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O que é o partido Missão, que disputará espaço na direita em 2026

Últimas atualizações em 30/01/2026 – 18:05 Por Gazeta do Povo | Feed

As próximas eleições contarão com um total de 30 partidos na disputa, um a mais do que o pleito de 2024. Isso porque em novembro do ano passado o recém-criado partido Missão, formado por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL), obteve aprovação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e está apto a lançar candidatos.

A viabilização do partido foi possível após apoiadores e militantes do MBL alcançarem o número mínimo de 547 mil assinaturas exigido pelo TSE para a criação de uma nova legenda – a coleta teve início em novembro de 2023 e foi concluída em junho de 2025.

O partido Missão se apresenta, conforme seu estatuto, como uma legenda de caráter liberal que se propõe a “defender o regime democrático, o pluripartidarismo, os direitos fundamentais da pessoa humana, as liberdades civis, a economia liberal, permanecendo o Estado na condição de regulador, o meio ambiente, o respeito ao dinheiro público, mediante combate a privilégios e transformações políticas, sociais, institucionais, econômicas, jurídicas e culturais, destinadas a promover o desenvolvimento do país e o pleno emprego”.

Na prática, o partido propõe uma visão descentralizadora da economia, com foco em profissionalização da gestão pública, combate à corrupção e políticas rígidas de segurança pública. Em relação ao último ponto, o presidente do MBL e do partido Missão, Renan Santos – que é o pré-candidato da legenda à Presidência da República em 2026 – tem prometido um combate radical às facções ligadas ao narcotráfico caso seja eleito.

O partido também promete lançar candidatos a governadores e deputados federais em todos os estados e ter postulantes ao Senado. Entre os nomes mais conhecidos estão o deputado federal Kim Kataguiri, que avalia disputar a reeleição na Câmara ou concorrer ao governo paulista; o deputado estadual de São Paulo Guto Zacarias, que buscará uma cadeira como deputado federal, e a vereadora da capital paulista Amanda Vettorazzo, que avalia concorrer ao Senado.

Todos atualmente integram o União Brasil e migrarão para o partido Missão na próxima janela partidária ou antes, caso sejam liberados. Um dos desafios da nova legenda será ganhar mais espaço entre eleitores conservadores, especialmente aqueles alinhados a Jair Bolsonaro: o MBL apoiou o ex-presidente no segundo turno da campanha de 2018, mas após um racha logo no início do mandato passou a ser opositor de Bolsonaro e aliados.

Em paralelo, ao longo dos últimos anos o MBL sofreu a perda de vários membros influentes, que se tornaram críticos do movimento, a exemplo de Lucas Pavanato e Fernando Holiday – ambos do Partido Liberal (PL), respectivamente vereador e ex-vereador de São Paulo.

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Do programa político à “mão de ferro” entre filiados: como pensa o partido Missão

O conjunto de propostas do partido Missão é esmiuçado em seis fascículos físicos que compõem o chamado “Livro Amarelo”, que traz a história, os ideais e as propostas da legenda. Não há acesso público ao conteúdo – para receber as publicações é preciso assinar um plano de contribuição anual a partir de R$ 589.

O que é público do partido em relação ao projeto político está em falas dos membros fundadores, nos canais digitais e no estatuto da legenda. Entre as bandeiras que o grupo defenderá ao longo da campanha eleitoral de 2026 estão: fim dos privilégios do funcionalismo público, industrialização do Nordeste, responsabilidade fiscal, endurecimento de leis penais, guerra contra o narcotráfico, aumento da qualidade em saúde e combate à poluição e ao desmatamento.

Já em relação à estruturação interna do partido, o estatuto prevê forte centralização decisória pela cúpula nacional formada por membros do MBL, disciplina partidária rígida com limites claros à conduta de cada filiado e valorização da formação política como critério de ascensão dentro do partido.

Para Luan Sperandio, analista político e diretor de operações do Ranking dos Políticos, a concentração de poderes na Executiva Nacional é natural no início do partido, já que manter a coerência doutrinária é importante para posicionar a legenda no debate público e gerar identificação com eleitores.

“A grande questão é se eventualmente serão feitas reformas com o crescimento do partido. O fato de concentrar muito poder na Executiva Nacional também pode trazer problemas: esse foi um dos motivos, por exemplo, que o partido Novo acabou limitando seu crescimento nas eleições de 2018”, explica.

