o conteúdo do dossiê criado por perito da PF
Últimas atualizações em 07/07/2026 – 22:56 Por Gazeta do Povo | Feed
Uma investigação conduzida pela Polícia Federal, que ainda está em curso, identificou que o perito criminal João Cláudio Nabas teria produzido, em dezembro de 2025, dois arquivos em PDF a partir de dados extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, alvo da Operação Compliance Zero.
Segundo os elementos reunidos pela corporação, os documentos batizados de “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf” eram espécies de dossiês com mensagens e menções aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli encontradas sobretudo no primeiro celular apreendido do ex-banqueiro. O documento não englobaria o conteúdo de mensagens enviadas pelos próprios ministros.
O perito não disse qual seria sua motivação. Mas a reportagem apurou que investigadores acreditam que ele agiu motivado por acreditar que os ministros não seriam investigados por terem muito poder. A ideia seria levar as informações a público para que a pressão popular possibilitasse o início de uma investigação sobre Moraes e Toffoli. Mas até o momento eles não são investigados.
De acordo com a apuração policial comunicada na última semana ao ministro do STF, relator do caso Master, André Mendonça, constaria no material um compilado de conversas, contatos telefônicos e referências envolvendo Moraes, além de informações sobre Toffoli e sua ex-mulher, Roberta Rangel.
Isso incluiria dados associados a negócios de familiares do ministro, como a participação em cotas de um resort de luxo no interior do Paraná que pertencia à família de Toffoli e o contrato milionário do escritório da esposa de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes no valor de R$ 129 milhões, com o Master.
Como os arquivos teriam sido produzidos
Nabas é especializado em crimes financeiros e foi chamado para reforçar a equipe da Operação Compliance Zero em novembro do ano passado, logo após a primeira fase da operação que mirou Vorcaro e culminou com a apreensão do primeiro e mais bombástico celular pessoal do ex-banqueiro. Segundo o levantamento da PF, o perito teve acesso ao material extraído do telefone de Vorcaro em 1º de dezembro e, poucos dias depois, montou os dois arquivos reunindo trechos que mencionavam os ministros.
Depoimentos de policiais federais no caso indicam que o perito trabalhava de forma remota, a partir de Rondônia, onde é lotado. Um desses relatos apontaria que, em 5 de dezembro, Nabas enviou a colegas um arquivo em PDF sem qualquer identificação, contendo mensagens do celular de Vorcaro. Na sequência, teria sugerido que o conteúdo fosse repassado à imprensa.
A equipe, segundo a PF, teria recusado a proposta. Mesmo assim, segundo os relatos colhidos pela corporação, Nabas teria voltado a insistir na divulgação. Diante de uma nova recusa, enviou um segundo arquivo, também sem identificação, desta vez reunindo informações sobre Toffoli e a ex-esposa. A insistência se explica pelo fato da decisão de investigar ministros ser uma questão mais política que técnica, que provavelmente dificilmente avançaria se o caso ficasse em sigilo.
O que estaria nos documentos
O material sobre Moraes teria concentrado um apanhado de mensagens e citações ao ministro encontradas na extração de dados do aparelho de Vorcaro. Um dos pontos citados pela apuração envolve o contrato de R$ 129 milhões do Banco Master com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. As tratativas desse contrato teriam sido enviadas pela própria advogada diretamente ao WhatsApp do ex-banqueiro.
Já o arquivo relacionado a Toffoli reuniria dados sobre negócios de sua ex-mulher e da família dele, com destaque para a participação no empreendimento turístico de luxo no Paraná. Parte dessas informações teria, inclusive, sido usada posteriormente pela própria Polícia Federal para fundamentar um pedido de suspeição contra o ministro perante o STF.
À época, Toffoli era relator do caso Master e chegou a determinar que todos os materiais apreendidos na Compliance Zero fossem lacrados e direcionados ao Supremo, limitando o acesso a apenas quatro peritos designados por ele.
Depois da recusa da equipe de colegas de Nabas em levar o conteúdo à imprensa, informações sobre o contrato da esposa de Moraes com o Master acabaram vindo a público. A cronologia dos fatos, como a criação dos arquivos, a sugestão de vazamento e a publicação posterior das informações, foi um dos elementos que levaram a Polícia Federal a suspeitar que o perito tivesse repassado o material sigiloso a jornalistas.
Diante disso, a corporação cumpriu um mandado de busca e apreensão contra o perito em maio, sob suspeita de violação de sigilo funcional, e ele foi afastado da equipe responsável pela operação, perdendo acesso aos dados e materiais apreendidos no caso. Ele está em liberdade e foi afastado da função pública, mas responde por vazamento ilegal de informações protegidas, tentativa de induzir colegas ao crime e aliciamento interno e quebra de protocolo.
A PF disse que jornalistas não são alvo dessa apuração e o que está sob investigação seria a conduta do servidor público que teria organizado e repassado as informações, não o trabalho da imprensa que publicou o conteúdo.
