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Rússia foca sua política para a AL no Brasil após sair da Venezuela

Últimas atualizações em 06/02/2026 – 12:56 Por Gazeta do Povo | Feed


Os debates e as resoluções de uma reunião de alto escalão entre os governos brasileiro e russo ocorrida na quinta-feira (5) apontam uma tendência: após perder espaço na Venezuela, Moscou está focando seus esforços de política externa no Brasil para exercer influência na América Latina. 

A captura do ditador Nicolás Maduro em 3 de janeiro por forças americanas  praticamente pôs um fim à influência russa na Venezuela. Cuba, outro bastião de Moscou na América Latina, está passando por um embargo de petróleo de fato, criado por ação de Washington, e luta por manter o país funcional.

Frente a esse cenário, o governo russo encontrou no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), aliado do ditador Vladimir Putin, uma plataforma para sustentar suas ambições de aumentar a influência na América Latina, segundo analistas ouvidos pela reportagem.  

O primeiro-ministro da Rússia, Mikhail Mishustin, forneceu as primeiras evidências disso em seu discurso na 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN). “O Brasil para nós é o principal parceiro econômico na América Latina, que conta com cerca de metade de todo o volume comercial com a região. Mantém posições de liderança no mercado entre os fornecedores de produtos alimentares, em primeiro lugar carne e café”, destacou o russo, após falar sobre o desenvolvimento gradativo de parcerias e a interação ativa na área comercial entre os países.  

Para o mestre em relações internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Cezar Roedel, o contexto precisa ser lido dentro de um cenário amplo de reorganização do sistema internacional, marcado pela divisão do mundo em zonas de influência. Roedel analisou a declaração conjunta produzida na reunião e afirma que o documento sinaliza uma aproximação entre Brasil e Rússia maior do que a esperada e reforça uma tendência já observada desde o início do atual governo Lula.

“O Brasil já se comporta, em certa medida, como uma zona de influência russa desde o início do mandato. A primeira visita internacional do governo foi à Rússia, e o chanceler Sergei Lavrov chegou a ser recebido com aplausos de pé por futuros diplomatas brasileiros, enquanto a Rússia promovia uma agressão militar aberta contra a Ucrânia”, afirma.

Elton Gomes, professor de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI), aponta que, tendo em vista a crise na Venezuela, o aprofundamento do diálogo entre Brasil e Rússia pode gerar um alinhamento geopolítico gradual. Para ele, o alinhamento não é necessariamente restrito à Rússia, mas com o bloco sino-russo. “É algo que precisa ser acompanhado ao longo do tempo”, conclui.

A reunião desta semana foi grandiosa e alterou a rotina diplomática de Brasília. A delegação russa estava composta pelo primeiro-ministro da Rússia Mikhail Mishustin (chefe da delegação), o vice-presidente Aleksei Logvinovich Overchuk e oito ministros, além de três vice-ministros e dirigentes de agências governamentais.

Auxiliares do governo, empresários russos e ao menos 50 profissionais de mídia (entre repórteres, cinegrafistas e fotógrafos) engrossaram o peso dado pela Rússia à visita. Todo esse time foi transportado para Brasília em aviões especiais que normalmente transportam Vladimir Putin e sua equipe.

A Rússia também aproveitou a ocasião para oferecer o estabelecimento de dois voos diretos para ligar os países e fez promessas colossais de apoio ao Brasil em todos os campos, de exploração espacial e pesquisa nuclear a desenvolvimento de capacidades cibernéticas e apoio em demandas diplomáticas brasileiras, como uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Veja abaixo sobre quais áreas os países estão conversando:

VEJA TAMBÉM:

  • Rússia acena ao Brasil com apoio à vaga no Conselho de Segurança da ONU
  • Rússia pressiona Brasil para não perder mercado de fertilizantes para a China

Energia nuclear e ‘Megaciência’

A declaração conjunta que resultou da reunião oficializa a alegada disposição da Rússia de compatilhar tecnologia nuclear. Entre os interesses do governo brasileiro estão mini reatores nucleares que poderiam ser usados para geração de energia elétrica na Amazônia e ajuda para construir o motor do submarino nuclear Álvaro Alberto, que está sendo produzido pela Marinha, mas sem uma solução até o momento para construir a câmara e o motor nuclear.

O documento produzido nesta semana aborda a energia nuclear sob as perspectivas de cooperação científica, desenvolvimento industrial e segurança internacional. Oficialmente os governos do Brasil e da Rússia manifestaram satisfação com o nível de cooperação atual no uso da energia nuclear para fins pacíficos. Existe um interesse mútuo em promover projetos conjuntos voltados para a geração de energia nuclear e para o ciclo de combustível nuclear.

