Bomba e submarino nuclear: o que é real no discurso de soberania
Últimas atualizações em 27/08/2026 – 01:23 Por Gazeta do Povo | Feed
A capacidade nuclear e até a construção de uma bomba atômica voltaram ao debate político recentemente no Brasil em meio a um discurso de defesa da soberania e investimento em defesa.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vem prometendo verbas aos militares e divulgando o esforço de construção de um submarino nuclear. Na terça-feira (25), ele discursou no quartel-general do Exército e disse que “a defesa não pode ser uma coisa para quando sobrar dinheiro”.
O candidato Renan Santos (Missão) defende a ideia da construção da bomba nuclear como forma de dissuasão contra possíveis inimigos externos.
Mas o que há de real e o que é só retórica eleitoral nessas declarações?
A Gazeta do Povo consultou analistas políticos e de defesa sobre a viabilidade de projetos como a bomba, o submarino e o enriquecimento de urânio. Veja a seguir os principais pontos desses debates.
Nova corrida nuclear começou em 2021
O Brasil já teve um projeto de produção da bomba atômica entre as décadas de 1970 e 1990. A corrida brasileira pela arma foi realizada em segredo de Estado. O motivo para o investimento era garantir ao Brasil poder de dissuasão contra eventuais ameaças regionais, como da Argentina (que também teve um programa nuclear na época).
Em 1988, com a promulgação da nova Constituição, o projeto da bomba atômica brasileira foi encerrado. Com o colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria, o mundo entrou em compasso de desarmamento nuclear e a necessidade de nações terem armas nucleares perdeu força na opinião pública.
Na corrida eleitoral de 1998, o candidato à Presidência Dr. Enéas Carneiro (Prona) defendeu a produção de bomba atômica no Brasil. O projeto dele foi classificado como excêntrico e anacrônico pelos meios de comunicação e adversários.
Mas, em junho de 2021, satélites espiões ocidentais identificaram que a China estava construindo 120 silos de mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs, na sigla em inglês) no deserto de Gobi.
A possibilidade de Pequim ter em 2030 cerca de 1.000 armas nucleares prontas para lançamento em diversos vetores desbalanceou o equilíbrio de forças nucleares entre Estados Unidos e Rússia.
Moscou passou a criar e apresentar novas armas com capacidade de carregar cargas nucleares, como mísseis e planadores hipersônicos (Zirkon, Avangard, Kinzhal), mísseis balísticos (Oreshnik) e um “torpedo nuclear” (Poseidon).
Washington acelerou um programa trilionário de substituição de seus mísseis ICBM Minuteman III e de construção da classe Columbia de submarinos, capazes de lançar armas nucleares e substituir a atual classe Ohio.
Somando-se a isso, a tensão criada pela invasão da Ucrânia ajudou a levar ao fim do acordo New Start neste ano. Ele limitava a 1.550 o número de ogivas prontas para lançamento que Washington e Moscou poderiam manter.
Juntos, esses fatores caracterizam o cenário que o analista militar americano Andrew F. Krepinevich classifica como “A Nova Era Nuclear”.
Qual seria a relevância de uma bomba nuclear para o Brasil?
A tese de maioridade geopolítica do Brasil formulada pelo engenheiro e cientista José Walter Bautista Vidal (1934-2013), com base na construção da bomba, foi encampada no programa de governo do médico e candidato Enéas Carneiro. Mas ele nem chegou perto de vencer as eleições de 1998.
Mas a ideia continuou viva, especialmente no meio militar. O conceito é de que, para que uma nação tenha relevância estratégica no tabuleiro internacional, precisa ter o último nível de capacidade de destruição. Segundo a teoria de Vidal, há um cartel de nações que impedem países em desenvolvimento de obter essa capacidade.
A arma serviria como uma garantia de defesa. O exemplo dado por analistas atuais é o da Rússia. A existência de seu arsenal nuclear foi o que impediu nações do Ocidente de enviar forças militares para ajudar a Ucrânia em 2022.
Hoje, raciocínio similar é bandeira de Renan Santos. Em entrevista à CNN Brasil, em 11 de agosto, ele disse: “O Brasil precisa de arma nuclear para a dissuasão, caso contrário será um eterno adolescente na geopolítica”.
O plano de governo do candidato entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não fala diretamente da bomba, mas diz que a ausência do domínio completo do ciclo nuclear deixa o país “sem um ativo estratégico de dissuasão que outras potências regionais possuem”.
