ação poupa autoridades e aumenta pressão por delação
Últimas atualizações em 04/03/2026 – 17:40 Por Gazeta do Povo | Feed
A terceira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, sobre o escândalo do banco Master expõe três movimentos simultâneos, segundo analistas ouvidos pela reportagem. Eles são: a ausência de autoridades com prerrogativa de foro entre os alvos, o aumento da pressão por delações premiadas e uma possível tentativa do ministro do Supremo, André Mendonça, de dar resposta pública à pressão política vinda, principalmente, da CPI do Crime Organizado.
Dois dos principais alvos da operação, o banqueiro Daniel Vorcaro e seu cunhado Fabiano Campos Zettel, presos nesta quarta-feira (4), haviam sido convocados para depor na CPI do Crime Organizado no mesmo dia, em Brasília.
Ambos obtiveram habeas corpus concedido pelo próprio Mendonça, com salvo-conduto para não comparecer à comissão e não correr o risco de produzir provas contra si mesmos.
A nova etapa da investigação descreve uma estrutura organizada em “núcleos financeiro, de corrupção, de lavagem de dinheiro e de intimidação, incluindo monitoramento ilegal de autoridades, críticos, jornalistas e uso indevido e acessos ilegais a sistemas restritos de órgãos de fiscalização e controle”.
A defesa Daniel Vorcaro “nega categoricamente as alegações atribuídas a Vorcaro” e diz que o empresário informou, no momento de sua prisão, que “jamais teve intenção de intimidar ou ameaçar jornalistas e que suas mensagens foram tiradas de contexto”. A defesa de Zettel diz que ele se apresentou à Polícia mesmo sem a defesa ter tido acesso prévio ao objeto da investigação.
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Ausência de autoridades com foro entre os alvos
Um dos pontos mais destacados pelos analistas é o fato de que, embora o caso tramite no STF desde novembro do ano passado, não há autoridades com prerrogativa de função entre os alvos das medidas cautelares até o momento.
No curso das investigações da Compliance Zero, a CPI do Crime Organizado aprovou requerimentos para convidar a prestar esclarecimentos os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, no contexto das apurações envolvendo o Banco Master.
Também foram aprovados convites direcionados à advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Moraes que teria advogado para o Master, e irmãos de Toffoli, diante de questionamentos levantados por parlamentares sobre possíveis relações institucionais e contratuais ligadas a uma empresa familiar do ministro e o banco de Vorcaro na venda de um resort de luxo no interior do Paraná.
Os requerimentos foram justificados pela necessidade, segundo integrantes da comissão, de esclarecer eventuais vínculos e decisões tomadas no âmbito do inquérito, embora não haja imputação formal de crime contra os citados.
O nome de Toffoli também ganhou destaque após relatório da Polícia Federal, encaminhado ao presidente do STF, Edson Fachin, mencionar suposta relação do ministro com Daniel Vorcaro e o Banco Master. Toffoli negou qualquer irregularidade ou vínculo indevido.
A não inclusão de autoridades e seus familiares na atual fase da operação já desperta críticas. A reportagem apurou que parlamentares, que pediram para não ter os nomes revelados, enxergam resistência do Supremo a iniciativas investigativas da CPI, reforçando a percepção de que a Corte estaria protegendo autoridades.
Para o constitucionalista André Marsiglia, a terceira fase da operação reforça uma contradição. “Isso por si só demonstra que não há autoridades com foro entre os alvos. Isso significa que o caso sequer deveria estar no STF e no elevado grau de sigilo que tem sido mantido desde novembro do ano passado”.
O criminalista Márcio Nunes observa que a ida ao Supremo teve origem formal em uma única menção a parlamentar, mas que, na prática, as medidas podem recair exclusivamente sobre operadores e integrantes do núcleo empresarial, apesar das evidências de envolvimentos com nomes de influência nos três poderes em Brasília. “Desde o início o caso tem se mostrado uma potencial bomba-relógio, podendo escalar as grandes redes de contato e influência de Vorcaro na capital federal”, afirma.
O doutor em Direito Luiz Augusto Módolo também chama atenção para esse aspecto. “Uma das coisas difíceis de ver será uma autoridade que está às voltas com o Vorcaro sofrer algo”, diz, ao destacar que, até aqui, nenhuma autoridade com foro foi alvo de mandados, apesar da gravidade das imputações e a indicação de possíveis envolvimentos em todas as esferas do poder.