Os estudos nucleares foram listados como um dos setores promissores para a intensificação da cooperação e realização de projetos conjuntos em ciência, tecnologia e inovação.

Além disso, mencionou-se o interesse no desenvolvimento de instalações científicas da classe “MegaScience” (Megaciência), que são infraestruturas de pesquisa de grande escala, essenciais para avanços em áreas como nano e biotecnologias, astrofísica, estudos nucleares, tecnologias quânticas, IA e mudança do clima.

O mestre em relações internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Cezar Roedel, aponta, no entanto, que esse tipo de cooperação integra um conjunto mais amplo de iniciativas que envolve riscos elevados pois são setores considerados estratégicos e sensíveis.

“O problema central aqui é o risco de dual use, ou seja, de transferência indireta de conhecimento que pode ter aplicações civis e militares”, explica o analista. Para ele, aprofundar cooperação tecnológica com um país submetido a sanções internacionais e envolvido em guerra cria vulnerabilidades em termos de segurança nacional, proteção de dados e propriedade intelectual.

Adriano Gianturco, doutor em Ciência Política e coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC, vai além e observa que dificilmente a Rússia cumpriria promessas eventuais de repasse de tecnologia.

“Nem o Brasil, nem Estados Unidos, nem União Europeia fazem isso. Quando há venda, há pagamento e controle. Não existe doação de tecnologia estratégica”, afirma, destacando novamente o caráter formal do texto.

Ajuda ao Brasil na área de exploração espacial foi colocada na mesa

As ciências e tecnologias espaciais foram elencadas pelo Brasil e pela Rússia como um dos setores promissores para a intensificação da cooperação bilateral e para a realização de projetos conjuntos em ciência, tecnologia e inovação.

A ex-União Soviética foi pioneira na construção de foguetes e na exploração espacial, por vezes desenvolvendo tecnologia e somando conquistas antes dos Estados Unidos. A maior parte dessa tecnologia ficou com a Rússia com a dissolução do bloco soviético nos anos de 1990 e o país por liderou o setor por alguns períodos até a entrada no mercado de empresas privadas americanas massivas, como a Space X.

O Brasil possui uma base espacial em Alcântara (MA) que tem potencial para diminuir o custo de lançamentos de foguetes. Mas a Rússia já possui esse tipo de instalação. Por isso, analistas estimam que a oferta russa seria uma tentativa de atrair o Brasil para sua esfera política.

Promessas de segurança cibernética já foram usadas por Moscou para fazer espionagem

A declaração conjunta fala em “interesse recíproco no desenvolvimento da cooperação na indústria farmacêutica e médico-hospitalar, assim como em construção naval, tecnologias industriais digitais e segurança cibernética”.

A referência à segurança cibernética preocupa especificamente os analistas. Isso porque a Rússia usa ofertas de apoio em segurança cibernética como uma forma de promover interesses políticos de seu governo pelo mundo e também a espionagem.

O “modus operandi” é usar empresas privadas russas de tecnologia para se infiltrar em governos e órgãos estratégicos de outros países por meio do oferecimento de serviços de segurança cibernética. Uma delas foi a especialista em softwares antivírus Kaspersky Lab, que teria participação no roubo de segredos de NSA (agência de inteligência dos EUA) em 2017 e posteriormente sancionada pelos Estados Unidos por cooperar com autoridades militares e de inteligência da Rússia.

Em abril de 2024, autoridades brasileiras foram enviadas pelo governo Lula à Rússia para participar de um encontro sobre soberania da informação e segurança que foi coordenado por Nikolai Patrushev, chefe do Conselho de Segurança da Rússia. Também participaram países como Sudão, Tailândia, Uganda, China, Irã e países árabes.

O discurso era proteger as infraestruturas digitais desses países e os serviços de empresas privadas russas foi oferecido a seus órgãos de segurança. Os Estados Unidos e a Europa já haviam banido parte dessas empresas por temer que seus softwares poderiam ser usados para espionagem.

Na avaliação de Roedel, a menção à exploração espacial e à segurança cibernética reforça a preocupação com áreas nas quais o compartilhamento de dados e infraestrutura pode abrir brechas para acesso a informações críticas. “Parcerias desse tipo, sem salvaguardas explícitas, podem criar canais de coleta e exploração de inteligência tecnológica e econômica”, diz. 

Embora a declaração utilize linguagem técnica e diplomática, Roedel avalia que a ausência de mecanismos claros de proteção reforça o risco de cooperação assimétrica, especialmente em um contexto de tensões entre Rússia e Estados Unidos. “É uma agenda que se diz civil, mas que pode facilmente transitar para usos estratégicos e militares”, acrescenta.

