Membros dos Brics entram em guerra e importância de bloco cai

Últimas atualizações em 11/03/2026 – 03:58 Por Gazeta do Povo | Feed

A coesão e a capacidade de articulação do bloco diplomático dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos) estão em crise desde que membros do grupo entraram em guerra uns contra os outros no contexto do ataque americano ao Irã. Teerã vem bombardeando os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, que avaliam retaliação, mas o bloco não se posicionou sobre os ataques.

A crise lança questionamentos no Brasil sobre a estratégia diplomática do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que vem apostando no fortalecimento do bloco dos Brics como forma de ampliar a relevância internacional do Brasil e projetar liderança no chamado “Sul Global”.  

Lula recebeu em Brasília, na segunda-feira (9), a visita de outro líder do Brics, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa. Durante o encontro, ambos fizeram declarações individuais sobre a situação no Oriente Médio, demonstrando preocupação e pedindo por paz. Mas nenhum dos presidentes apontou o grupo como um fórum de discussão para a paz no Irã.

Desde 2023, por influência da China e da Rússia, o bloco vinha adotando posições antiamericanas. Em junho do ano passado, o Brics se posicionou institucionalmente contra os ataques de Israel e dos Estados Unidos a estruturas nucleares do Irã, na Guerra dos 12 Dias. Mas, durante a atual campanha militar no Irã, o bloco tem optado pelo silêncio.

Enquanto isso, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita tiveram refinarias de petróleo, aeroportos e portos bombardeados e agora avaliam a possibilidade de não só se defender de ataques, mas retaliar militarmente em território iraniano.

Para analistas, a falta de ação do bloco em relação ao conflito no Oriente Médio evidencia uma fragilidade estrutural: o Brics carece de instrumentos institucionais e estratégicos para agir como ator geopolítico. O entendimento é de que o grupo reúne países com interesses estratégicos divergentes, baixo grau de institucionalização e pouca capacidade de coordenação política.

Para o estrategista internacional Cezar Roedel, doutor em Filosofia pela PUCRS/UniBonn, a ausência de uma posição conjunta não é surpresa. Segundo ele, desde sua criação, o grupo nunca funcionou como uma aliança política propriamente dita. “O Brics nunca foi um bloco coeso. Foi apenas a união de alguns países que tinham certas características semelhantes, mas que hoje são muito diferentes entre si”, afirmou.

O Irã e os Emirados Árabes Unidos passaram a integrar o bloco após a expansão anunciada em 2023 e formalizaram a entrada em 2024, junto com Egito e Etiópia. A Arábia Saudita foi convidada a fazer parte do grupo na mesma oportunidade, mas ainda não é membro pleno do Brics, embora participe de algumas reuniões. O movimento de expansão buscava ampliar a influência política do grupo e reforçar a ideia de um polo alternativo à ordem internacional liderada pelo Ocidente.

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Analistas veem falta de coesão e pesos desiguais entre membros do Brics 

Na avaliação do estrategista internacional Cezar Roedel, as divergências internas se intensificaram após a ampliação do grupo, que passou a incluir países com interesses estratégicos e rivalidades regionais significativas. “Se houver uma posição conjunta, será algo muito fraco, basicamente simbólico”, aponta Roedel. 

Outro fator que limita a atuação política do bloco, segundo o cientista político e professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI) Elton Gomes, é a grande assimetria de poder entre seus integrantes, com países em níveis muito diferentes de influência global. “O Brics tem relevância sobretudo por causa da China, pelo seu peso econômico e tecnológico, e da Rússia, pelo seu poder militar. Os demais países exercem um papel intermediário ou menor na distribuição de poder global”, afirmou Gomes. 

Na avaliação dele, países como Brasil, Índia e África do Sul têm influência limitada dentro do arranjo geopolítico global e não possuem capacidade de contrabalançar as grandes potências. “Nenhum desses atores menores do Brics tem peso suficiente para influenciar as decisões dos grandes protagonistas, dentro ou fora do bloco. Muito menos para contrabalançar os Estados Unidos e os países da Otan [aliança militar ocidental]”, disse o cientista político Elton Gomes.

Roedel afirma ainda que, no momento, os países mais fortes do bloco estão mais preocupados com interesses estratégicos próprios — especialmente a segurança das rotas energéticas no Golfo Pérsico. “A grande preocupação de russos, indianos e chineses é o petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz. Não existe grande incentivo para mobilizar uma reação política forte dentro do Brics.”

Lula aposta em bloco enfraquecido

A aposta do governo Lula no fortalecimento do Brics como eixo de projeção internacional do Brasil, segundo analistas, pode enfrentar dificuldades diante dessas limitações estruturais. Roedel avalia que o país corre o risco de investir capital diplomático em um projeto com baixa capacidade real de influência geopolítica. “O Brasil insiste nesse discurso, mas, na prática, cada membro do Brics segue o próprio caminho”, afirmou.

Roedel afirma que o grupo atravessa um momento de desorganização estratégica. Segundo ele, há divergências profundas sobre temas centrais, como a proposta de criação de uma moeda alternativa ao dólar. 