Para o constitucionalista Alessandro Chiarottino, no entanto, o fato é relevante, mas não definitivo. “Sim, chama atenção, mas isso pode mudar dependendo do comportamento e do que Vorcaro decidir falar. Quanto mais tempo demorar a prisão, maior a chance e uma delação e quem sabe surgirem nomes ainda não alcançados”, afirma. Segundo ele, a ausência atual de autoridades com foro não significa que o alcance da investigação esteja fechado.
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Prisões, bloqueios bilionários e pressão por delação
Foram decretadas as prisões preventivas de Vorcaro, de Zettel, de um homem apontado como coordenador da chamada “Turma”, descrita por Mendonça como “milícia privada” e conhecido como “Sicário”, e de um policial federal aposentado que teria atuado na logística de vigilância e perseguição a opositores e críticos no caso Master.
Além disso, houve determinação de uso de tornozeleira eletrônica e afastamento de funções públicas para dois ex-servidores do Banco Central e outros investigados. Empresas suspeitas de contratos fictícios e ocultação de recursos tiveram atividades suspensas.
A decisão também cita bloqueio de mais de R$ 2,2 bilhões ligados ao núcleo familiar de Vorcaro, englobando 15 alvos, inclusive valores bloqueados na conta de seu pai. Também foram apreendidos celulares, aparelhos eletrônicos e documentos. Fontes ligadas às investigações afirmam que apenas um terço dos conteúdos dos celulares de Vorcaro foi periciado até agora, o que pode indicar novas fases da Compliance Zero nas próximas semanas.
Para André Marsiglia, o conjunto de medidas restringe significativamente a margem de manobra dos investigados, o que deve levar a um processo de colaboração premiada.
Módolo sustenta que a prisão preventiva pode acelerar negociações, apesar da forte banca de advogados e as tentativas de revogação das prisões. “A manutenção da liberdade, mesmo com tornozeleira eletrônica, permitiria articulações e eventual risco às provas”, afirma. Vorcaro que era monitorado eletronicamente desde o fim de novembro do ano passado.
Chiarottino avalia que o impacto ultrapassa o campo jurídico. “Creio que a prisão de Vorcaro possa ser um forte incentivo para a delação, sim. Deve haver muita preocupação em Brasília neste momento”. O jurista pondera, contudo, que a pressão só será efetiva se a prisão for mantida por tempo suficiente. “Essa pressão para eventual delação só funcionará se ele ficar preso tempo suficiente. Vejamos o que ocorrerá daqui para frente.”
Segundo o constitucionalista, a combinação de prisão preventiva, bloqueio bilionário de ativos e avanço na análise de provas cria um ambiente propício para acordos de colaboração. “Caso Vorcaro opte por colaborar, os desdobramentos podem alcançar patamares ainda imprevisíveis, inclusive com eventual mudança no perfil dos alvos”, afirma.
Na avaliação dos especialistas, é justamente essa possibilidade que amplia a tensão nos bastidores do poder. “Se até agora nenhuma autoridade com foro apareceu entre os alvos, uma eventual delação pode alterar o eixo da investigação”, avalia Nunes. Chiarottino avalia que certamente isso deve, e já está gerando, “pavor em Brasília”.
Resposta jurídica à pressão política
Outro raciocínio apontado pelos analistas ouvidos pela reportagem é a coincidência entre a deflagração da operação e a data em que Vorcaro e Zettel deveriam depor à CPI do Crime Organizado.
Para Márcio Nunes, a sequência dos fatos pode ser interpretada como um recado institucional. “Embora o direito ao silêncio tenha sido assegurado [em depoimento na CPI], a investigação criminal seguiu um curso no Judiciário. A deflagração da operação pode ser vista como uma resposta jurídica à pressão legislativa.”
Segundo Chiarottino , a nova fase pode ter servido para reduzir o atrito entre Legislativo e Judiciário, especialmente após tensões registradas enquanto o caso estava sob relatoria de Toffoli.
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Como começou a Operação Compliance Zero
A primeira fase da operação Compliance Zero foi deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025 como uma investigação de grande porte sobre supostas fraudes estruturais no sistema financeiro. O foco recai sobre o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, apontado como líder de um esquema que teria movimentado cifras bilionárias por meio de engenharia contábil fraudulenta, lavagem de dinheiro e influência indevida sobre agentes públicos.
