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Como o escândalo Master afetará a economia nos próximos anos

Últimas atualizações em 27/01/2026 – 11:53 Por Gazeta do Povo | Feed

A liquidação do Banco Master não se limita a um escândalo financeiro isolado. O episódio gerou uma cadeia de efeitos que vai da retração do crédito ao aumento indireto de custos para a população, com potenciais impactos sobre juros, crescimento econômico e política monetária nos próximos anos.

Seja por juros mais altos, tarifas bancárias mais elevadas ou menor oferta de crédito, os efeitos do colapso do Master tendem a atingir consumidores, empresários e contribuintes que nunca investiram no banco. A Gazeta do Povo reuniu sete dos principais efeitos do caso Master, de curto, médio e longo prazo. Veja a seguir:

1. Redução da confiança em bancos menores

Com a liquidação do Master, houve queda na confiança do investidor em bancos pequenos e médios, que, no Brasil, são aqueles com patrimônio líquido entre R$ 15 bilhões e R$ 23 bilhões. Tânia Gofredo, economista-chefe da GEP Brasil, afirma que episódios como esse tendem a abalar a confiança do mercado.

Esse abalo traz implicações diretas. Uma delas é que bancos pequenos e médios passam a ter mais dificuldade para vender seus produtos, como os CDBs, que foram o pivô da crise do Master. Por um lado, essa tendência encarece o crédito, reduzindo a flexibilidade dessas instituições para oferecer rendimentos mais atrativos aos clientes.

“É uma conta que não fecha”, diz Elber Laranja, fundador da empresa de engenharia de crédito Titanium. “De um lado, a queda na confiança faz com que os bancos médios precisem oferecer prêmios maiores aos investidores; de outro, a redução da liquidez os obriga a encarecer o crédito”, explica.

2. Crédito mais caro para pequenas e médias empresas

As pequenas e médias empresas são as mais afetadas pela dinâmica descrita acima. Elber Laranja avalia que, no médio prazo, o aumento no custo do crédito tende a impactar o preço final de produtos e serviços oferecidos por esses negócios, já que eleva seus custos. Os empreendimentos podem entrar em situação financeira delicada, com risco inclusive de falência.

3. Migração para bancões e menor rentabilidade

A queda na credibilidade de pequenos e médios bancos tem outro efeito: direcionar investidores em busca de maior segurança para os grandes bancos, que apresentam maior solidez no mercado. Tânia Gofredo afirma que essas instituições terão mais facilidade de atrair os recursos liberados pelas restituições do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Contudo, a confiabilidade e a posição consolidada dos grandes bancos permitem que ofereçam rendimentos menores aos investidores, já que o risco associado a essas instituições é inferior ao das instituições menores. Desse modo, investidores podem receber menos com a alocação de seu dinheiro.

4. Regulação mais dura no setor financeiro

Outra mudança já em curso é o endurecimento da regulação no setor financeiro. Na última semana, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sugeriu que os fundos de investimento passem a ser fiscalizados e regulados pelo Banco Central (BC) em vez da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), como ocorre atualmente. No entanto, as próprias decisões do BC também têm sido questionadas, ora como precipitadas, ora como tardias.

Além disso, em razão do alto volume de restituições do FGC decorrentes da liquidação do Master, o CMN já promoveu alterações nas regras do fundo, inclusive nas normas de captação. Elber Laranja avalia que, diante desse cenário, a autoridade monetária tende a endurecer exigências de compliance, auditoria e limites de exposição para bancos, gestoras e demais instituições.

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master (Foto: Gurometal/Wikimedia Commons)

5. Fatura do caso Master paga pela sociedade

Um dos efeitos mais adversos da crise do Master é que o custo pode recair sobre quem nunca investiu nos títulos do banco. Para recompor os pelo menos R$ 40,6 bilhões que serão desembolsados pelo FGC em garantias, as instituições integrantes terão de realizar aportes adicionais ao fundo.

O CMN já determinou um aumento de 100% na contribuição das instituições — de 0,01% para 0,02% sobre os depósitos elegíveis. Além disso, estuda-se a possibilidade de antecipação de cinco anos de contribuições para acelerar a recomposição do caixa.

Como resultado, os bancos tendem a repassar esse aumento ao consumidor. “A gente sabe que o sistema bancário não leva desaforo para casa. Assim, no médio e longo prazo, até mesmo clientes de grandes bancos podem ser impactados por elevação de taxas de cheque especial, tarifas bancárias, juros cobrados e outros custos financeiros”, explica Laranja.

Mas há quem ignore tais mecanismos. Na sexta-feira (23), o presidente Lula (PT) afirmou que bancos públicos e privados, citando Banco do Brasil, Caixa e Itaú, pagarão a conta financeira do rombo do Master.

Da mesma forma, o rombo sofrido pelo Banco de Brasília (BRB), após a compra de carteiras de títulos fraudulentos do Master, pode recair sobre o contribuinte. O governo do Distrito Federal recentemente apontou a possibilidade de injetar recursos no banco.

Ainda na sexta-feira (23), o Banco Central determinou que o BRB faça o provisionamento de R$ 2,6 bilhões para cobrir o rombo das negociações com o Master. Segundo Luís Garcia, sócio da Tax Group, trata-se da “socialização” do prejuízo do BRB, que será coberto com recursos do contribuinte.

6. Aumento da busca por títulos públicos, que beneficia o governo

Um dos efeitos mais imediatos da crise do Banco Master pode, inclusive, favorecer o governo. Com a injeção de recursos do FGC no mercado e o abalo na confiança em bancos de médio porte, investidores tendem a buscar alternativas mais conservadoras, como os títulos públicos.

O professor de Administração da ESPM, Jorge Ferreira, afirma que essa alta na procura já pode ser percebida no mercado. Esses recursos vão diretamente para o caixa do governo, que, em pleno ano eleitoral, acaba recebendo um reforço no orçamento.

7. Queda mais demorada da Selic

A perda de credibilidade de bancos de menor porte pode afetar a percepção do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a desancoragem das expectativas de inflação — quando o mercado passa a projetar inflação de forma persistente acima da meta. Esse movimento pode levar o Comitê a manter a taxa básica de juros, a Selic, em patamares elevados por mais tempo.

Jorge Ferreira afirma que, na reunião de janeiro, que acontecerá nesta quarta-feira (28), as expectativas do mercado são de manutenção da Selic em 15%, com queda prevista apenas para março.

Contudo, a pressão gerada pela crise do Master pode manter os juros elevados por mais tempo. Com isso, o crédito segue mais caro, o que desestimula o consumo e o investimento produtivo e compromete o ritmo de crescimento da economia.

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A Gazeta do Povo é um jornal sediado em Curitiba, Paraná, e é considerado o maior e mais antigo jornal do estado. Apesar de ter cessado a publicação diária em formato impresso em 2017, o jornal mantém suas notícias diárias online e semanalmente em formato impresso. O jornal é publicado pela Editora Gazeta do Povo S.A., pertencente ao Grupo Paranaense de Comunicação (GRPCOM).

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