7 pontos para entender nova onda de ataques
Últimas atualizações em 02/03/2026 – 13:45 Por AFP
Os ataques coordenados de Israel e EUA se intensificaram no Irã pelo terceiro dia consecutivo, após o início da guerra na madrugada do último sábado, e já resultaram na morte de várias autoridades do regime, incluindo o líder supremo, Ali Khamenei.
Uma nova frente foi aberta no Líbano nesta segunda (2), depois que o grupo terrorista Hezbollah demonstrou apoio a Teerã com bombardeios contra instalações militares no norte israelense. Israel respondeu com uma intensa campanha retaliatória contra o sul do Líbano e os subúrbios meridionais de Beirute conhecidos como Dahye. Um dos alvos eliminados foi o chefe do quartel-general de inteligência do Hezbollah, Hussein Makled.
Do planejamento à ação militar: os bastidores do ataque
A decisão militar conjunta de iniciar os bombardeios no Irã contou com um detalhe estratégico coletado pela CIA, a agência de inteligência dos EUA, momentos antes dos ataques terem início neste final de semana.
Fontes familiarizadas com a operação revelaram ao jornal The New York Times que a CIA identificou a localização precisa do alvo mais importante do regime, o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país, que foi morto em um dos ataques direcionados naquele mesmo dia.
A inteligência americana vinha monitorando a autoridade máxima de Teerã havia meses, desde os primeiros ataques lançados contra infraestrutura nuclear em junho do ano passado. Informações coletadas naquele período facilitaram o rastreamento de sua rotina e padrões de comportamento.
Então, a CIA descobriu que as autoridades mais importantes do país, incluindo Khamenei, se reuniriam numa manhã de sábado em um complexo da liderança no coração de Teerã, que já era conhecido pelos militares americanos e israelenses. As fontes americanas afirmaram que essa informação foi crucial para um avanço rápido sobre o regime do Irã.
A operação expôs falhas básicas dos líderes iranianos que, em meio a ameaças constantes dos governos Trump e Netanyahu, decidiram se reunir em um complexo militar conhecido e pouco seguro em Teerã em plena luz do dia. O que inicialmente seria uma ação noturna dos países foi ajustada ao horário de maior chances de atingir os alvos na manhã de sábado.
O que explica a realização do ataque e por que agora?
A operação conjunta com Israel, que o Pentágono apelidou de “Fúria Épica”, ocorre após meses de pressão do presidente Donald Trump sobre o regime iraniano em pontos que considera essenciais para a proteção dos EUA: o fim do programa nuclear e o patrocínio ao terrorismo.
Tanto para Israel quanto EUA, Teerã estaria enriquecendo urânio secretamente para fabricar armas nucleares, algo que colocaria em risco as duas nações. O regime islâmico nega categoricamente as alegações.
Neste domingo, o presidente americano disse que a campanha dos EUA no Irã vai continuar até que todos os objetivos militares sejam atingidos. Trump citou como um motivo que contribuiu para os bombardeios a falta de acordo após as rodadas de negociações com o Irã.
“Eles querem conversar, e eu concordei em conversar, então vou falar com eles. Deveriam ter feito isso antes. Deveriam ter oferecido algo que era muito prático e fácil de fazer antes. Esperaram demais”, disse o presidente à revista The Atlantic. Apesar disso, ele não descartou o diálogo com a nova liderança do Irã após a morte do líder supremo.
A coleta de informações sensíveis pela CIA sobre a reunião de lideranças iranianas na manhã de sábado contribui para definir o momento do ataque no final de semana.
Qual foi a resposta do Irã e por que país atacou vizinhos, além de Israel?
O regime iraniano prometeu uma “lição histórica” a Israel e aos EUA no mesmo dia do início dos bombardeios contra cidades iranianas. Desde então, Teerã tem lançado ataques a diversos países da região onde há bases militares e diplomáticas dos EUA, além de Israel.
Até o momento, 10 pessoas morreram em território israelense após o lançamento de mísseis iranianos em dez ondas de ataques até esta segunda-feira.
