Mensagem de Lula em tom eleitoral; Master esquecido
Últimas atualizações em 03/02/2026 – 18:09 Por Redação GNI
A abertura do ano legislativo de 2026 começou com um gesto que falou mais alto do que qualquer discurso: a ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Pelo terceiro ano consecutivo, ele não compareceu à sessão solene no Congresso Nacional e optou por enviar a Mensagem Presidencial por escrito, entregue pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa. No mesmo dia, porém, esteve presencialmente na abertura do ano do Judiciário, no Supremo Tribunal Federal (STF).
O contraste foi entendido em Brasília como um sinal político claro. Em um momento em que o governo depende do Parlamento para aprovar sua agenda no último ano da atual legislatura, Lula escolheu não ocupar simbolicamente o principal palco da articulação institucional.
Para o analista político Alexandre Bandeira, a decisão foi calculada e demonstrou o interesse do governo de se aproximar mais do Judiciário do que do Legislativo.
“O Legislativo é a casa onde o presidente mais precisa de articulação, mas ele optou pelo distanciamento. Ao ir ao STF, Lula buscou dar sua “assinatura” e validar as ações da Corte, consolidando o Judiciário como um aliado institucional frente a um Parlamento cada vez mais hostil”, disse.
O calendário também joga contra o Planalto. Com as eleições se aproximando, a janela útil de votações é curta. “Quando chegarem as festas juninas, o foco total será a busca por votos. Os parlamentares estarão sob a lupa das redes sociais. As listas de “quem votou contra ou a favor” vão ditar o comportamento da base, que tende a ser ainda mais fragmentada”, afirmou Bandeira.
Nesse ambiente, pautas estruturais e politicamente sensíveis tendem a travar, ser desidratadas ou simplesmente não avançar. Ainda assim, a gestão petista deve tentar avançar com pautas com tom eleitoreiro, como o fim da escala de trabalho 6×1.
Por outro lado, o cenário também é marcado pelo escândalo do Banco Master. O governo e uma boa parte dos parlamentares querem evitar que o caso seja investigado em uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Isso pode fazer com que o governo e as presidências das Casas se alinhem para focar em pautas menos polêmicas e assim evitar que a oposição consiga emplacar uma CPI. A grande amplitude do escândalo assusta governistas e centristas, especialmente em um ano de eleições.
Silêncio sobre o escândalo do Master
Apesar de dominar conversas reservadas entre líderes partidários e assessores, o caso Master ficou fora dos discursos oficiais na abertura do ano legislativo. Nem o presidente Lula, nem os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP), fizeram referência ao escândalo, que envolve suspeitas com potencial de atingir diferentes correntes políticas.
Na avaliação dos especialistas, o tema se tornou sensível demais para ser tratado publicamente em ano eleitoral. A estratégia predominante é reduzir a temperatura do debate e evitar embates que possam desgastar partidos e lideranças às vésperas da campanha. Na prática, isso cria um ambiente de contenção: o assunto avança em conversas reservadas, mas é contido no plenário.
Alexandre Bandeira afirma que o tom cordial da sessão inaugural do ano legislativo seguiu a tradição institucional, mas o caso específico do Master preocupa por atingir diferentes esferas de poder.
“Como é um tema que pode envolver atores da situação, da oposição e até ministros de tribunais superiores, há uma preocupação coletiva das presidências da Câmara e do Senado para evitar a instalação de comissões de inquérito. Isso só deve avançar mediante forte pressão popular”, avaliou o analista político.
Na mesma linha, Adriano Cerqueira, professor de Ciência Política do Ibmec-BH, vê uma reação coordenada dos três Poderes para reduzir o impacto político do escândalo. Segundo ele, a estratégia é ganhar tempo. “A depender das presidências do Legislativo, o caso tende a ser postergado. O problema é o clamor social. Se houver pressão nas ruas e nas redes, somada à repercussão na imprensa, fica difícil sustentar esse muro de contenção”, destacou.
Para o cientista político Elias Tavares, o silêncio é revelador. “O caso Master é sensível porque suas ramificações são amplas. Quando um tema tem esse grau de transversalidade, a tendência inicial é o abafamento coordenado. Não é omissão por desconhecimento, é prudência estratégica”, disse.
Ele pondera, no entanto, que essa blindagem tem limite. “Hoje há força para postergar e esvaziar, mas não para segurar indefinidamente. Se a CPI passar a gerar custo eleitoral, ela tende a avançar mesmo contra a vontade do governo e das cúpulas do Congresso”, reforçou.
Mesmo com a resistência das cúpulas do Congresso e do governo em dar tração às investigações em ano eleitoral, a movimentação mostra que o tema está longe de ser encerrado e continua pressionando a agenda política em Brasília.
Parlamentares da oposição apresentaram nesta terça-feira (3) o pedido de CPMI para investigar o escândalo. De acordo com o deputado Carlos Jordy (PL-RJ), a CPMI do Master conta com o apoio de 280 parlamentares, sendo 238 deputados e 42 senadores.
Mas ele prevê dificuldades políticas no caminho. “A gente vai ter agora muito embate, muita pressão, porque é evidente que muita gente poderosa não quer que haja a instalação dessa CPMI. Querem se proteger, não querem que as investigações avancem, estão fazendo uma “operação abafa””, declarou.
Na Câmara, também foi protocolado um requerimento para a criação de uma CPI exclusiva, iniciativa liderada pelo deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF).
