Papa Leão XIV começa visita na América Latina, onde o catolicismo está em declínio
Últimas atualizações em 06/11/2026 – 00:32 Por G1 Mundo
Papa Leão XIV faz primeira audiência após cirurgia
O papa Leão XIV inicia nesta sexta-feira (6) a primeira viagem à América Latina como pontífice. Serão 11 dias de compromissos em uma região que ainda concentra o maior número de católicos do mundo, mas onde a identificação com a Igreja vem diminuindo, apesar de a fé em Deus continuar forte.
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A viagem, que ocorre poucas semanas após o pontífice passar por uma cirurgia para tratar um câncer de pulmão, foi mantida sem alterações, segundo o Vaticano.
Aos 71 anos, Leão XIV fará um dos roteiros internacionais mais exigentes das últimas décadas. Serão cerca de 31 mil quilômetros percorridos entre Uruguai, Argentina e Peru.
O roteiro começa no Uruguai, país considerado secular. Depois, passa pela Argentina, terra natal do antecessor Francisco. Por fim, será a vez do Peru, onde Leão XIV passou anos como missionário e bispo e acabou se tornando cidadão.
O papa ficará dois dias no Uruguai, três na Argentina e quase uma semana no Peru. Durante a viagem, celebrará missas ao ar livre, que devem reunir milhões de pessoas, discursará para líderes políticos, participará de encontros com jovens e visitará comunidades remotas dos Andes de helicóptero.
A América Latina ainda é a região com o maior número de católicos do mundo. Mas a presença da Igreja Católica vem diminuindo no continente.
A instituição perde fiéis para igrejas evangélicas, que crescem rapidamente, enquanto mudanças nos costumes e novas formas de vivenciar a fé também afetam a relação das pessoas com a religião.
- Uma pesquisa do Pew Research Center realizada em 2024 em seis dos países mais populosos da América Latina mostrou que a proporção de pessoas que se identificam como católicas caiu em todos eles na comparação com dez anos antes.
- Cerca de um em cada cinco adultos afirmou ter sido criado no catolicismo, mas ter deixado a Igreja.
"Observamos um declínio em todos os países que pesquisamos em 2024", disse Kirsten Lesage, pesquisadora associada do Pew Research Center, organização que acompanha a religiosidade em diferentes partes do mundo.
"Há menos pessoas se identificando [como católicas]", disse. "A região ainda é muito religiosa, e as pessoas são muito religiosas sob diversos critérios."
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Papa Leão XIV acena para público durante sua primeira audiência geral na Praça de São Pedro, no Vaticano, desde cirurgia para tratar câncer no pulmão, em 21 de outubro de 2026. — Foto: Tiziana Fabi/AFP
O padre Jorge Reinaudo, que lidera uma paróquia em Córdoba, na Argentina, uma das cidades incluídas no roteiro do papa, passou quase dez anos construindo uma base de seguidores nas redes sociais.
Ele publica vídeos bem-humorados para cerca de 800 mil seguidores em diferentes plataformas. Nas gravações, brinca com histórias bíblicas e tendências da internet, como as superstições criadas para ajudar a seleção argentina de futebol a vencer a Copa do Mundo.
Segundo o padre, cada vez mais jovens buscam espiritualidade em retiros, momentos de silêncio e até práticas inspiradas no budismo e no hinduísmo. Muitas vezes, essas experiências são combinadas com elementos tradicionais do cristianismo, como o rosário e a água benta.
"Não pertencer a uma religião não significa que as pessoas não tenham fé. Significa que vivem a fé à própria maneira", disse Reinaudo.
A crença em Deus continua muito forte na América Latina em comparação com outras regiões do mundo. Isso também ocorre entre o número crescente de pessoas que não se identificam com nenhuma religião, segundo a pesquisa do Pew.
Para líderes religiosos e pesquisadores ouvidos pela Reuters, o principal desafio da Igreja Católica não é necessariamente a perda da fé, mas a mudança na maneira como as pessoas praticam a religião. Cada vez mais pessoas buscam experiências espirituais fora das instituições tradicionais.
Rápida mudança social
Rosário terço fé católico catolicismo religião igreja — Foto: James Coleman/Unsplash
Marverick Ruben Mendoza Oseguera, contador hondurenho de 31 anos, conheceu Reinaudo nas redes sociais enquanto acompanhava músicos católicos argentinos.
Criado no catolicismo, ele disse que passou a questionar a religião organizada depois de presenciar problemas em comunidades religiosas. Entre eles, casos de violência contra mulheres e integrantes do clero que pareciam proteger os agressores.
"Experiências como essas minaram a confiança e a fé de muitos jovens, inclusive a minha", disse.
A pesquisa do Pew também mostrou uma diferença entre gerações. Nos seis países analisados, adultos com 50 anos ou mais eram mais propensos a se identificar como católicos do que pessoas de 18 a 34 anos.
Oseguera participa semanalmente de uma adoração eucarística pela internet para ajudar a controlar a ansiedade. Embora não se identifique mais como católico, ele diz encontrar conforto no ritual.
"Parece mais que estou passando um tempo com um amigo próximo", afirmou.
A perda de fiéis pela Igreja Católica ocorre em meio a rápidas mudanças sociais na América Latina. Nos últimos anos, países da região ampliaram direitos relacionados a temas como aborto, eutanásia e casamento entre pessoas do mesmo sexo.
No entanto, Miguel Pastorino, professor da Universidade Católica do Uruguai e pesquisador de filosofia da religião, alerta que a queda no número de católicos não pode ser atribuída diretamente a essas mudanças.
Segundo ele, a valorização das escolhas individuais também transformou a maneira como as pessoas se relacionam com a religião em diferentes partes do mundo.
"Há uma tendência crescente em direção à religiosidade 'à la carte', na qual as pessoas criam o próprio cardápio espiritual, sem sentir a necessidade de se filiar a nenhuma instituição específica", disse.
As igrejas evangélicas também ganharam espaço entre os trabalhadores das cidades latino-americanas. O crescimento é especialmente forte no Brasil, onde quase 27% da população se identifica como evangélica.
O pentecostalismo, vertente evangélica que mais cresce, chegou à América Latina há cerca de um século, levado por missionários norte-americanos.
Hoje, igrejas pentecostais estão presentes na maioria das cidades da região. Músicas e orações costumam ser ouvidas nas ruas por meio de alto-falantes.
"Eles [os pentecostais] vão direto ao testemunho pessoal, como fazia a Igreja primitiva", disse Pastorino. "Quando a Igreja Católica vai aos bairros pobres, muitas vezes realiza um grande trabalho social, mas faz muito pouca evangelização."
Uma visita do papa, porém, pode ajudar a fortalecer a identificação das pessoas com a Igreja Católica, afirmou o professor.
Pablo Coimbra, pároco da igreja Nuestra Señora de Guadalupe, no bairro de Casavalle, em Montevidéu, disse que a chegada do pontífice já começa a ter efeitos na comunidade. O papa planeja visitar a região no segundo dia da viagem.
Segundo Coimbra, mais pessoas passaram a participar das missas, e também aumentou a procura por batismos e primeiras comunhões.
"A visita do papa talvez tenha despertado uma lembrança, algo profundo no coração das pessoas em relação à fé e ao sentimento de pertencimento à Igreja", disse.
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Fonte: G1 Mundo