O Irã também lançou ataques contra mais de uma dezena de países na região, incluindo os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Kuwait e Catar, onde há bases americanas.
O Comando Central do Exército dos EUA (Centcom) confirmou nesta segunda-feira a quarta morte de um militar do país durante a operação Fúria Épica. O Centcom também comentou um incidente envolvendo três aviões militares americanos que caíram no Kuwait nesta segunda, abatidos “por erro” de “fogo amigo” kuwaitiano. Segundo as informações, os tripulantes ejetaram a tempo e estão em “condição estável”.
Alguns dos ataques lançados pelo Irã atingiram países que não foram utilizados para os bombardeios deste final de semana. A Arábia Saudita emitiu um comunicado condenando as ações iranianas que tinham como alvos a capital Riad e a região leste do país, apesar de todas as tentativas terem sido interceptadas.
O Catar informou que pelo menos 65 mísseis e 12 drones foram lançados contra o seu território e oito pessoas ficaram feridas. No Kuwait, pelo menos uma vítima morreu após ser atingida por destroços de míssil.
Os ataques iranianos também atingiram bases do Reino Unido e França no Oriente Médio. O Ministério de Defesa francês informou que uma base naval foi atingida nos Emirados Árabes Unidos, enquanto uma base da Força Aérea britânica foi alvo de um drone no Chipre.
Quais as reações do mundo?
Lideranças de diversos países têm repercutido o ataque lançado pelos EUA e por seu aliado no Oriente Médio, Israel, e discutido cenários para a região.
No domingo, Alemanha, França e Reino Unido disseram que poderão adotar medidas para destruir a capacidade do Irã de lançar mísseis e drones, em defesa de seus interesses e dos aliados no Oriente Médio.
Os países também sugeriram que poderiam colaborar com os EUA na ofensiva contra o regime iraniano. No entanto, nesta segunda, o ministro das Relações Exteriores alemão, Johann Wadephul, descartou categoricamente a participação direta da Alemanha na guerra contra o Irã, ao mesmo tempo em que advertiu que o ataque com drones contra uma base do Exército britânico no Chipre mostra a disposição de Teerã para uma escalada.
“O governo definitivamente não tem intenção de participar de forma alguma”, afirmou o ministro em entrevista à emissora Deutschlandfunk, enfatizando que a Alemanha não possui bases militares na região nem os meios militares necessários.
O ditador da Rússia, Vladimir Putin, e o líder dos Emirados Árabes, Mohamed bin Zayed, pediram nesta segunda-feira, durante um telefonema, um “rápido” fim das hostilidades em torno do Irã, cujo território está sendo bombardeado por EUA e Israel.
“Ambas as partes destacaram a necessidade de um rápido cessar-fogo e do retorno ao processo político-diplomático”, informou o Kremlin em comunicado. Por sua vez, o líder dos Emirados Árabes denunciou em seu diálogo com Putin que os ataques de resposta de Teerã atingiram seu país, o que considerou “injustificado”, uma vez que o território não está sendo usado como plataforma para bombardear a república islâmica.
O Kremlin descartou ainda que o grupo Brics, que inclui países como Irã, Rússia, China e Brasil, vá ajudar a república islâmica no conflito.
“A adesão ao Brics não contempla a obrigação de oferecer assistência mútua durante uma agressão militar”, afirmou o porta-voz russo, Dmitry Peskov, em sua entrevista coletiva telefônica diária.
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil condenou o ataque militar dos EUA e de seu aliado, Israel, ao Irã. O governo brasileiro destacou no sábado que a ofensiva militar aconteceu em meio às negociações, chamando a diplomacia “o único caminho viável para a paz”, que é a “posição tradicionalmente defendida” pelo país.
Quais as consequências para o Irã?
Uma das consequências mais diretas ao regime iraniano é a possibilidade de queda com a morte do líder supremo Ali Khamenei e outras autoridades.
Os ataques a países da região que não estavam diretamente envolvidos nos bombardeios também aumentam a pressão sobre Teerã, com possibilidade de expansão da guerra em outras frentes.
