Nem todo capital estrangeiro na bolsa significa novo ingresso de dólar no país

Os dados oficiais da B3 indicam um ingresso de R$ 28,14 bilhões na bolsa em janeiro, até dia 27, mas esse investimento não significa que tenha, necessariamente, ingressado um volume correspondente de dólares no país.

Na semana passada, o Banco Central divulgou estatísticas do setor externo que apontavam, até o dia 21, um fluxo positivo de US$ 1,607 bilhão em investimentos em ações e fundos de investimento. Para o mesmo período, a B3 informou um investimento de R$ 20,1 bilhões, o que equivale a pouco mais de US$ 3,7 bilhões, considerando uma cotação média do dólar de R$ 5,56 no período.

Qual dos dois números está certo? Ambos, mas eles têm conceitos diferentes. Os dados da B3 capturam o aumento da posição em bolsa dos investidores estrangeiros, mas não dizem nada sobre a origem do dinheiro. O investidor estrangeiro pode tanto ter aumentado sua posição porque trouxe dinheiro novo ao Brasil ou porque fez uma realocação entre ativos de recursos que já estavam dentro do país.

Já a estatística do Banco Central registra o efetivo ingresso de moeda estrangeira no Brasil, tomando como base os contratos de câmbio fechados por investidores não residentes.

Mas há outras diferenças importantes de metodologia. A estatística do BC é feita com base no contrato de câmbio liquidado, ou seja, quando a moeda estrangeira efetivamente entra no país. Já a estatística da B3 leva em conta as operações contratadas, que são liquidadas com uma defasagem de três dias.

Isso pode ter um efeito importante nos números. Nos últimos três dias do período que vai até 21 de janeiro, por exemplo, a B3 registrou um ingresso de quase R$ 4 bilhões. As estatísticas do BC, por outro lado, podem ter incluído uma parte dos investimentos feitos por estrangeiros nos últimos três dias de dezembro, quando o fluxo foi positivo em R$ 2,6 bilhões, segundo dados da B3.

Outra diferença metodológica é que a B3 contabiliza em separado os recursos que entram em ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) e em operações de “follow on” (ofertas subsequentes). Na estatística do BC, tudo é considerado investimento em bolsa.

Mas, por outro lado, o Banco Central registra como investimento direto quando um investidor tem uma posição igual ou maior do que 10%. Uma diferença final é que, nas estatísticas do BC, são contabilizados juntos os investimentos em Bolsas e em fundos de investimentos, nos dados parciais divulgados ao longo do mês. No dado cheio do mês, os dados são apresentados de forma separada.

A conclusão é que o aumento da posição de estrangeiro na bolsa, divulgado pela B3, pode ser uma boa aproximação do fluxo de ingresso de capital estrangeiro, apontando tendências importantes, mas não substitui os dados do balanço de pagamentos.

Em alguns momentos, a discrepância pode ser significativa. Em dezembro, a B3 registrou um aumento de R$ 14,54 bilhões na posição de investidores estrangeiros na Bolsa, mas o Banco Central registrou um fluxo negativo de US$ 851 milhões nos investimentos em Bolsa e fundos de investimento, sendo uma saída de US$ 996 milhões em Bolsa e ingresso de US$ 142 milhões em fundos.

Um aspecto interessante é que os investimentos estrangeiros em ações têm um grande giro. Em dezembro, por exemplo, ingressaram US$ 12,846 bilhões e saíram US$ 13,842 bilhões, resultando em um fluxo negativo de US$ 996 milhões em Bolsa.

Alex Ribeiro, Valor — São Paulo


Matéria sugerida pelo leitor Alcione – Rio de Janeiro