Paraguai: entenda por que Peña pode sofrer impeachment após crise bancária
Últimas atualizações em 05/11/2026 – 12:02 Por G1 Mundo
Santiago Peña, economista e ex-ministro da Fazenda durante o governo de Cartes — Foto: REUTERS
A Câmara dos Deputados do Paraguai começou a discutir nesta quinta-feira (5) um pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña. Apresentada pela oposição em meio à crise do banco digital Ueno, a proposta recebeu o apoio dos deputados governistas do Partido Colorado, que anunciaram que votarão a favor da abertura do processo.
O banco, que deixou milhares de clientes sem acesso ao próprio dinheiro, teve sua liquidação determinada pelo Banco Central na terça-feira (3). A medida, que dá início ao encerramento das atividades da instituição, foi tomada após o BC identificar que o Ueno não tinha dinheiro suficiente para pagar suas dívidas.
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O pedido foi apresentado inicialmente por 35 deputados da oposição, que pediram uma sessão extraordinária da Câmara para discutir o assunto. Com a adesão dos 36 deputados governistas, a proposta pode receber apoio unânime.
➡️ Para que o impeachment avance, pelo menos dois terços dos deputados precisam votar a favor do pedido. Ainda não se sabe se os parlamentares da base governista apoiarão a iniciativa.
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A oposição acusa Peña de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de dinheiro destinado ao pagamento de aposentadorias e outros benefícios, entre outras irregularidades. Os parlamentares também afirmam que o Banco Central teria escondido problemas do banco.
A ligação do presidente com o banco está no centro das acusações. Peña teve ações do Grupo Vázquez, que controla o Ueno, até março de 2025. Ele já tinha participação no grupo antes de assumir o governo, em 2023.
- 👉 O pedido de impeachment é um novo desdobramento da crise, que já havia provocado a renúncia de Carlos Carvallo, presidente do Banco Central do Paraguai, e a prisão de oito diretores do Ueno, entre eles o presidente-executivo, Miguel Vázquez.
Crise no Ueno
O Ueno, que tinha cerca de 3 milhões de clientes e era o maior emissor de cartões de crédito do Paraguai, enfrentava problemas financeiros e era alvo de investigações.
Após uma revisão dos registros financeiros do banco, o indicador que mede sua capacidade de cumprir as obrigações financeiras caiu para menos da metade do mínimo exigido pelas autoridades.
O Banco Central identificou que o Ueno não tinha dinheiro suficiente para cumprir suas obrigações. O problema estava relacionado a empréstimos feitos a empresas ligadas ao próprio banco.
⚖️ Diante da situação, o BC iniciou o processo de liquidação do Ueno para proteger os clientes com dinheiro depositado e limitar possíveis impactos sobre outros bancos e instituições financeiras.
O Ministério Público também abriu uma investigação criminal sobre o caso:
- Oito pessoas ligadas ao banco se entregaram às autoridades após a emissão de mandados de prisão.
- A Procuradoria acusou formalmente 27 pessoas e a Justiça determinou o bloqueio dos bens dos investigados.
Nos últimos meses, o Ueno já vinha sob maior fiscalização. Órgãos reguladores investigavam se a instituição havia financiado indiretamente a venda de uma carteira de ativos de uma empresa ligada ao Grupo Vázquez. O banco negava a operação.
A instituição administrava aproximadamente US$ 850 milhões (R$ 4,63 bilhões) em recursos públicos no Paraguai, incluindo valores do Instituto de Previdência Social (IPS) e de outros fundos públicos de previdência.
Na terça-feira, clientes foram a agências do banco, mas encontraram as portas fechadas. Entre eles estavam aposentados que recebem benefícios do governo por meio do Ueno.
"Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno", disse à agência Reuters Manuel Cáceres, morador de Ñemby, nos arredores de Assunção. "Infelizmente, muita gente, inclusive eu, está passando a manhã assim."
Peña anuncia medidas para ressarcir clientes
Diante da crise, Peña anunciou um acordo com líderes do Congresso para acelerar a votação de um projeto que autoriza o uso do Fundo de Garantia do país para fazer pagamentos aos depositantes.
O presidente afirmou ainda que a medida deve assegurar a devolução de recursos públicos, incluindo valores mantidos pelo IPS e por outros fundos públicos de previdência.
Nesta quarta-feira, Peña promulgou uma lei que permitirá aos clientes do Ueno recuperar seu dinheiro mais rapidamente. Embora não tenha se pronunciado publicamente sobre o pedido de impeachment, o presidente afirmou, em uma publicação na rede social X, que os responsáveis pelas irregularidades responderão à Justiça, sem exceções.
"Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse", afirmou.
Governo tenta conter preocupação com sistema financeiro
A crise também provocou preocupação entre clientes de outras instituições financeiras. Nesta quarta-feira, circularam relatos de falhas nos aplicativos de outros bancos, em meio ao aumento das transferências de contas de clientes do Ueno para outras instituições.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que os bancos trabalhavam para atender ao grande volume de clientes que estavam transferindo seus recursos. A entidade ressaltou que o sistema bancário continuava "operando normalmente".
O Banco Central também afirmou que o caso do Ueno é isolado e não indica problemas mais amplos no sistema financeiro do país.
Peña procurou afastar o risco de contágio e disse que "este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional". O presidente acrescentou que os responsáveis pelo caso "devem responder perante o Judiciário, sem exceções e sem privilégios".
Segundo o Banco Central, a Superintendência de Bancos vai nomear auditores para verificar a situação dos ativos do Ueno.
Renúncia do presidente do Banco Central
A crise também levou à saída de Carlos Carvallo da presidência do Banco Central. Ele havia comandado o próprio Ueno até agosto de 2023 e, assim como a autoridade monetária, vinha sendo criticado por parlamentares pela supervisão da instituição.
Carvallo afirmou que permaneceria no cargo durante o procedimento adotado pelas autoridades para lidar com a crise. Ao anunciar sua renúncia, disse que a decisão ajudaria a reduzir a controvérsia em torno do Banco Central e permitiria que a instituição e a Superintendência de Bancos trabalhassem sem as disputas políticas e a repercussão na imprensa.
As críticas já haviam levado parlamentares a pedir a demissão da cúpula do BC, depois que eles rejeitaram um relatório sobre o Ueno por considerá-lo incompleto.
O caso também teve reflexos nos mercados. As preocupações com o Ueno pressionaram os títulos em dólar do banco com vencimento em 2031 e os próprios títulos da dívida do Paraguai.
Controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, o Ueno passou rapidamente de uma fintech local de nicho a um banco de médio porte, em uma trajetória semelhante à de plataformas digitais como Monzo e Nubank.
* Com informações da agência de notícias Reuters
- Santiago Peña
Fonte: G1 Mundo
