Por que a emissão de dívida do Brasil em yuan interessa à China
Últimas atualizações em 01/07/2026 – 03:02 Por Gazeta do Povo | Feed
O projeto do governo Lula para emitir títulos da dívida pública brasileira no mercado chinês interessa não apenas ao Brasil, mas também à China. Enquanto Brasília busca diversificar suas fontes de financiamento com os chamados panda bonds, Pequim vê a operação como mais um passo para ampliar o uso internacional do yuan e sua influência econômica em meio à disputa com os Estados Unidos.
Na semana passada, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, entregou ao presidente do Banco Popular da China, Pan Gongsheng, uma carta de intenções com o projeto inédito. O governo brasileiro diz que planeja captar até cinco bilhões de yuans com sua primeira emissão de títulos na moeda chinesa. Segundo o ministro, a decisão foi tomada após pedidos de empresas brasileiras para ajudá-las a captar recursos por meio de operações privadas com panda bonds e para atenuar a volatilidade cambial no Brasil.
A iniciativa está alinhada à estratégia da China de ampliar o uso internacional do yuan, fortalecer seu mercado financeiro e aprofundar a relação econômica com países considerados estratégicos, como o Brasil.
De acordo com analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, ao atrair governos estrangeiros para emitir títulos em sua moeda, Pequim também busca reduzir gradualmente a predominância do dólar no sistema financeiro internacional.
Na avaliação de Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, ex-diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal, a introdução de panda bonds no Brasil serve como uma “ferramenta agressiva de financial statecraft” para a China, ou seja, o uso intencional de instrumentos econômicos para projetar poder e alcançar objetivos de política externa.
“[Tal ferramenta foi] desenhada para expandir a hegemonia da China e subordinar a maior economia latino-americana ao seu ecossistema financeiro, controlado diretamente pelo Estado”, opina Coimbra.
Ele afirma que, ao incentivar o endividamento soberano em yuans, Pequim avança de forma assimétrica em seu projeto geopolítico de desdolarização e de enfraquecimento das instituições financeiras ocidentais, “exportando os riscos de sua própria economia doméstica desacelerada para o mercado brasileiro”. Na avaliação do especialista, isso também pode tornar o Brasil mais vulnerável às decisões econômicas da ditadura chinesa.
Acordo reforça aliança com a China e discurso político de Lula de incentivo à desdolarização
O economista Igor Lucena, doutor em Relações Internacionais, destaca que o compromisso firmado entre os países tem como finalidade, basicamente, benefícios geopolíticos, visto que a emissão de títulos em yuan deve gerar menos liquidez no mercado.
“Essa ideia passa o sinal de que o Brasil não estaria totalmente alinhado a fazer única e exclusivamente emissões em dólares, o que é complicado, porque normalmente países tendem a fazer emissões em euro ou outra moeda. Fazer em moeda chinesa que não é extremamente conversível e que tem fluxo de capital preso parece ser uma maneira de se alinhar à ideia do governo Lula de anti-dolarização”, explica.
O avanço do projeto dos panda bonds foi anunciado em um momento de forte crescimento da dívida pública brasileira, o que, segundo Lucena, reforça a necessidade de avaliar o custo e os benefícios de novas emissões.
Segundo dados oficiais divulgados no último dia 26 pelo Tesouro Nacional, a Dívida Pública Federal (DPF) subiu em maio, superando a barreira dos R$ 9 trilhões. A DPF passou de R$ 8,798 trilhões em abril para R$ 9,033 trilhões no mês passado, alta de 2,66%.
Lucena avalia que a principal beneficiada pela operação é a China, que amplia o uso internacional do yuan e reforça sua estratégia de reduzir a dependência do dólar. Para o economista, o Brasil perde com a emissão dos panda bonds, já que a moeda chinesa não oferece o mesmo nível de liquidez e conversibilidade das principais moedas internacionais.
Medida abre caminho para novos atritos na relação Lula-Trump
A emissão dos panda bonds pode ampliar a já estremecida relação entre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Donald Trump, nos EUA.
Segundo Coimbra, essa emissão é vista em Washington não como uma mera diversificação técnica de portfólio, mas como um sinal de alinhamento político e financeiro com o maior adversário estratégico do Ocidente.
“Embora uma retaliação diplomática imediata ou sanções explícitas sejam improváveis, a adesão aos títulos chineses mina profundamente a credibilidade do Brasil como um parceiro confiável para iniciativas de segurança e alta tecnologia com os americanos”, afirma.
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