Confiança no STF despenca a mínimo histórico

Últimas atualizações em 21/03/2026 – 16:14 Por Gazeta do Povo | Feed


Seis em cada dez brasileiros ouvidos em uma pesquisa da AtlasIntel não confiam no trabalho e nos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), maior patamar de desconfiança desde o início da série histórica do levantamento. Para juristas ouvidos pela Gazeta do Povo, a maior percepção negativa do Supremo pode estar ligada de forma direta à repercussão do caso Master, sobre o qual quase 75% dos entrevistados pelo levantamento disseram conhecer detalhes.

A nova rodada do levantamento, em parceria com o Estadão, foi divulgada nesta sexta-feira (20) e mostra que 60% dos ouvidos também não veem imparcialidade de magistrados no julgamento de processos e não creem que todos os investigados sejam tratados da mesma forma pela Corte.

A desconfiança da população é ainda maior no Congresso Nacional (86%). Já o governo federal tem índice de desaprovação semelhante ao do STF (com 59% declarando não confiar).

“A pesquisa mostra que o escândalo do Master derrubou a credibilidade do STF. Isso se deu pelas condutas dos próprios ministros, especialmente Alexandre de Moraes e Dias Toffoli”, analisa o advogado e historiador Enio Viterbo.

Ele acrescenta que a maneira como a grande mídia tem noticiado o caso rompeu “a bolha da direita”, que até então era a parcela da população que desaprovava a Corte.

Para 53%, o processo de liquidação do banco não deveria ser julgado pelo STF, sendo que 66% acreditam haver envolvimento direto de ministro da Corte e 62% veem excesso de sigilo no caso. Quase 77% acreditam que fatores externos (políticos, partidos ou grupos poderosos) estão influenciando no julgamento.

A consultora jurídica Kátia Magalhães concorda que o caso Master afetou a percepção da população com relação ao STF. Ela aponta que a série histórica mostrava uma confiança alta da população no Supremo em alguns meses de 2023 (47% em abril, por exemplo), “que foi um ano com prisões em massa” determinadas pelo Supremo dentro dos inquéritos do 8 de janeiro.

“O caso Master mexeu muito mais com as pessoas, a meu ver, devido à grande repercussão midiática, porque o discurso da grande mídia em 2023-2024 era de que o STF estava praticando aqueles horrores em defesa da democracia”, diz, ressaltando a “amplíssima repercussão” do escândalo atual entre todas as faixas de idade e regiões, segundo os dados da AtlasIntel.

“A gente vê o papel da grande mídia, que tem acesso a rincões, aos lares menos favorecidos, nesse caso. A pesquisa mostra um Judiciário nada confiável, na percepção da população. Quando você percebe a maior Corte do país como parcial, isso é o maior indicativo de que as pessoas não veem a Justiça sendo aplicada.”

Levantamento mostra pressão sobre Toffoli e avaliações desiguais entre ministros

Apesar de o levantamento mostrar que quase metade dos entrevistados (49,3%) defende o impeachment imediato de Dias Toffoli, com outros 33,7% dizendo que a destituição do magistrado só deveria ocorrer caso seu envolvimento no escândalo fique comprovado, Viterbo acentua que todos os magistrados “têm parcela de culpa” no cenário atual.

“É bom lembrar que quase todos os ministros foram, no mínimo, coniventes com a situação. Lembro que, na reunião secreta sobre a suspeição de Toffoli, ele já tinha oito votos para ficar na relatoria. Inclusive, os ministros assinaram uma nota de apoio ao ministro”, recorda.

Kátia Magalhães vê, nesse sentido, uma falha metodológica na pesquisa, ao não provocar a população a responder sobre a atuação de Alexandre de Moraes, que pontua como o quinto dos 11 ministros com imagem mais positiva (37%). “Eles perguntam em relação ao Toffoli, mas não sobre o envolvimento direto do Moraes no caso Master”, analisa.

Na pesquisa, a desaprovação de Gilmar Mendes – com 67% o vendo de forma negativa – é maior que a de Moraes, que tem 59% de percepção negativa. Já Nunes Marques, “apesar de não proferir decisões muito histriônicas”, aponta a jurista, é um dos menos aprovados – apenas 22% o veem de forma positiva.

“O Alexandre de Moraes aparece na meiuca, apesar de toda a repercussão de várias decisões de censura, prisões ilegais”, acentua.

Para a jurista, a percepção “surpreendentemente positiva” sobre Flávio Dino também é uma das contradições da imagem do STF junto à população. Ele é o segundo mais bem aprovado, com 40%, atrás de Mendonça, com 43%.

“Talvez esse dado possa ser lido da seguinte forma: a população não vem sendo tão informada assim de decisões muito sensíveis ao longo dos últimos sete anos, e isso mantém a imagem positiva desses dois [Moraes e Dino], apesar de todas as heterodoxias e abusos.”

Eleições para o Senado são decisivas

Enio Viterbo explica que uma denúncia feita pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, poderia dar início a um processo de responsabilização dos ministros, o que avalia ser bastante difícil de ocorrer na prática.

“Ele é praticamente “um assessor” de Moraes e Gilmar. Difícil sair uma denúncia ou pedido de investigação dali. Isso já foi dito pelos investigadores da PF nos bastidores”, opina.

Já a classe política, na opinião do jurista, fica amedrontada “porque sabe que o STF usa processos penais de forma política para atingir adversários e preservar aliados”, o que acaba sendo reforçado pela grande imprensa, que “serve como um canal de transmissão dos ministros”. “

Se um político incomoda demais, alguns jornalistas já começam a dizer que ele está na mira de algum ministro ou que os ministros estão descontentes, indignados, etc”, lamenta.

Apesar disso, Viterbo vê nas eleições deste ano uma luz no fim do túnel. “A eleição para o Senado é fundamental para mudar isso tudo. Se o Centrão for diminuído e a direita assumir a grande maioria do Senado, acabou o poder de Alcolumbre. O presidente do Senado só arquiva o impeachment de ministros do STF porque conta com a conivência do Centrão”, afirma o advogado.

Já Kátia Magalhães é menos otimista nesse sentido. Embora, acentue, “a inércia dos parlamentares não passe despercebida aos olhos da população” – o que fica claro na desconfiança relatada por 86% em relação ao Congresso -, ela recorda que o próprio levantamento da AtlasIntel mostra que a população está “botando pouca fé” na mudança da presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de Cármen Lúcia para Kassio Nunes Marques.

Enquanto 29% acham que vai ser melhor, 20% consideram que ficará igual, 19% dizem que piorará e 30% declaram ser cedo para opinar.

“Possivelmente neste ano eleitoral vá haver um nível de abstenção gigantesco. As pessoas simplesmente não confiam que os parlamentares façam ou possam fazer alguma coisa efetiva para mudar esse quadro”, aposta.

“Havia muitos discursos da classe política, do próprio Bolsonaro, quando estava livre, e de aliados dizendo ‘2026 vem aí, o TSE vai mudar de comando’. A população não comprou essa ideia”, completa a jurista.

Segundo ela, a pesquisa indica que parte do eleitorado demonstra frustração com a atuação de parlamentares e das instituições, o que acaba reduzindo a confiança na utilidade do voto como instrumento de mudança.

Metodologia

A pesquisa foi realizada pela AtlasIntel, em parceria com o Estadão, entre os dias 16 e 19 de março de 2026. Ao todo, foram ouvidas 2.090 pessoas em todo o país. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

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