eu sou mãe e tenho sentimentos, eu também tenho família e fico em pânico pegar essa doença e levar para dentro de casa e me dói ver um outro ser humano sofrendo, padecendo e morrendo sem que nós, médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares possamos fazer alguma coisa. E são muitos esses seres humanos… Todos os dias falta alguma coisa… Ou nos falta insumos, ou nos falta pessoal, ou nos falta leitos ou nos falta estrutura, ou nos falta uma simples maca…  Falta tudo, menos coragem! Algumas instalações do hospital em que eu trabalho, estão sucateadas e até com goteiras… E o governador diz que aqui é o melhor estado da federação no combate à Covid-19… Imaginem os outros… Diariamente falta alguma coisa, nesse sistema que esta colapsado… O Mundo, o Brasil e o S.U.S. não estavam preparados para tamanha carga pandêmica. Me dói assistir um paciente sofrer e suplicar por ‘ar’, por exemplo, e não termos como aliviar o sofrimento de nossos pacientes. Eu sofro por que conhecendo ou não os meus pacientes, todos eles são importantes. Não privilegiamos ninguém, lutamos por todos… Não somos insensíveis, não somos ‘desumanos’, sofremos e lamentamos cada sofrimento e cada morte. Não temos prazer ou insensibilidade com qualquer paciente… Há relatos de parentes de pacientes que ameaçam nos bater, como se nós fôssemos as culpadas por esse caos… Enfrentamos todos os tipos de desesperos e ameaças, diariamente… Eu chorei muito quando vi uma foto em que uma colega, técnica de enfermagem, aparece sentada no chão ao lado de um paciente numa UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Teresina. Aquela imagem viralizou nas redes sociais e foi vista pelo Brasil inteiro. A imagem foi registrada minutos depois que o homem idoso morreu, vítima de uma parada respiratória, apesar dos esforços da equipe médica para reanimá-lo no chão mesmo, por falta de leitos disponíveis. A técnica de enfermagem, que foi ouvida pela reportagem em Teresina, conta que o atendimento foi exaustivo física e mentalmente, e que passou alguns minutos chorando, sentada no chão, ao lado do corpo. Ela diz, também, que o vírus “está muito mais agressivo que há um ano”, lamenta a perda de amigos de profissão e relata: “No trabalho, fico firme. Quando chego em casa, eu desabo”. Como ela, eu chego em casa e choro, lamento por não conseguir fazer mais… São jornadas longas, plantões exaustivos, cargas angustiantes… Enfim, é isso que estamos passando, vivendo, sofrendo e muitos profissionais estão vivendo e enfrentando uma profunda depressão, mesmo assim, não desistimos de nossos pacientes… E amanhã? A rotina recomeça…”

Depoimento ao Jornalista Léo Vilhena da Rede GNI


UPA de Teresina, Piauí

*1 Depoimento à Rede GNI via Contato Telefônico – O nome da Enfermeira, o hospital onde ela trabalha, Cidade e Estado, foram omitidos por respeito ao Sigilo da Fonte. O sigilo da fonte está expressamente previsto na Constituição brasileira entre os direitos fundamentais, no art. 5º, inciso XIV, o qual assegura o direito de acesso à informação, “resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional“.


Da Redação | Rede GNI