A primeira barreira para o Brasil tentar desenvolver o armamento é regulatória: a produção de uma bomba atômica exigiria uma emenda à Constituição. Alguns juristas dizem que essa mudança não seria viável.
Mesmo que o Brasil tivesse resolução política e condições técnicas para fazer uma bomba, seu efeito dissuasório seria limitado por alguns fatores.
O especialista em segurança pública Roberto Motta disse que um improvável arsenal nuclear brasileiro seria insignificante como poder de dissuasão frente a potências nucleares consolidadas.
A ideia genérica por trás disso é o falso conceito popular de que possuir uma só bomba nuclear basta para destruir o mundo.
O fato de uma nação ter um pequeno arsenal nuclear não impede que uma potência rival, com milhares de ogivas, lance um primeiro ataque preventivo que destrua toda a sua capacidade nuclear e impeça qualquer chance de retaliação.
EUA e Rússia possuem entre 3.500 e 4.000 ogivas cada (sendo ao menos 1.550 prontas para uso), atualmente. Isso faz com que seja impossível que um primeiro ataque preventivo de qualquer lado anule a capacidade de retaliação do outro – o que levaria ao cenário de destruição mútua assegurada (MAD, em inglês). Assim, para entrar nesse jogo, como a China, o Brasil teria que produzir não uma, mas centenas ou milhares de bombas nucleares.
“Bomba atômica é uma ideia politicamente infantil, usada pelos candidatos para sinalizar originalidade e independência de pensamento. O Brasil ter uma ou duas bombas não mudaria nada, apenas nos colocaria na lista de países párias”, avaliou Motta.
Por outro lado, segundo o militar da reserva e analista de riscos Nelson Ricardo Fernandes Silva, da consultoria ARP Risk, mesmo um país que tenha poucas bombas conta com um efeito dissuasório – caso seja colocado diante de uma situação de ameaça existencial. Isso é o que tem evitado ações militares internacionais na Coreia do Norte, embora também tenha praticamente isolado o país do sistema de relações internacionais.
Na opinião dele, outro fator impeditivo para o Brasil é não ter meios para lançar uma bomba nuclear estratégica em caso de conflito, mesmo que a possuísse. Esses meios são mísseis, aviões bombardeiros avançados e submarinos – que o Brasil não tem e não estão à venda no mercado internacional.
Segundo Fernandes Silva, ter esses meios de lançamento é o que dá a países como França e Reino Unido capacidade de dissuasão, mesmo possuindo “apenas” algumas centenas de artefatos nucleares.
Um terceiro ponto de vista é o de que possuir armas nucleares, mesmo com vetores de lançamento, já não protege um país contra guerras travadas com armamentos convencionais. Provas disso são que a Rússia enfrenta uma guerra convencional prolongada contra a Ucrânia e Israel foi bombardeado pelo Irã mesmo supostamente possuindo capacidade nuclear.
O custo político de retaliar ataques com o armamento nuclear foi considerado inaceitável por esses governos, segundo defendeu a professora Rose Gottemoeller, do Centro de Segurança e Cooperação Internacional na Universidade de Stanford, em artigo na última edição da revista americana Foreign Affairs.
Submarino nuclear e a promessa que já dura 47 anos
A necessidade de se construir no Brasil um submarino movido por um motor nuclear é justificada como uma forma de dissuasão contra ações militares marítimas. O navio não terá armas nucleares, mas poderá ficar submerso pelo tempo em que os estoques de comida da tripulação durarem – o que pode significar meses. Por causa disso, sua detecção por forças inimigas é muito difícil.
Portanto, um submarino nuclear armado com torpedos convencionais em operação em águas brasileiras não impediria um ataque marítimo contra o país, mas o tornaria muito mais custoso.
Uma força marítima invasora teria que despender uma quantidade muito maior de recursos para chegar à costa brasileira. Seria preciso usar táticas antisubmarinas, com emprego de número elevado de navios de escolta, aviação especializada e submarinos caçadores.
Ou seja, diferente do que falou Lula em discurso no Centro Industrial Nuclear Aramar, em Iperó, São Paulo, na semana passada, o submarino nuclear não vai ajudar o Brasil a achar petróleo no fundo do mar. Na ocasião, Lula prometia direcionar mais recursos para a construção do submarino.
