Ataque ao aeroporto de Riad paralisa hub e expõe fragilidades
Últimas atualizações em 10/10/2026 – 23:49 Por AFP
Pela terceira vez em uma semana, mísseis e drones houthis atingiram no sábado (10) o principal aeroporto de Riad, a capital da Arábia Saudita, e e paralisaram o coração do plano econômico saudita. O ataque deixou ao menos 12 mortos e 309 feridos, segundo fontes médicas e diplomáticas consultadas pela Reuters, e escancarou o custo de uma guerra mal calculada no Iêmen e do distanciamento de aliados ocidentais: a estratégia de modernização do reino petrolífero está exposta à retaliação rebelde.
O golpe no hub de Riad
A explosão ocorreu no principal terminal do Aeroporto Internacional Rei Khalid por volta das 15h, no horário local. Houve pânico, evacuação de passageiros e suspensão temporária das operações para avaliação de danos e segurança. A cena no entorno traduziu a gravidade: um repórter do The New York Times próximo ao aeroporto viu trânsito parado e várias ambulâncias e veículos de emergência se dirigindo aos prédios principais, onde a polícia havia bloqueado as vias. Os ataques desta semana também atingiram o aeroporto de Abha, no sul do reino, matando e ferindo várias pessoas e danificando instalações, segundo as autoridades sauditas.
A repetição dos ataques forçou o cancelamento e o desvio de voos internacionais. Kuwait Airways, Lufthansa, Air India, FlyDubai e Pakistan International Airlines interromperam suas linhas para o país. Embaixadas dos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Espanha e Canadá orientaram seus cidadãos a evitar a região.
O sinal mais imediato do custo econômico veio do mercado: o Brent subiu mais de 5% após os primeiros ataques — a instabilidade no reino petrolífero tem custo global.
O custo humano e a cautela estatal
Há divergência entre as informações de fontes diplomáticas e os comunicados oficiais sauditas sobre o número de vítimas. As fontes médicas e diplomáticas ocidentais consultadas pela Reuters sustentam o balanço de ao menos 12 mortos e 309 feridos. A Autoridade Geral de Aviação Civil da Arábia Saudita (GACA) listou as nacionalidades das vítimas fatais — quatro sauditas, dois bengaleses, um americano, um egípcio, um jordaniano, um sírio, um palestino e um sudanês —, conforme dados repassados via agência oficial SPA.
O governo saudita, porém, adotou tom cauteloso nos canais estatais iniciais: confirmou o bombardeio e informou que vários feridos recebiam atendimento, mantendo a extensão dos estragos sob avaliação técnica. O custo humano é apenas a face mais visível de uma vulnerabilidade construída ao longo de anos de decisões geopolíticas equivocadas, segundo analistas internacionais.
A cadeia de rupturas regionais
O primeiro erro estrutural veio no fim do ano passado, quando a Arábia Saudita rompeu a aliança de uma década com os Emirados Árabes Unidos. A ruptura ocorreu após caças sauditas atingirem um carregamento de veículos militares enviado por Abu Dhabi ao Iêmen. A retirada precipitada das tropas emiradenses gerou um vácuo de poder e desarticulou o comando das forças aliadas em solo.
Como destacou uma autoridade do sul do Iêmen à CNN, em condição de anonimato, “não houve uma transição adequada quando os emiradenses partiram” e “os sauditas não substituíram essa eficiência à altura”. A falta de coordenação enfraqueceu o combate aos Houthis e abriu margem para o avanço das milícias.
A leitura houthi sobre a escalada reforça o diagnóstico de isolamento. O porta-voz do grupo, Nasruddin Amer, disse ao The Washington Post que a Arábia Saudita “trouxe essa escalada sobre si mesma” ao se recusar a responder às demandas houthis — incluindo o fim do que o grupo descreve como bloqueio liderado pelos sauditas ao Iêmen. Do outro lado da fronteira, aviões de guerra sauditas bombardeiam os houthis no Iêmen, e a milícia afirma que seus ataques ao território saudita são retaliação.
O fator Washington e a frieza de Trump
O segundo equívoco saudita, segundo analistasm foi avaliar mal o apoio militar de Washington. Apesar do pacto de defesa com os Estados Unidos e do status de “Principal Aliado Extra-Otan”, o reino viu sua expectativa de intervenção direta frustrada.
Mohammed bin Salman conversou duas vezes com o presidente americano Donald Trump para pedir ataques preventivos contra as posições Houthi, mas Trump recusou. Em vez de combater os rebeldes iemenitas, o governo americano enviou representantes a Omã para negociar com o grupo e garantir a navegação segura de embarcações americanas no Mar Vermelho.
O ex-embaixador dos Estados Unidos na Arábia Saudita Michael Ratney observou que as forças armadas sauditas não foram projetadas para agir sem o respaldo americano. “Nunca fez parte da concepção ou da estrutura de suas forças armadas travar essas guerras por conta própria”, afirmou.
A recusa americana, porém, não ocorreu no vácuo: coincidiu com o aprofundamento do conflito direto entre Estados Unidos, Israel e Irã.
A espiral regional e a reação de Teerã
A crise se aprofundou após o início do conflito direto entre Estados Unidos, Israel e Irã, que resultou na morte do Líder Supremo iraniano, Aiatolá Ali Khamenei. Em julho, Teerã enviou um avião comercial para transportar uma delegação houthi ao funeral de Khamenei, desafiando o embargo aéreo imposto por Riad.
A resposta saudita foi bombardear o aeroporto de Sanaa, no Iêmen, o que provocou a resposta imediata dos rebeldes. Os houthis declararam o fim da trégua de quatro anos, estabeleceram um bloqueio naval contra navios sauditas e tomaram posições estratégicas no Estreito de Bab al-Mandeb.
O grupo rebelde passou a atacar instalações petrolíferas e oleodutos sauditas, provocando oscilações no fornecimento global de petróleo bruto. Para Ahmed Nagi, analista sênior para o Iêmen do International Crisis Group, “os sauditas cometeram vários erros e falhas”, sobretudo ao não se prepararem para o armamento avançado dos Houthis, capaz de atingir grandes centros urbanos.
Desafios econômicos e a busca por coalizões de emergência
A crise regional gera reflexos imediatos sobre o plano Vision 2030. Eventos culturais, festivais de cinema e shows musicais foram suspensos no reino. A principal conferência financeira de Riad, marcada para o fim de outubro, sofre forte pressão de executivos internacionais temerosos com a segurança.
Sem o apoio irrestrito de Washington, Riad busca novas coalizões de defesa. No início de outubro, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão concordaram em ativar medidas de dissuasão coletiva via Acordo de Defesa Conjunta de Meca. A França concordou em enviar recursos militares e o Reino Unido disponibilizou aeronaves de reabastecimento.
Analistas apontam, porém, que o socorro externo não resolve o problema estrutural sem a unificação do comando iemenita. Hisham Al Omeisy, consultor sênior sobre o Iêmen no Instituto Europeu da Paz, advertiu que as facções aliadas precisam “unificar seus centros de comando e resolver as divergências entre as várias facções do grupo” para sustentar qualquer ganho no terreno.
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