Uma análise do think tank americano Atlantic Council destaca esse como um erro crítico cometido pelo país persa. “O Irã cometeu um grave erro de cálculo estratégico ao ampliar seu confronto para incluir os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), apesar da clara e consistente rejeição da guerra por parte desses países”.
O que tornou a escalada particularmente alarmante é o fato dos ataques iranianos não terem se limitado a instalações militares, apesar das alegações de Teerã. Eles afetaram aeroportos, infraestrutura crítica, hotéis e áreas residenciais – espaços onde civis vivem, trabalham e transitam.
À Gazeta do Povo, o economista Igor Lucena, doutor em Relações Internacionais, apontou que o fato de algumas dessas nações, como Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, estarem cada vez mais alinhadas com o Ocidente, abre caminho para uma retaliação ao Irã.
“O Irã atacou países da região: atingiu áreas do Golfo, Israel e o Kuwait. Também vimos ataques e ameaças envolvendo aeroportos dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita. Esses países agora se mobilizam para retaliar e reforçar sua defesa territorial e institucional, sobretudo por serem nações cada vez mais alinhadas ao Ocidente e que precisam demonstrar à sociedade e à comunidade internacional que são capazes de se proteger de ações hostis do Irã”, avaliou.
EUA e Irã podem voltar à mesa de negociação?
O presidente Trump não descartou o retorno do diálogo com o Irã, apesar de ter enfatizado em declarações após a operação militar que seria “tarde demais” para as negociações. Neste domingo, ele disse em entrevista à revista The Atlantic que estaria disposto a negociar com a nova liderança do Irã após a morte do líder supremo Ali Khamenei.
Por sua vez, o Irã parece ter fechado de vez as portas para se reunir com os americanos. O secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, um dos braços de confiança do falecido líder supremo, afirmou na manhã desta segunda-feira (2) que o regime não negociará com os EUA.
“Trump mergulhou a região no caos com suas falsas esperanças (…) Com suas ações delirantes, transformou seu slogan ‘América primeiro’ em ‘Israel primeiro’ e sacrificou soldados americanos para os anseios de poder de Israel”, afirmou Larijani.
Até quando os ataques continuarão?
O chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, general Dan Caine, afirmou nesta segunda-feira em coletiva com o secretário de Guerra, Pete Hegseth, que as operações militares contra o Irã estão em sua fase inicial e “levarão algum tempo” até atingirem os objetivos.
Caine também reconheceu que essas operações exigirão “muito trabalho” e poderão causar novas baixas entre as tropas.
“Esta não é uma operação de um dia. Levará algum tempo para atingir os objetivos do Comando Central e da força conjunta que foram designados. Em alguns casos, será necessário um trabalho difícil e árduo. Esperamos sofrer novas baixas, mas, como sempre, trabalharemos para minimizá-las”, afirmou.
O chefe militar garantiu que a operação está “escalando” após 57 horas contínuas de exercícios que, segundo ele, fazem parte da “fase inicial” e exigirão o envio de novas tropas no futuro. Caine disse que o comandante do Comando Central, almirante Brad Cooper, “receberá forças adicionais ainda hoje (segunda-feira)”.
O secretário de Guerra, por sua vez, disse na coletiva que a operação militar ordenada pelo presidente Donald Trump contra o Irã provocou uma mudança de regime naquele país e não se tornará um conflito “sem fim”.
Hegseth classificou a Operação Fúria Épica como a “mais letal, mais complexa e mais precisa” da história e descartou comparações com o Iraque. “Isto não é o Iraque. Isto não é interminável. (…) Isto é o completo oposto. Esta operação é uma missão clara, devastadora e decisiva: destruir a ameaça de mísseis, destruir a Marinha, sem armas nucleares”, disse.
Trump também revelou sua previsão sobre a duração do conflito. Ao The New York Times, ele sugeriu que os combates em Teerã podem durar de “quatro a cinco semanas”, se necessário.
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