O que levou o Japão a apostar alto na relação com a Índia
Últimas atualizações em 08/09/2026 – 23:21 Por AFP
Com o objetivo de reduzir a dependência da China em um cenário cada vez mais polarizado, o governo japonês recebeu, nas últimas semanas, a maior delegação comercial já enviada pela Índia ao seu território. O encontro histórico marca um novo capítulo na aliança estratégica entre as duas potências asiáticas, que pode reformular as cadeias de suprimentos globais.
Apesar do fortalecimento dos laços econômicos durante o atual governo da primeira-ministra Sanae Takaichi, os países listados entre as cinco maiores economias do mundo propuseram essa aproximação há décadas, ainda nos anos 1980, com investimentos industriais pioneiros que foram ampliados para a atual cooperação.
Desde a chegada do primeiro-ministro indiano Narendra Modi ao poder, em 2014, essa relação passou a ser vista como uma “parceria estratégica e global especial”, focada em acordos estratégicos para levar empresas japonesas à Índia, ao mesmo tempo em que busca avançar com projetos emblemáticos, como ocorre com o primeiro trem-bala da Índia, que ligará Mumbai e Ahmedabad, em construção desde 2017, com tecnologia japonesa de ponta.
Tóquio anunciou ainda uma meta ambiciosa de investir 10 trilhões de ienes (cerca de 70 bilhões de dólares) na próxima década no território indiano, num plano para diversificar seu mercado, antes concentrado na China. Nesse cenário, Nova Delhi surge como a principal alternativa para absorver esse capital.
Para Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec DF, há um componente claro de contraponto à China nessa estratégia adotada pelos países, mas o enfoque dessa aliança seria mais a diversificação estratégica.
“O Japão não está investindo na Índia simplesmente porque a economia chinesa desacelerou. Essa aproximação vem sendo construída há anos e ganhou agora uma dimensão explícita de segurança econômica. Na cúpula de julho, Japão e Índia estabeleceram como meta atrair 10 trilhões de ienes em investimentos japoneses na próxima década e colocaram semicondutores, minerais críticos, inteligência artificial e materiais avançados no centro de uma estratégia de cadeias mais resilientes”, explica o analista à Gazeta do Povo, acrescentando que a desaceleração chinesa apenas reforça esse movimento.
Potencial de reformulação das cadeias de suprimentos
A Índia desempenha um papel fundamental na reestruturação das cadeias de suprimentos globais devido a uma combinação única de vantagens demográficas, geopolíticas, econômicas e de infraestrutura do país, que tem atraído cada vez mais países da Europa e da própria Ásia, como é o caso do Japão.
Parte desse sucesso se dá porque o país é visto como um contrapeso necessário ao domínio comercial chinês, o que também aproxima Nova Delhi dos EUA. Um dos pilares desse protagonismo se dá pelo Programa PLI (Production Linked Incentive, em inglês), no qual o governo indiano passou a implementar em 2020 subsídios massivos direcionados a setores estratégicos, como semicondutores, eletrônicos e produtos farmacêuticos, o que atraiu gigantes globais como a Apple.
Uma das frentes da parceria Índia-Japão, que tem o potencial de descentralizar a dependência da China, é a integração de estratégias para criar cadeias de suprimentos de chips seguras e independentes.
Galvão aponta que a ideia proposta no acordo de longo prazo não é substituir a China, mas reduzir o custo de depender demais dela. “Japão e Índia estão construindo alternativas em setores nos quais uma interrupção de fornecimento pode rapidamente se transformar em problema econômico e de segurança nacional”.
Ele destaca que a China continua sendo uma potência econômica e industrial extraordinária, mas enfrenta crescimento menor, demanda doméstica fraca, problemas no setor imobiliário e pressões deflacionárias. O FMI ainda projeta crescimento de 4,6% em 2026, enquanto a Índia cresce num ritmo maior, acima de 6%.
Ainda, no setor de minerais críticos, a cooperação entre os dois países funciona da seguinte maneira: Nova Delhi mapeia e explora depósitos minerais recém-descobertos dentro de seu território, enquanto o Japão transfere tecnologias avançadas e especialistas para atuar diretamente no mapeamento e exploração desses depósitos minerais.
Mas os países ainda precisam da China, por exemplo, para o fornecimento de grande parte dos minerais críticos necessários para a produção tecnológica e insumos farmacêuticos. Uma cúpula realizada entre a primeira-ministra Sanae e Modi, em julho, abordou diretamente essas vulnerabilidades compartilhadas. Eles enfatizaram, na ocasião, três áreas prioritárias de cooperação bilateral: segurança econômica, resiliência energética e tecnologia.
“Nessa esteira, a mudança mais provável de longo prazo nessa estratégia de décadas do Japão é surgir um novo polo relevante em partes específicas da cadeia, principalmente packaging, testes, chips automotivos e industriais, materiais e equipamentos”, avalia o professor.
Complementaridades entre Japão e Índia
Essa estratégia de longo prazo entre os países pode ser vista ainda pelo ângulo da complementaridade em questões-chave.
O Japão possui capital abundante, tecnologia de ponta e uma população em rápido envelhecimento, enquanto a Índia oferece terreno para investimentos, uma vasta população jovem e ambições de se tornar a nova fábrica do mundo.
O setor empresarial japonês percebeu que a atual rota geopolítica e os conflitos crescentes com a China demandam uma rápida diversificação de mercado. Nesse contexto, a Índia surge como uma porta de investimentos ideal.
O Japão é particularmente forte em equipamentos, materiais, tecnologia e componentes fundamentais para a produção de semicondutores. A Índia, por sua vez, possui enorme capacidade em engenharia e design, um mercado gigantesco e está investindo pesadamente para construir uma indústria local de fabricação, montagem e testes.
Essa complementaridade já está saindo do papel, com projetos como a unidade da Renesas, fabricante japonesa de semicondutores, com a CG Power, fabricante indiana de equipamentos elétricos; e a parceria da Tokyo Electron, também fabricante de semicondutores, com a indiana Tata Electronics, destaca Galvão.
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