Copa tem participação recorde de países que perseguem cristãos
Últimas atualizações em 28/06/2026 – 11:59 Por Gazeta do Povo | Feed
A maior Copa do Mundo da história também reúne um recorde de seleções de países onde cristãos enfrentam perseguição, discriminação ou restrições à liberdade religiosa.
Segundo dados da Portas Abertas, 14 das 48 seleções classificadas para o Mundial de 2026 representam países que estão na Lista Mundial da Perseguição, ranking anual que aponta os lugares mais difíceis para viver a fé cristã. O grupo inclui nações do Oriente Médio, da África, da Ásia e das Américas, com cenários que vão de vigilância estatal e fechamento de igrejas a prisões, ameaças de grupos extremistas, pressão familiar e violência ligada ao crime organizado.
Estão neste grupo Irã, Arábia Saudita, Iraque, Argélia, Marrocos, Uzbequistão, República Democrática do Congo, México, Tunísia, Turquia, Egito, Catar, Colômbia e Jordânia.
A Lista Mundial da Perseguição da Portas Abertas divide os 50 países mais hostis ao cristianismo em faixas de intensidade (“Extrema” no top 15 e “Severa” do 16º ao 50º). Entre os 14 países com seleções no Mundial, dois ocupam a parte de cima do ranking e são classificados com nível de perseguição “extrema”: o Irã, em 10º lugar, e a Arábia Saudita, em 13º.
Os outros 12, Iraque (18º), Argélia (20º), Marrocos (23º), Uzbequistão (25º), República Democrática do Congo (29º), México (30º), Tunísia (31º), Turquia (41º), Egito (42º), Catar (44º), Colômbia (47º) e Jordânia (49º), estão na faixa de perseguição “severa”.
O número registrado em 2026 é o maior já observado nos dados compilados pela Portas Abertas. Nas edições anteriores, o cruzamento entre seleções classificadas para a Copa do Mundo e países presentes na Lista Mundial da Perseguição nunca havia alcançado esse patamar: em 2018 e 2022, sete países apareciam simultaneamente nas duas listas, até então a marca mais alta; em 2014 eram quatro; em 2002, cinco; e em 2006 e 2010, apenas dois. A ampliação do Mundial de 32 para 48 seleções ajuda a explicar parte do aumento.
Como é a perseguição aos cristãos nos países citados
Segundo a Portas Abertas, no Irã, a conversão do islamismo ao cristianismo é tratada como ato ilegal. Cristãos convertidos podem enfrentar prisão, perda de herança, divórcio judicial ou perda da guarda dos filhos. Autoridades também recorrem à pressão psicológica, ameaçando bloquear o acesso dos fiéis ao mercado de trabalho, ao ensino superior e ao direito de se casar.
Igrejas domésticas são frequentemente invadidas pelo regime e líderes cristãos são presos com regularidade. O Irã é apontado pela Portas Abertas como um dos países em que a situação se agravou de forma mais ampla nos últimos anos, com aumento da vigilância estatal e do número de detenções de cristãos.
Na Arábia Saudita, não existem igrejas públicas. A decisão de um muçulmano de seguir Jesus é tratada como desonra familiar, podendo resultar em isolamento, confinamento e múltiplas formas de abuso dentro do núcleo doméstico. Segundo a Portas Abertas, a pressão é tão intensa que a maioria dos cristãos sauditas vive a fé em segredo, muitas vezes escondendo a crença até de cônjuges e filhos.
Em entrevista à Gazeta do Povo, Marco Cruz, secretário-geral da Portas Abertas, explicou que nos demais países do Oriente Médio e do norte da África, como Argélia, Egito, Marrocos, Tunísia e Jordânia, a perseguição aos cristãos tem uma raiz estrutural.
“Em muitos desses países, o islamismo faz parte da identidade do cidadão. Nascer no país é nascer muçulmano e, ao se converter, o cristão encontra barreiras sociais, burocráticas e religiosas intensas”, disse Cruz.
De acordo com Cruz, no Iraque, a Igreja ainda carrega as cicatrizes de anos de conflito armado. As comunidades cristãs no país, que chegaram a representar uma parcela expressiva da população local antes das guerras, encontram-se hoje reduzidas e vulneráveis diante de ameaças de grupos extremistas e de insegurança persistente.
Na Argélia, igrejas protestantes foram fechadas nos últimos anos e cultos suspensos, aprofundando o isolamento de cristãos de origem muçulmana. No Marrocos, o simples ato de compartilhar a fé pode resultar em punições legais.
No Egito, a discriminação se manifesta principalmente em nível local, com ataques direcionados especialmente a convertidos do islamismo. Na Jordânia, apesar de alguma margem de liberdade para cristãos históricos, convertidos do islamismo enfrentam pressão familiar intensa e restrições sociais para viver a fé de forma aberta.
No Catar, cristãos estrangeiros têm relativa liberdade, mas cidadãos locais que deixam o islã correm riscos legais e familiares graves. Na Tunísia, cristãos são monitorados e podem ser interrogados pelas autoridades, enquanto os de origem muçulmana que se converteram vivem a fé em segredo.
