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O que sugerem os recentes movimentos entre EUA e Cuba

Últimas atualizações em 10/04/2026 – 21:13 Por AFP


Movimentos recentes dos Estados Unidos em relação a Cuba ocorrem em meio a conversas entre os dois países cercadas de sigilo. Enquanto sanções americanas aprofundam a crise na ilha, decisões pontuais da Casa Branca levantam dúvidas sobre os termos e os objetivos dessas negociações.

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Cuba se tornou uma das prioridades da política externa dos EUA no segundo ano da nova administração de Donald Trump. A medida de maior impacto tomada contra a ilha segue sendo o bloqueio petrolífero imposto meses atrás, que colocou Havana em um dos piores momentos de sua história.

Recentemente, a Casa Branca permitiu um alívio a essa barreira com a entrada de duas embarcações russas carregadas com petróleo em solo cubano, o que gerou especulações sobre o andamento das conversas entre a gestão Trump e o regime liderado por Miguel Diáz-Canel.

O governo americano afirmou que não houve mudança na política de sanções, mas que decidirá “caso a caso” se permitirá a entrada de navios petroleiros na ilha. Até o momento, não ficou claro o motivo de os EUA terem liberado a passagem de combustível para a ilha.

Analistas avaliam o alívio pontual como uma estratégia de Trump para conter a crise humanitária na ilha enquanto conduz a ofensiva contra o Irã. Trump sugeriu que se tratava de um “gesto humanitário”. Ao mesmo tempo, países como México e Venezuela seguem proibidos de enviar recursos energéticos à ilha.

Notícias sobre um canal de diálogo entre EUA e Cuba passaram a circular ainda em fevereiro, quando o portal de notícias americano Axios informou que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, tem mantido conversas secretas com Raul Guillermo Rodríguez Castro, um dos netos do ex-ditador de Cuba Raúl Castro.

Em meados de março, Díaz-Canel confirmou que funcionários do regime cubano dialogam com a Casa Branca. “Há fatores internacionais que facilitaram essas conversas”, disse Díaz‑Canel à televisão estatal cubana. Segundo ele, o objetivo da conversa é “identificar quais são os problemas bilaterais que precisam de solução”. Na semana passada, porém, ele reconheceu que as conversas têm sido “difíceis”.

Em entrevista à Newsweek no começo desta semana, o ditador cubano afirmou que o atual governo dos Estados Unidos propõe “supostas negociações com outras nações, apenas para posteriormente atacá-las”. “Tudo isso, sem dúvida, cria um estado de desconfiança entre o nosso povo”, concluiu.

A Casa Branca confirmou as conversas com Cuba e disse que os líderes do regime “querem fazer um acordo e deveriam fazer um acordo”.

O cientista político Marcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da Apex-Brasil, explicou à Gazeta do Povo que o fato de termos detalhes escassos sobre as conversas entre Raul Guillermo Rodríguez Castro, neto do ex-ditador Raúl Castro, e Marco Rubio não é coincidência, mas uma necessidade de sobrevivência para ambos os lados.

“O sigilo que envolve o chamado ‘canal Rubio-Castro’ não é mero capricho diplomático, mas uma ferramenta de proteção mútua. Diferente do degelo otimista de 2014 [na administração Obama], o que vemos agora são conversas estritamente transacionais. Enquanto Havana agoniza sob o colapso energético e sanitário, Washington busca erradicar a influência russa e chinesa da ilha e conter a crise migratória”, disse.

De acordo com o internacionalista, o “ponto cego” dessas negociações sugere que temas sensíveis, como anistias para a cúpula do Partido Comunista de Cuba em troca de uma abertura econômica monitorada, estão sendo discutidos longe dos holofotes para evitar sabotagens internas em ambos os lados.

Sandro Castro, outro neto de Fidel Castro, tem se manifestado nas redes sociais a favor de um acordo com os EUA para que a população da ilha se torne capitalista. Em entrevista recente à CNN ele disse que também sofre com as dificuldades econômicas e os apagões frequentes no país.

Um sinal de que a pressão pública de Washington sobre a ditadura castrista pode estar rendendo frutos é o recente anúncio de um acordo com o Vaticano para a libertação de 51 presos políticos. Mas até sábado (4), segundo a ONG Prisioners Defenders, apenas 27 haviam sido liberados.

Já o indulto a 2.010 prisioneiros, anunciado na Semana Santa, não beneficiou nenhum preso político até agora. Segundo a organização, todos os libertados eram presos comuns.

Crise energética vira trunfo dos EUA sobre Cuba

A Casa Branca deixou claro nos últimos meses que busca uma mudança de regime na ilha. Como antecipado pelos americanos, a asfixia econômica gerou um colapso na economia cubana, sendo o turismo a principal prova disso: diversas companhias aéreas suspenderam indeterminadamente suas operações na ilha e até mesmo os aliados do país deixaram de contribuir com um dos últimos setores que ainda gera renda aos cofres estatais.

Além da queda drástica no turismo, os apagões se intensificaram sendo praticamente diários e a ida ao posto se tornou uma realidade ainda mais distante da população, visto que não há sequer combustível para manter a máquina pública de pé.

Para Coimbra, o objetivo americano não é apenas punir o regime com novas sanções, mas utilizar a fragilidade extrema da ilha como alavanca para uma integração econômica direta, tratando Cuba quase como um projeto de reconstrução regional.

“A aposta de Washington é clara: levar o governo de Díaz-Canel a um beco sem saída onde a única alternativa à queda violenta seja aceitar os termos americanos para a manutenção de uma estabilidade mínima”, avalia.

A possibilidade de derrubar mais um regime na América Latina, principalmente um que os EUA tentam há décadas pôr fim, se tornou uma aposta alta na política externa americana.

Rubio resumiu as expectativas dos EUA em relação a Cuba: “a economia de Cuba precisa mudar, e sua economia não pode mudar a menos que seu sistema de governo mude. É simples assim”.

Cubanos voltam às ruas em protestos

Em meio a essas negociações nos bastidores, a opinião dos cubanos sobre a ditadura continua irredutível, como mostram dados recentes sobre protestos na ilha. A ONG Observatório Cubano de Conflitos registrou 1.245 protestos, denúncias e ações cívicas ao longo do mês de março.

O número representa um aumento em relação aos 1.185 registros de fevereiro e quase 80% a mais do que no mesmo período de 2025.

A internacionalista e escritora argentina Micaela Hierro Dori, que atua há décadas em prol da democracia em Cuba, disse aguardar resultados práticos da ajuda dos EUA para libertar o povo cubano do regime castrista, mas mantém uma visão cética.

“Essa ditadura demonstrou crueldade e indiferença ao sofrimento de seus cidadãos ao longo dos anos”, disse a especialista. “Eles reagem lentamente, primeiro adiando o reconhecimento de que estão em negociações com os EUA. Em seguida, usam a mesma estratégia de quase sete décadas para se manter no poder: prometem reformas econômicas superficiais, libertam criminosos comuns em vez de prisioneiros políticos e convocam aliados ao redor do mundo para aderirem à sua proclamação anti-imperialista”.

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