Avanço da direita promete mais operações de segurança dos EUA em vizinhos do Brasil
Últimas atualizações em 27/06/2026 – 05:30 Por Gazeta do Povo | Feed
A direita sul-americana garantiu duas vitórias importantes nesta semana com as eleições presidenciais na Colômbia e no Peru. Esse avanço tem sido observado de perto pelo governo dos EUA, liderado por Donald Trump, que espera alcançar novos acordos na região para ampliar sua estratégia de segurança na América Latina, apesar da resistência de países como o Brasil.
Em seu primeiro discurso após ser confirmado como próximo presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella disse que o país vai aderir ao plano Escudo das Américas, uma coalizão regional encabeçada por Washington para combater o crime organizado transnacional, da qual já fazem parte países como Argentina, Chile, Bolívia, Equador e El Salvador. Países governados pela esquerda, como o Brasil, não integram o grupo.
No Peru, a vitória matematicamente certa da conservadora Keiko Fujimori sinaliza que os EUA poderão contar com mais um aliado na América do Sul para avançar com seu projeto de eliminar a influência de adversários geopolíticos, como China e Rússia.
As recentes vitórias de forças políticas ideologicamente alinhadas com a administração republicana deixam o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cada vez mais isolado na região.
EUA já firmaram acordos de segurança com vários países da América do Sul
Desde dezembro, quando Trump reorientou suas prioridades militares para a América Latina com a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, o governo americano conseguiu firmar diversos acordos com países sul-americanos.
Um dos primeiros foi a Argentina, liderada pelo presidente Javier Milei. Ele assinou um memorando de entendimento com a Casa Branca destinado a fortalecer as investigações contra o crime organizado transnacional. O documento autorizou a incorporação de um representante da Polícia Federal Argentina à “El Dorado Task Force”, um grupo de trabalho americano integrado por diferentes agências e destinado a fortalecer as investigações contra o crime organizado.
Posteriormente, a Casa Rosada assinou outros documentos que fortaleceram os laços com Washington em questões de segurança, como o acordo que permitiu a entrada de tropas americanas no território para exercícios militares.
Outro vizinho do Brasil, o Paraguai, também reforçou sua aliança com os EUA com uma parceria estratégica que permite o destacamento de militares americanos no Paraguai, no chamado Acordo do Estatuto das Forças (Sofa, na sigla em inglês).
Bolívia, Chile e Equador também firmaram acordos visando combater o crime organizado da região.
Uma das medidas mais recentes adotadas por países sul-americanos, principalmente de direita, foi a assinatura do Compromisso de Santiago, uma iniciativa para aumentar a coordenação regional no combate ao crime organizado transnacional e ao narcotráfico.
Uma pesquisa realizada pelo instituto Latinobarómetro, com sede no Chile, apontou que, em 2024, o grau de identificação dos latino-americanos com a direita atingiu seu nível mais alto em mais de duas décadas. Ao todo, mais de 19 mil pessoas foram entrevistadas em 18 países da região.
Entre os principais motivos dessa guinada a uma ala mais conservadora, segundo o levantamento, foi a crescente frustração da população com a criminalidade, que não é um desafio novo para a região, mas que se agravou substancialmente nos últimos anos.
Relação com Brasil caminha para o lado oposto
A relação conturbada com o Brasil, por outro lado, tem sido um dos principais obstáculos para o governo Trump desenvolver sua estratégia de segurança na América do Sul.
Recentemente a Casa Branca classificou as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. O governo Lula se opôs à designação por receio de a medida abrir caminho para intervenções militares no país.
Natali Hoff, doutora em Ciência Política e professora de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), explicou à Gazeta do Povo que a tendência de os EUA costurarem esses acordos com países mais alinhados ideologicamente está inserida no contexto em que Washington enxerga a região como uma zona de influência natural do país, responsável por muitos de seus problemas domésticos, como o narcotráfico e a imigração ilegal.
Dentro desse contexto, segundo a professora, o Brasil fica cada vez mais isolado, visto que o governo Lula mescla uma postura mais pragmática com os EUA, ao mesmo tempo em que demonstra certo enfrentamento às políticas adotadas pelo governo republicano.
“Quando pensamos na arquitetura de segurança regional, que sempre foi complexa, hoje o que o Brasil tem é um desafio de garantir a segurança nacional, com foco em enfrentar o narcotráfico e organizações criminosas. E para lidar com essa questão securitária, o país precisa manter um diálogo com seus vizinhos e com os EUA”, afirma.
Hoff avalia que o Brasil, no atual contexto, deve evitar posturas mais ideológicas com o governo Trump, que acabam sendo improdutivas no enfrentamento aos desafios regionais, especialmente no que envolve o crime organizado.
Gazeta do Povo
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