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Arqueólogo encontra possível referência a Moisés em inscrições de 4 mil anos

Últimas atualizações em 19/06/2026 – 10:21 Por AFP

Depois de oito anos de estudo, o pesquisador independente Michael S. Bar-Ron publicou recentemente suas descobertas sobre as inscrições em Serabit el-Khadim, uma mina de turquesa localizada na Península do Sinai, no Egito.

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O estudo traz uma reinterpretação de textos gravados há quase 4 mil anos em rochas da mina e coloca o nome de um dos personagens mais importantes da Bíblia, Moisés, no centro de um debate que mistura arqueologia, fé e história antiga.

Onde fica Serabit el-Khadim e qual a sua importância

Serabit el-Khadim não é um lugar qualquer. A região foi explorada pelos egípcios por séculos como fonte de turquesa e cobre, e foi lá que o arqueólogo britânico Sir William Flinders Petrie descobriu, no início do século 20, um conjunto de mais de 30 inscrições gravadas nas paredes rochosas do local.

Essas inscrições são registradas em proto-sinaítico, um dos sistemas de escrita mais antigos já identificados e considerado, por muitos estudiosos, o ancestral direto do alfabeto que usamos hoje.

Parte das inscrições foi criada por trabalhadores semitas que operavam sob o domínio egípcio durante o reinado do faraó Amenemhat 3º, por volta de 1800 a.C. A interpretação das inscrições, no entanto, continua sendo um campo repleto de controvérsias.

O que dizem as inscrições e como Moisés é citado?

Para sugerir uma reinterpretação dos textos, o pesquisador Michael S. Bar-Ron utilizou fotos de alta resolução e varreduras 3D fornecidas pelo Museu Semítico de Harvard. Segundo ele, os textos dizem “zot mi’Moshe” (algo como “isto é de Moisés”) e “ne’um Moshe” (“uma declaração de Moisés”), em hebraico.

Se a leitura estiver correta, seriam as referências extra-bíblicas mais antigas ao nome Moisés já encontradas e, na interpretação mais arrojada de Bar-Ron, poderiam até ter sido escritas pelo próprio profeta. Além disso, o local também apresenta referências a “El”, um dos nomes usados para Deus na Bíblia Hebraica.

A inscrição realmente comprova o Êxodo?

Bar-Ron admite que sua pesquisa ainda não passou por revisão de pares – processo padrão de validação científica no meio acadêmico. E a recepção entre especialistas foi, no mínimo, dividida.

O egiptólogo Thomas Schneider, da Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá), classificou para o Daily Mail as conclusões como “completamente não comprovadas e enganosas”, alertando que identificações arbitrárias de letras em textos proto-sinaíticos podem distorcer nossa compreensão da história antiga do Egito.

Arqueólogo descobre teste bíblico que pode ser o mais antigo a mencionar Moisés. (Foto: Aleksander Stypczynski | Unsplash)

Outro ponto levantado por pesquisadores é o da cronologia. As inscrições datam de aproximadamente 1800 a.C., enquanto a maioria das tradições bíblicas e dos estudos sobre o Êxodo aponta para um período entre 1450 a.C. e 1250 a.C.. Ou seja, há uma diferença de até 600 anos. Isso não inviabiliza a descoberta, mas complica a associação direta com o Moisés do Livro do Êxodo.

Há ainda o problema do próprio nome. A professora Liane Feldman, de Princeton, em entrevista ao National Geographic lembra que “Moisés” era um nome de origem egípcia e, portanto, não necessariamente raro naquele contexto.

Já o estudioso Joshua Huddlestun aponta para a National Geographic que o nome aparece em documentos legais do Egito antigo, incluindo casos administrativos comuns. Em outras palavras: havia mais de um “Moisés” por lá.

O que a arqueologia já encontrou e o que ainda falta responder?

A questão sobre as evidências da existência de Moisés não é nova, e a arqueologia bíblica já acumula décadas de debate. Até hoje, nenhum documento egípcio identificou explicitamente o Moisés da Bíblia, nem há registros históricos egípcios de uma saída em massa de escravos hebreus do Egito.

Algo que seria, para um evento dessa magnitude, relativamente incomum nos arquivos de um dos impérios mais documentados da Antiguidade.

Por outro lado, a presença de hebreus no Egito durante o período correspondente ao Êxodo é arqueologicamente atestada. Escavações em regiões do Delta do Nilo revelaram comunidades de origem semítica com características culturais distintas.

O que fomenta a tese de um fundo histórico real por trás da narrativa bíblica, mesmo que detalhes específicos permaneçam sem confirmação documental.

As inscrições de Serabit el-Khadim, independentemente de mencionarem ou não o Moisés da Bíblia, já são relevantes por si só já que se tratam de evidências de trabalhadores semitas no Egito, com práticas religiosas próprias e um sistema de escrita sofisticado, exatamente na região e no período em que o Livro do Êxodo situa parte da sua narrativa.

Ciência e fé: dois olhares para o mesmo achado

A possibilidade de que o nome de Moisés esteja gravado em pedra, a centenas de quilômetros do Nilo, em pleno deserto do Sinai, é uma das mais poderosas imagens que a arqueologia bíblica já produziu nos últimos anos.

Para os pesquisadores, porém, a cautela é parte do método. Não se trata de negar a fé, mas de reconhecer que a ciência exige verificação, revisão e tempo antes de qualquer conclusão definitiva.

O que essa inscrição Êxodo Egito nos oferece, por ora, é algo raro: uma janela aberta para um período histórico ainda pouco iluminado, com perguntas que continuam vivas tanto nas universidades quanto nas comunidades de fé.

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