O estatuto do partido Missão prevê a instituição de um “presidente de honra” vitalício, com poder de voto permanente na Comissão Executiva Nacional. Segundo membros do MBL, o cargo, que ficará com Renan Santos, é um recurso para “blindar” o partido contra possíveis cooptações da legenda por projetos políticos divergentes daqueles estabelecidos na fundação.

Oposição a Bolsonaro e Lula e propostas

À Gazeta do Povo, a coordenadora nacional do MBL Amanda Vettorazzo explicou que o partido deve manter a oposição ao petismo e ao bolsonarismo, mas priorizará a apresentação de propostas.

“Não será só combate ao bolsonarismo e ao petismo, mas às práticas que o Brasil sempre desenvolveu. Então temos propostas claras como o enfrentamento do crime organizado como uma guerra. Outros pontos são a industrialização do Nordeste e também a desfavelização do país”, diz Amanda.

“A gente sabe que o crime usa as favelas como uma blindagem humana, então elas têm que acabar. E isso passa pela questão habitacional, para dar mais conforto às pessoas, porque ninguém merece morar em uma favela”, prossegue.

Renan Santos, pré-candidato do partido Missão à Presidência da República (Foto: Reprodução/Youtube MBL Oficial)

Partido Missão terá desafio de romper a “bolha” paulista

Na avaliação de Luan Sperandio, outro desafio central do partido Missão na primeira disputa eleitoral será obter votos fora da sua base, que é São Paulo. A maioria dos nomes fortes da legenda pertencem ao estado paulista, apesar de o MBL ter representantes em vários estados.

“São Paulo é fundamental para o Missão, porque é o berço deles e não tenho dúvidas de que vão fazer cadeiras na Câmara dos Deputados por lá, possivelmente mais de duas. A grande questão será conseguir compor nomes em outros estados”, diz Sperandio.

“O partido Novo é um exemplo da direita que também passou por isso. Mesmo tendo alguns nomes que foram campeões de votos, não conseguiram montar nominatas competitivas em diferentes estados”, continua.

Segundo o analista, o sucesso da legenda depende de ganhar espaço entre a direita mais conservadora, com grande parte dela sendo simpática ao nome de Bolsonaro. “Isso passa por uma lógica de mercado. Você tem o eleitorado à direita no espectro político onde o bolsonarismo tem um market share (participação de mercado) muito grande. O Missão tende a buscar aumentar gradualmente o market share deles dentro da direita aproveitando flancos no bolsonarismo e se mostrando a esses eleitores como uma novidade”, diz.

“Para isso, a grande aposta que o partido Missão tem trabalhado é na pauta de segurança pública. Entendo que tentarão trabalhar essa pauta de forma um pouco mais radical. Não à toa, frequentemente o Renan Santos e outros membros têm elogiado bastante a atuação de Nayib Bukele (presidente de El Salvador, que com um modelo rígido de combate ao crime organizado reduziu drasticamente os indicadores de violência no país)”.

Ex-MBL diz que escolha por Renan tem a ver com “testes de discursos radicalizados”

Para Fernando Holiday, ex-coordenador nacional do MBL, que rompeu com o movimento em 2021, a escolha por Renan Santos, que não tem a mesma popularidade que outras figuras do movimento, para concorrer à Presidência da República pelo partido Missão é estratégica para calibrar os discursos da legenda.

“Penso que eles escolheram uma figura menos conhecida para testar discursos. O Renan vai testar um discurso muito radicalizado no quesito segurança pública, que eu acho que vai ser o debate central das eleições de 2026. Também deve ter um discurso muito radicalizado contra as elites do funcionalismo público, que é outro tema que acaba engajando muito entre boa parte da direita”, avalia Holiday.

“Acredito que isso permita viralizar alguns conteúdos, porque por não ser uma figura tão popular, muitas pessoas não o associam ao antibolsonarismo e ao MBL propriamente dito, o que pode fazer com que ele consiga alguma pontuação relevante nas pesquisas”, continua.

O ex-vereador de São Paulo, entretanto, faz ressalvas quanto ao posicionamento do partido Missão que, segundo ele, destoa da visão inicial de quando a criação da legenda começou a ser discutida pela cúpula do MBL, ainda em 2019.

“A pauta ideológica do projeto inicial do partido é muito diferente do que apresentam agora. Na época se falava de uma visão essencialmente liberal, tanto na economia quanto em costumes, com maior abertura em relação ao aborto e às drogas. Agora passaram a defender uma intervenção maior do Estado na economia e adotaram o discurso da guerra às drogas”, diz Holiday. “Então me parece que tanto do ponto de vista estético quanto ideológico, mudaram bastante os objetivos para o partido ao longo desses anos”, prossegue.

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