“O Brics entrou em um processo quase falimentar [processo de esvaziamento]. O primeiro-ministro indiano, que hoje preside o bloco de forma rotativa, não quer sequer discutir seriamente a substituição do dólar. Enquanto isso, a Rússia pressiona por sistemas alternativos de pagamento e a China reduziu o tom desse discurso”, disse. 

Em artigo recentemente intitulado sob o título “O fim do Brics, Roedel argumenta ainda que o grupo se transformou em um espaço dominado por retórica política. Segundo ele, “o Brics virou um bloco que fala muito e entrega pouco”. 

Rivalidades internas também expõem fragilidade do bloco e evidenciam papel simbólico 

A composição política do grupo também dificulta a construção de posições comuns. Uma parte significativa dos integrantes é formada por regimes autoritários, o que, segundo o cientista político Elton Gomes, tende a reduzir o grau de confiança entre os governos. “Regimes autocráticos tendem a desconfiar profundamente uns dos outros. Ditadores raramente confiam em ditadores”, afirmou. 

As divergências estratégicas entre os próprios membros ficam mais evidentes na presença simultânea de Irã e Arábia Saudita no grupo ampliado. 

Os dois países disputam influência regional no Oriente Médio e pertencem a campos políticos e religiosos rivais dentro do mundo islâmico. Enquanto a Arábia Saudita mantém relações estratégicas com o Ocidente, o Irã se aproxima do eixo formado por Rússia e China. 

“São países com agendas geopolíticas muito diferentes, com baixa complementariedade econômica e inseridos em campos securitários opostos. Isso reduz muito os incentivos para cooperação real”, avaliou. 

Diante dessas limitações, o cientista político avalia que o Brics funciona muito mais como um espaço de sinalização política do que como uma aliança estratégica capaz de atuar de forma coordenada. “Na prática, o Brics serve muito mais para produzir capital político e projeção internacional. Um diplomata brasileiro certa vez resumiu isso de forma irônica: o Brics é muito bom para ‘photo opportunities’ (do inglês, oportunidade para fotos)”, afirmou. 

Segundo ele, o grupo acaba servindo como uma plataforma para ampliar a influência internacional de países como a China, que busca reforçar sua posição na disputa geopolítica com os Estados Unidos. 

“Para quem almeja disputar hegemonia global, é importante parecer cercado de aliados. Mas, no caso do Brics, trata-se de uma aliança bastante frágil”, concluiu. 

Lula e Ramaphosa não mencionam o Brics como instrumento de mediação

No encontro desta semana, mesmo diante da guerra no Irã, o Brics não foi citado pelos líderes brasileiro e sul-africano como possível fórum de articulação diplomática para lidar com o conflito, o que reforça as dúvidas sobre a capacidade política do grupo. Em declarações individuais, Lula e Ramaphosa expressaram preocupação e pediram por paz sem citar o grupo do qual seus países são fundadores.

Ramaphosa afirmou que sua visita ao Brasil ocorre em um momento de agravamento das tensões internacionais e fez um apelo por uma solução pacífica. “Chamamos todas as partes envolvidas neste conflito para um cessar-fogo imediato, para que os conflitos sejam resolvidos por meio da negociação”, disse.

Na mesma linha, Lula afirmou que apenas a diplomacia pode produzir uma solução duradoura para a crise. “O diálogo e a diplomacia constituem o único caminho viável para a construção de uma solução duradoura”, declarou o presidente brasileiro.

A menção ao conflito no Oriente Médio também apareceu no comunicado conjunto divulgado após o encontro bilateral. No documento, Brasil e África do Sul expressaram preocupação com os ataques contra o Irã e com as hostilidades subsequentes na região.

“[Os presidentes] condenaram e expressaram grave preocupação com os ataques de 28 de fevereiro contra o Irã e com as hostilidades e ações retaliatórias no Oriente Médio, que representam uma séria ameaça à paz e à segurança internacionais, com potenciais impactos humanitários e econômicos de amplo alcance”, diz o texto.

O documento também registra um apelo pela interrupção das hostilidades. “Os Presidentes manifestaram solidariedade aos países objeto de ataques retaliatórios. Apelaram pela cessação das ações militares, instaram todas as partes a respeitar o direito internacional e a exercer máxima contenção, e reafirmaram que o diálogo e a negociação diplomática constituem o único caminho viável para superar as divergências.”

O Brics aparece no comunicado apenas no contexto econômico e financeiro. Em um dos trechos, os dois presidentes reafirmam o interesse em ampliar o comércio entre os países do grupo e em reduzir a dependência do dólar nas transações.

Durante a visita, Ramaphosa também mencionou o impacto negativo de tarifas comerciais impostas pelo presidente Donald Trump sem nomeá-lo e defendeu maior integração econômica entre países emergentes.

A fala reforça uma interpretação frequente entre analistas de que o Brics tem sido utilizado principalmente como plataforma de contestação econômica e política à influência dos Estados Unidos — especialmente no sistema financeiro internacional —, e não como um mecanismo estruturado de mediação diplomática ou resolução de conflitos internacionais.

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