VEJA TAMBÉM:
-
Câmara troca líderes e busca trégua para destravar pautas em ano eleitoral
-

Da Bahia à Sapucaí, Carnaval 2026 tem clima de campanha antecipada pró-Lula
Mensagem de Lula tem tom de campanha: fim da escala 6×1 e regulação do trabalho por apps
Já no que diz respeito à mensagem do presidente Lula enviada ao Congresso, baseada em um documento de cerca de 900 páginas direcionado ao Legislativo, o texto lista prioridades de forte apelo eleitoreiro, entre elas o fim da escala 6×1 sem redução salarial, a regulação do trabalho por aplicativos, o avanço da PEC da Segurança Pública, o combate às facções criminosas, o fortalecimento do pacto contra o feminicídio e investimentos em soberania tecnológica, como o plano brasileiro de inteligência artificial.
Segundo Bandeira, o Planalto vem apostando em uma estratégia de confronto político com o Legislativo. “O governo elegeu o Congresso como o protagonista das “maldades”, enquanto tenta personificar as “bondades”. Se perder votações em pautas populares, como jornada de trabalho e aplicativos, pode transformar a derrota em discurso eleitoral”, salientou.
Adriano Cerqueira também vê a mensagem como parte de uma estratégia eleitoral antecipada. “O Lula fez uma mensagem eleitoral. Ele tenta reforçar a ideia de que o governo promoveu reconstrução econômica e social. A mensagem tem um sentido eleitoreiro”, avaliou o especialista.
Para ele, o momento da apresentação reforça esse caráter. “Se essa agenda de 900 páginas tivesse sido apresentada no primeiro dia de seu mandato, a gente poderia até imaginar alguma chance de alguma parte razoável dela ser aprovada agora”.
Cerqueira acrescenta que o problema é também estrutural. “O Congresso ganhou mais autonomia orçamentária nos últimos anos. A dependência do Legislativo em relação ao Executivo caiu bastante. Isso exige capacidade de negociação constante, e o governo não tem mostrado habilidade para isso”, disse.
Elias Tavares concorda que o conteúdo da mensagem tem baixa viabilidade prática. “Essa agenda é muito mais retórica do que prática. Serve para o governo marcar posição e dizer que “fez a sua parte”. Em ano eleitoral, documentos extensos cumprem função política, não legislativa”, afirmou.
Especialistas apontam fragilidade na articulação
Mesmo cobrando parceria com o Congresso para avançar em pautas que classificou como prioritárias para o país, a ausência de Lula na abertura do ano legislativo acabou falando mais alto e pesou contra os interesses do próprio governo na relação com o Parlamento.
Adriano Cerqueira avalia que a ausência de Lula na abertura do ano do Legislativo é um indicativo de “dificuldades na relação com os parlamentares”. Ele aponta que a base governista nunca foi robusta e hoje está ainda mais frágil.
“A base sempre foi frágil e agora está ainda mais encolhida. A oposição está articulada e experiente. O máximo que o Lula pode esperar são acordos pontuais, principalmente na área econômica”, disse.
Já o cientista político Elias Tavares ressalta que o gesto presidencial tem peso institucional e “revela um problema real de comunicação com o Congresso”. “Mandar uma mensagem institucional para um Parlamento do qual o governo depende profundamente, especialmente em ano eleitoral, é pouco. Ter ido presencialmente teria sido politicamente mais forte e mais coerente com o momento de fragilidade da articulação”, avaliou.
Ele reforça que o governo não conta com uma base sólida, apenas com acordos circunstanciais. “Hoje, o governo está muito mais refém do Congresso do que apoiado por ele. Não há base sólida. Há negociações pontuais. O Congresso se comporta como governo quando há vantagem e como oposição quando não há”, destacou.
Congresso reage e marca posição
Se a mensagem de Lula pediu parceria, os discursos dos presidentes da Câmara e do Senado deixaram claro que o Legislativo pretende exercer protagonismo — e não apenas chancelar a agenda do Planalto.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), adotou um tom pragmático e buscou equilibrar sinalizações ao governo com a defesa da autonomia dos deputados. Ele prometeu acelerar o debate sobre o fim da escala 6×1 e a regulamentação do trabalho por aplicativos, mas ressaltou que as discussões ocorrerão com “equilíbrio e responsabilidade”, ouvindo também o setor produtivo.
Na segurança pública, Motta afirmou que a PEC da área será prioridade após o carnaval, ao lado de medidas de combate ao feminicídio. Ao mesmo tempo, fez uma defesa enfática das emendas parlamentares e afirmou que cabe ao Congresso decidir sobre a destinação de recursos aos municípios — recado interpretado como resposta às recentes restrições impostas pelo Supremo Tribunal Federal.
Já o presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), adotou um tom mais institucional e fez um discurso voltado à afirmação da autoridade do Legislativo. Ele defendeu “diálogo, bom senso e paz” entre os Poderes, mas deixou claro que isso não significa submissão.
Ao afirmar que “paz não é omissão”, Alcolumbre sinalizou que o Congresso não abrirá mão de suas prerrogativas nem aceitará ter suas funções esvaziadas.
Gazeta do Povo
Sob a licença da Creative Commons (CC) Feed
Redes Sociais:
Canal no Telegram: https://t.me/GrupodeNoticiasInternacionais
https://www.facebook.com/www.redegni.com.br/
https://www.instagram.com/redegnioficial/
https://gettr.com/user/redegni
https://x.com/redegni

