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Os obstáculos para uma paz de longo prazo entre EUA e Irã

Últimas atualizações em 09/04/2026 – 02:29 Por AFP

Na noite de terça-feira (7), pouco antes de vencer o prazo estipulado pelo presidente americano, Donald Trump, para que o Irã reabrisse o estratégico Estreito de Ormuz (caso contrário, usinas de energia e pontes do país persa seriam bombardeadas), Washington e Teerã anunciaram um cessar-fogo de duas semanas na guerra iniciada em 28 de fevereiro. Nesse período, os termos de um encerramento definitivo do conflito serão discutidos.

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Em post na rede Truth Social, Trump afirmou que concordou com a trégua porque os EUA já teriam atingido “todos os objetivos militares” na guerra e porque há negociações avançadas “para um acordo definitivo sobre a paz a longo prazo com o Irã e a paz no Oriente Médio”.

Apesar do discurso do republicano, há muita desconfiança sobre uma paz duradoura de EUA-Israel com o Irã ser atingida em um futuro próximo.

Desde a Revolução Islâmica de 1979, que instaurou um regime teocrático no país persa, os iranianos sempre enfrentaram os americanos e israelenses por meio de grupos terroristas parceiros, mas em menos de um ano os dois aliados entraram em guerra direta com o Irã duas vezes, alegando que este estava próximo de obter armas nucleares – houve um conflito de 12 dias em junho de 2025.

As conversas atuais com o regime iraniano, que deverão passar ao formato presencial no Paquistão na sexta-feira (10), têm o obstáculo inicial da grande divergência entre as demandas de americanos e iranianos.

Segundo informações da emissora CNN, Washington apresentou uma proposta de 15 pontos, que inclui, entre outras exigências, o compromisso do Irã de não possuir armas nucleares; a entrega de seus estoques de urânio enriquecido; a limitação das capacidades de defesa iranianas; o fim dos grupos terroristas apoiados pelo regime islâmico, como o Hamas e o Hezbollah; e a reabertura do Estreito de Ormuz.

O Irã concordou com esta última exigência, ainda que tenha afirmado que tal reabertura ocorreria sob supervisão das suas forças armadas e que cobraria pedágio na passagem marítima durante o cessar-fogo. Nesta quarta-feira (8), ocorreram idas e vindas sobre retomada do movimento no estreito e novo fechamento.

Para uma paz duradoura, Teerã exige dez pontos, que incluem uma regulamentação da passagem por Ormuz; o fim dos ataques contra o Irã e seus aliados; a retirada das forças americanas do Oriente Médio; indenização ao Irã; o levantamento das sanções internacionais e o desbloqueio de ativos; uma resolução vinculativa da ONU para um acordo de paz definitivo; e permissão para continuar enriquecendo urânio.

Especialistas apontam “pontos de vista irreconciliáveis” de EUA e Irã

Em entrevista à emissora canadense CBC News, Nader Hashemi, professor associado de política do Oriente Médio e islâmica na Universidade de Georgetown (de Washington, D.C.), sugeriu que as divergências são muito amplas para serem resolvidas em duas semanas.

“Obviamente, é bom que haja um cessar-fogo, mas não nos iludamos. Duas semanas podem passar muito rápido”, disse Hashemi. O especialista acrescentou que há pouca margem de manobra para que EUA e Irã cedam, já que isso poderia ser interpretado internamente como uma derrota.

“Qualquer suspensão das sanções [ao Irã] será considerada uma capitulação às exigências iranianas”, afirmou Hashemi.

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Em entrevista à emissora americana CNBC, Pratibha Thaker, diretora regional para África e Oriente Médio da Economist Intelligence Unit (divisão de pesquisa e análise do Economist Group), disse que outro obstáculo para uma paz de longo prazo é a “profunda falta de confiança de ambos os lados”.

“Da perspectiva de Washington, [há] preocupações antigas com o programa nuclear do Irã. Do lado de Teerã, profundo ceticismo sobre as intenções dos EUA, especialmente considerando as retiradas anteriores de acordos e a contínua presença e pressão militar”, disse Thaker.

Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), disse à Gazeta do Povo que “uma coisa é negociar, outra é implementar um acordo”, em referência às violações do cessar-fogo registradas ao longo desta quarta-feira, e que a impressão de que os americanos estão mais interessados em negociar do que o Irã gera constrangimento para Washington diante dos seus aliados no Oriente Médio.

Um exemplo é que a autoridade americana que foi encarregada dos estágios finais da negociação na terça-feira foi o vice-presidente J.D. Vance, e não os tradicionais negociadores do Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, com quem o Irã não aceitava conversar.

“Israel queria uma mudança de regime ou um Irã sem capacidade de atingir Israel. Nada disso aconteceu. E a novidade é que esse conflito colocou na mira os países do Golfo Pérsico [os aliados americanos foram alvos de ataques do Irã no conflito], que perderam uma coisa que era muito preciosa para eles: a percepção de que eram países seguros e que a região era estável, o que atraía investimentos”, alertou Teixeira Moita.

“Para esses países, lidar com um Irã assertivo, que cobra taxas dos navios, é realmente surreal”, afirmou.

Considerando a radicalidade do regime iraniano e os “pontos de vista irreconciliáveis”, o especialista acrescentou que a maior chance de um acordo seria os Estados Unidos abrirem mão das demandas de restrição aos programas de mísseis e nuclear do Irã, mas isso representaria “uma completa derrota para o prestígio americano na região”.

“Isso inclusive mudaria o posicionamento dos países da região quanto aos Estados Unidos. Esses países iriam procurar novos parceiros de segurança”, alertou.

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