Comércio de fertilizantes da Rússia ao Brasil e carnes brasileiras para Moscou 

No campo comercial, a reunião reforçou o interesse mútuo no comércio de fertilizantes russos para o Brasil e de carnes brasileiras para a Rússia.  

Para Gianturco, esse eixo é o mais pragmático da relação bilateral e reflete interesses empresariais já consolidados. “Essas relações comerciais existem há décadas, independentemente de alinhamentos políticos”, afirma. Roedel, no entanto, alerta que a dependência excessiva de insumos estratégicos de um país isolado internacionalmente pode ampliar vulnerabilidades econômicas e diplomáticas no médio prazo. 

O comércio bilateral de insumos agrícolas passou a ter papel central na relação entre Brasil e Rússia, tanto por seu peso econômico quanto por suas implicações geopolíticas.

Dados oficiais mostram que, em 2024, a Rússia respondeu por cerca de 27,3% das importações brasileiras de adubos e fertilizantes químicos, em um total de 44,3 milhões de toneladas com custo de US$ 13,5 bilhões. Em 2025, embora as importações tenham subido para 45,5 milhões de toneladas, a participação russa recuou para 25,9%, enquanto a China avançou para cerca de 18,8% do total.

Essa dinâmica tem colocado o Brasil no centro de uma disputa mais ampla entre Moscou e Pequim pelo acesso ao mercado de fertilizantes, com os russos buscando manter sua fatia diante da ascensão chinesa, que ganhou terreno graças a volumes crescente de exportações e maior flexibilidade logística.

Analistas apontam que essa competição não se dá apenas no plano comercial, mas carrega dimensões geopolíticas significativas. A dependência brasileira por fertilizantes russos, e suas flutuações diante das pressões chinesas, teve papel incisivo nas posturas diplomáticas de Brasília, tanto no governo atual quanto no anterior, diante da guerra na Ucrânia e de possíveis repercussões sobre a produção agrícola local.  

No contexto da declaração conjunta, a inclusão de mecanismos que favoreçam o agronegócio — como facilitação de comércio de fertilizantes russos e exportações de carnes brasileiras para a Rússia — aparece como elemento de pragmatismo econômico em uma agenda ampla que tenta equilibrar interesses setoriais com objetivos de política externa.

Contudo, sob a ótica de riscos mencionados por especialistas como Cezar Roedel, essa dependência comercial também reforça a vulnerabilidade do Brasil a choques externos e a reconfigurações de cadeias globais de insumos, especialmente se incentivarem compromissos políticos mais alinhados com Moscou em detrimento de diversificação de mercados ou de atenções a alinhamentos com parceiros ocidentais.

BRICS e sistemas alternativos de pagamento para escantear o dólar

A declaração conjunta reforça o diálogo entre os bancos centrais do Brasil, Rússia e demais países do BRICS (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos) sobre instrumentos de pagamento “contemporâneos” — uma formulação aberta que reflete a intenção de explorar alternativas ao sistema financeiro internacional tradicional, dominado pelo dólar e pelo SWIFT. Esse ponto, embora técnico, está imbricado em um debate mais amplo que vem sendo protagonizado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no contexto do bloco. 

Nos últimos anos, Lula tem assumido um papel de destaque na defesa de uma “nova ordem econômica mundial” em que as transações internacionais não dependam exclusivamente da moeda americana — uma narrativa que nem mesmo os principais líderes dos BRICS, como os da Índia e da China, têm sustentado publicamente ou com a mesma ênfase.  

A promoção dessa agenda antidólar tem sido associada à tentativa de projetar o Brasil como protagonista de um “mundo multipolar”, ainda que a dominância do dólar nas transações cambiais e no comércio global continue substancial (mais de 90% do total).  

Para Cezar Roedel, essa ênfase pode sinalizar um alinhamento estratégico mais próximo da Rússia e de outras potências não-ocidentais, com riscos implícitos à integração do Brasil nas cadeias financeiras e à confiança de investidores externos. A busca por sistemas alternativos de pagamento, sem padrões claros de governança ou salvaguardas jurídicas robustas, poderia afetar a estabilidade cambial brasileira e ampliar incertezas frente aos mercados tradicionais. 

“Sem governança clara, padronização e segurança jurídica, esses sistemas paralelos podem afetar a estabilidade cambial e a confiança de investidores externos”, complementa Roedel. Ele também aponta o risco de o Brasil se isolar de cadeias globais de valor mais relevantes, como Estados Unidos e União Europeia. 

Gianturco observa, no entanto, que essa agenda avança lentamente e encontra resistências dentro do próprio BRICS, como é o caso do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, cujo país preside o bloco em 2026. “Esses sistemas só terão valor se forem aceitos globalmente, o que hoje está longe de acontecer”, diz.  

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