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A defesa e os ministros citados
Procurados, os advogados que representam João Nabas não se manifestaram sobre o caso até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto. Os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli também foram procurados, mas nenhum deles comentou o assunto.
Segundo fontes a par das apurações, em janeiro, quando criticou o trabalho da PF na condução das investigações, o ministro Dias Toffoli, ainda relator do caso Master, teria tido conhecimento do suposto dossiê e do seu vazamento.
O contexto: a Operação Compliance Zero
O episódio dos arquivos é um desdobramento da Operação Compliance Zero, deflagrada em nove fases pela Polícia Federal desde novembro de 2025 para apurar um esquema bilionário supostamente de fraudes envolvendo o Banco Master. As investigações começaram em 2024, a partir de uma requisição do Ministério Público Federal, e miram o uso de estruturas do mercado de capitais para desviar recursos e mascarar prejuízos do banco.
Vorcaro chegou a ser preso duas vezes ao longo do processo, a primeira quando se preparava para embarcar para o exterior, em novembro, e a segunda em março, na terceira fase da operação. Ele segue detido desde então.
Ao longo dos meses seguintes, a investigação avançou sobre diferentes frentes: o uso de fundos de investimento para comprar ativos sem valor real, o pagamento de subornos a políticos, a atuação de um grupo de hackers a serviço do banqueiro e a suspeita de que Vorcaro mantinha uma milícia particular para intimidar desafetos, incluindo um jornalista.
A única frente na qual não houve avanço nas apurações corresponde justamente à das supostas ligações de ministros e autoridades do Poder Judiciário com o ex-banqueiro.
Nomes como os dos senadores Ciro Nogueira, presidente do PP, e Jaques Wagner, ex-líder do governo Lula no Senado, do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e do ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) entraram na mira de fases da operação, em meio a suspeitas de recebimento de valores e uso de fundos de previdência de servidores públicos para aplicações no banco.
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Toffoli já havia reclamado da atuação da PF no caso
O episódio dos dossiês não foi o único momento de tensão entre o ministro Dias Toffoli, enquanto relator do caso Master no STF, e a Polícia Federal. Em janeiro deste ano, ao autorizar uma etapa de buscas contra Vorcaro e pessoas ligadas a ele, Toffoli criticou publicamente o que considerou uma demora da corporação em cumprir medidas cautelares que ele próprio havia determinado.
Segundo o ministro, ele havia fixado um prazo de 24 horas, a partir do dia 12 de janeiro, para o cumprimento das medidas, o que não teria ocorrido dentro do previsto. Toffoli chegou a afirmar, em sua decisão, que a demora poderia permitir que investigados destruíssem provas relevantes para o caso, e atribuiu à PF a responsabilidade por eventuais prejuízos à apuração decorrentes do atraso.
Meses depois, surge a informação que um perito ligado à força-tarefa teria produzido dossiês informais sobre o ministro e sobre Alexandre de Moraes, o que segundo a corporação fugiria do escopo original da apuração sobre o Banco Master.
Foro privilegiado limita atuação da PF sobre ministros
Ministros do STF só podem ser formalmente investigados pela Polícia Federal mediante autorização do próprio Supremo. Por causa do foro por prerrogativa de função, qualquer diligência ou inquérito que envolva esses magistrados precisa ser protocolado no próprio tribunal e conduzido sob a relatoria de um dos ministros da Corte. Nesse caso, por se tratar do caso Master, a decisão muito provavelmente teria de vir do atual relator, André Mendonça.
Segundo fontes a par das apurações, esse detalhe ajudaria a explicar por que a atuação do perito, ao reunir informações sobre Moraes e Toffoli fora do âmbito formal de uma investigação autorizada, foi tratada como um desvio de conduta grave dentro da corporação. O material teria sido produzido e potencialmente divulgado sem respaldo institucional para apurar a conduta dos ministros.
Com o afastamento de Nabas da equipe e a abertura de inquérito específico sobre o vazamento, a expectativa é que a Polícia Federal aprofunde a apuração sobre a origem e o destino final dos dois arquivos, além de eventuais outros conteúdos que possam ter sido extraídos do celular de Vorcaro fora do escopo autorizado da Operação Compliance Zero.
João Cláudio Nabas se especializou em investigar crimes financeiros
Nabas é perito criminal federal com cerca de duas décadas de atuação na PF. Formado em Engenharia Civil pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e mestre em Economia pela Universidade de Brasília (UnB), desenvolveu carreira voltada à investigação de crimes financeiros, fraudes em investimentos, contabilidade forense e perícias econômicas.
Ele também atuou como chefe do Núcleo Técnico da Polícia Federal em Vilhena (RO) e como instrutor em cursos especializados sobre fraudes em regimes próprios de previdência e fundos de investimento.
Em suas redes sociais, Nabas também já teria compartilhado publicações de figuras ligadas à Operação Lava Jato e a parlamentares, fato mencionado em reportagens sobre sua trajetória pública.
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