Controle estatal na Ásia Central e pressão cultural na Turquia
Uzbequistão e Turquia representam outro tipo de hostilidade contra cristãos, menos associado à violência de grupos extremistas e mais ligado ao controle do Estado, à vigilância e à pressão social.
“Em países com forte controle governamental, como o Uzbequistão e a Turquia, há vigilância, limitações à atuação religiosa e obstáculos para comunidades cristãs não alinhadas ao modelo oficial ou à religião predominante, no caso, o islamismo”, afirmou Cruz.
“Vale ressaltar que não são todos os muçulmanos que perseguem cristãos, mas países em que a religião muçulmana é predominante, grupos extremistas ou o próprio governo restringem e perseguem a prática cristã”, explicou.
No Uzbequistão, segundo a Portas Abertas, o Estado impõe restrições rigorosas às igrejas. Encontros religiosos podem ser interrompidos, comunidades cristãs enfrentam monitoramento constante e atividades fora dos padrões autorizados pelo governo são alvo de pressão.
Na Turquia, segundo a organização, a perseguição ocorre principalmente pela pressão cultural. Cristãos de origem muçulmana enfrentam discriminação e, em muitos casos, escondem a fé para evitar rejeição familiar, dificuldades no trabalho e isolamento social.
Nas Américas, o crime organizado é o principal agente de perseguição
No México e na Colômbia, a perseguição aos cristãos não está ligada principalmente ao poder do Estado ou a leis religiosas, mas ao domínio territorial de cartéis, facções e grupos armados ilegais.
Segundo a Portas Abertas, líderes cristãos e igrejas entram na mira desses grupos quando denunciam abusos, tentam afastar jovens do crime ou se recusam a aceitar a autoridade imposta por organizações criminosas.
“O México e a Colômbia registram pressão, ameaças e violência contra líderes cristãos e igrejas, especialmente em áreas onde há atuação de grupos criminosos”, explicou Cruz.
Nos dois países, pastores e demais líderes religiosos podem ser vistos como obstáculos ao controle social exercido pelo crime organizado. Segundo a ONG, eles são alvo de pressões, que incluem intimidação, ameaças, expulsão de comunidades e ataques contra igrejas.
Na Colômbia, além da violência de grupos armados, cristãos convertidos em comunidades indígenas também enfrentam rejeição e perseguição por romperem com práticas religiosas tradicionais.
Fora das Américas, na República Democrática do Congo, no continente africano, grupos armados também atacam comunidades cristãs, destroem igrejas e forçam famílias a abandonar suas casas. Segundo a Portas Abertas, o recente conflito interno no país tornou os cristãos um dos principais alvos da violência, especialmente em regiões dominadas por milícias e grupos extremistas.
A perseguição, nesse caso, também se transforma em crise humanitária. Além de mortes e igrejas destruídas, comunidades inteiras são deslocadas pela violência e passam a viver longe de suas casas, em situação de vulnerabilidade.
Copa amplia visibilidade para debate sobre liberdade religiosa, diz Portas Abertas
Para Marco Cruz, a dimensão global da Copa do Mundo cria uma oportunidade para chamar atenção da comunidade internacional para a situação dos cristãos que vivem em países com restrições à liberdade religiosa.
“A Copa do Mundo é um dos maiores eventos globais e concentra a atenção de bilhões de pessoas. Nesse cenário, ela também pode ser uma oportunidade para ampliar a conscientização sobre a importância da liberdade religiosa. Ao evidenciar que alguns países participantes possuem histórico de perseguição a cristãos, buscamos gerar reflexão e promover uma cultura de respeito aos direitos humanos e à prática da fé. O objetivo não é politizar o esporte, mas lembrar que, por trás das seleções, existem realidades sociais que não podem ser ignoradas”, disse ele.
Segundo Cruz, a visibilidade de uma Copa do Mundo também pode servir para ampliar o debate internacional sobre a situação interna dos países participantes, especialmente quando governos repressivos tentam usar grandes eventos esportivos para projetar uma imagem positiva no exterior.
“Por isso, é importante que a comunidade internacional, incluindo imprensa e sociedade civil, aproveite a visibilidade do evento para promover um olhar mais completo sobre a realidade desses países”, declarou.
O secretário-geral da Portas Abertas afirmou que a perseguição aos cristãos tem assumido características diferentes ao redor do mundo.
“Em países com governos autoritários ou extremismo religioso, a perseguição tem se intensificado, com mais vigilância, prisões arbitrárias e restrições legais. Já em outras regiões, como partes da América Latina e da África, a perseguição tem se tornado mais difusa, frequentemente ligada ao crime organizado, grupos locais ou pressões comunitárias”, explicou.
De acordo com estimativa da Portas Abertas, cerca de um em cada sete cristãos no mundo enfrenta atualmente algum nível de perseguição ou discriminação por causa da fé.
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