O nome da operação faz referência direta à hipótese central apurada pelos investigadores: a inexistência prática de mecanismos internos de controle, governança e integridade na instituição financeira. Segundo a linha investigativa, não se trata apenas de irregularidades pontuais, mas de um modelo de negócios sustentado por fraudes sistemáticas.
Primeira fase: origem no STF e suspeitas de ativos fictícios
A primeira fase foi desencadeada em 17 de novembro de 2025 e teve como ponto de partida a apuração de carteiras de crédito supostamente fabricadas ou sem lastro real vendidas ao Banco Regional de Brasília (BRB). De acordo com as investigações, o banco teria criado ou inflado ativos inexistentes, chamados nos bastidores de “ativos podres”, para melhorar artificialmente seus balanços, mascarar prejuízos e ampliar sua capacidade de captação no mercado.
Esses créditos, segundo a Polícia Federal, poderiam ter sido posteriormente negociados com outras instituições financeiras, transferindo o risco e dando aparência de legalidade a operações que, na origem, seriam fraudulentas. A suspeita é de que o sistema financeiro tenha sido utilizado não apenas para inflar patrimônio, mas também para ocultar a real situação contábil da instituição.
Foi ainda nessa etapa que surgiu a citação do nome de um deputado federal nas apurações, o que levou o caso ao STF. Desde então, o processo tramita no Supremo, embora as medidas concretas tenham atingido, até agora, apenas o entorno empresarial e operacional de Vorcaro.
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Segunda fase: aprofundamento e suspeitas de cooptação
Em janeiro de 2026, novas frentes investigativas ampliaram o escopo do caso. A Polícia Federal passou a apurar indícios de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e possível cooptação de agentes públicos.
Entre as suspeitas está o uso de recursos do próprio sistema financeiro para dissimular a origem ilícita de ativos, inclusive por meio da venda de carteiras de crédito a outras instituições. As investigações também apontaram indícios de aproximação indevida com servidores ligados a órgãos de fiscalização, especialmente no âmbito do Banco Central.
Terceira fase: bloqueios bilionários e prisões
A terceira fase, deflagrada em 4 de março de 2026, marcou um salto qualitativo na investigação. Foram decretadas prisões preventivas de Daniel Vorcaro, de seu cunhado Fabiano Campos Zettel e de outros investigados apontados como integrantes dos núcleos operacional e de intimidação.
Segundo o STF, havia uma estrutura paralela de monitoramento e intimidação. Relatórios mencionam a atuação de um grupo descrito como “milícia privada”, que teria sido mobilizado para vigiar, pressionar ou constranger adversários comerciais, críticos da instituição, autoridades e jornalistas.
Essa combinação, envolvendo fraude financeira, lavagem de dinheiro, cooptação institucional e intimidação, deu ao caso dimensão política e institucional, ampliando a tensão em Brasília.
Defesa de Vorcaro diz que suas mensagens foram tiradas de contexto
Defensores de Vorcaro emitiram uma nota afirmando: “A defesa nega categoricamente as alegações atribuídas a Vorcaro e confia que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta”.
Os advogados reforçaram a confiança no devido processo legal e no regular funcionamento das instituições. A defesa de Zettel disse que ele se apresentou à Polícia mesmo sem a defesa ter tido acesso prévio ao objeto da investigação.
Veja abaixo a íntegra da nota da defesa de Vorcaro:
A assessoria de imprensa de Daniel Vorcaro esclarece que o empresário informou, no momento de sua prisão, que jamais teve intenção de intimidar ou ameaçar jornalistas e que suas mensagens foram tiradas de contexto.
Afirmou textualmente que “sempre respeitei o trabalho da imprensa e, ao longo de minha trajetória empresarial, mantive relacionamento institucional com diversos veículos e jornalistas. Não me lembro de minhas conversas por telefone, mas, se em algum momento me exaltei em mensagens no passado, o fiz em tom de desabafo, em privado, sem qualquer objetivo de intimidar quem quer que seja. Jamais determinei ou determinaria agressões ou qualquer espécie de violência.”
Vorcaro segue colaborando com as autoridades competentes e confia que a análise completa das informações esclarecerá definitivamente as interpretações equivocadas que vêm sendo divulgadas.
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