O programa de produção de um submarino nuclear no Brasil foi instituído no governo militar em 1979, mas não recebeu investimentos suficientes. Além disso, o Brasil não conseguiu comprar nem desenvolver internamente a tecnologia do motor nuclear.
O programa voltou a receber investimentos em 2008, durante o governo Lula, quando o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), da Marinha do Brasil, foi criado em parceria com a França.
A estatal francesa Naval Group transferiu parte da tecnologia para a construção de quatro submarinos convencionais, movidos por motor a diesel, da classe Scorpène, no Rio de Janeiro. A manutenção do convênio custa em média entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões por ano.
Dois submarinos convencionais já estão em operação e dois em fase de testes. O contrato previa ainda a construção de um quinto submarino, nuclear, que se chamaria Álvaro Alberto. Os franceses se comprometeram a ajudar a construir o casco do navio, mas não o reator nuclear.
Em dezembro de 2025, o governo teve de adiantar para a Marinha cerca de R$ 1 bilhão do orçamento 2026 como forma de atualizar pagamentos aos franceses e evitar cancelamentos de contratos. A informação foi publicada pelo Poder360 em março.
O projeto está previsto para ser concluído entre 2034 e 2035, mas até agora não veio a público nenhuma evidência de que a Marinha esteja tendo resultados positivos na criação do motor nuclear. O governo de Jair Bolsonaro chegou a tentar negociar secretamente com a Rússia a transferência de tecnologia, mas também não há informações de que as tratativas tenham avançado.
A opção mais plausível seria assinar um novo contrato com a França para a construção ou compra do reator, mas isso dependeria não só de dinheiro, mas de negociações políticas.
Roberto Motta defende que o investimento seja destinado para outros fins. “O dinheiro empregado em um submarino nuclear poderia ser melhor investido no reaparelhamento geral das forças armadas, que precisam de investimentos permanentes”, defendeu.
Enriquecimento de urânio e Angra 3: a obra sem fim
O interesse do país na tecnologia atômica começou no período pós-Segunda Guerra Mundial, mas só em 1987 o Brasil anunciou o domínio da tecnologia de enriquecimento de urânio.
O minério é extraído no Brasil e enviado para a França, onde é convertido em gás. De volta, o gás é submetido à ultracentrifugação e transformado em pastilhas de dióxido de urânio nas Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em Resende (RJ). Em seguida, o material é levado para alimentar a produção de energia nas usinas nucleares de Angra dos Reis.
A Angra 1 entrou em operação comercial em 1985, com capacidade de geração de 640 Megawatts/hora. Em 2001, e após décadas de atraso, a Angra 2 entrou em operação comercial gerando 1.350 MW/h de energia.
Já a usina de Angra 3 pode se tornar um dos projetos de infraestrutura mais arrastados da história do Brasil. Em 2015, a obra foi paralisada após denúncias de corrupção reveladas pela Operação Lava Jato em contratos das construtoras.
A estimativa é de que cerca de R$ 12 bilhões já foram investidos na obra e, de acordo com levantamento feito pelo BNDES, a conclusão da usina custaria outros R$ 23 bilhões. A desistência do governo no empreendimento teria prejuízo de R$ 21 bilhões.
“Muitas vezes, desistir seria a decisão mais racional. Investimentos que já foram feitos e não podem ser recuperados não devem influenciar a decisão de continuar com o projeto”, avaliou Roberto Motta.
O plano de governo de Renan Santos entregue ao TSE prevê a “retomada decisiva das obras de Angra 3”, caso ele seja eleito. O plano de governo do presidente Lula não menciona diretamente a usina de Angra 3.
A energia nuclear representa menos de 5% da matriz energética brasileira. Ou seja, o projeto Angra é importante para gerar eletricidade, independente de fatores climáticos.
Mas o domínio da energia nuclear é frequentemente subentendido como capacidade técnica para se fazer armamento nuclear. Só que possuir usinas civis não significa que o país tenha automaticamente capacidade de enriquecer urânio a mais de 90% ou reprocessar plutônio (usado em armas modernas) para construir uma bomba nuclear.
O Irã optou por esse tipo de abordagem e conseguiu acumular 440 quilos de urânio enriquecido, suficiente para 11 ogivas. Mas a maior parte do material teria sido inutilizado pelos EUA na guerra dos 11 dias em 2025, antes que a arma nuclear fosse de fato produzida.
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