MBL rompe com governo Tarcísio para lançar partido em 2026

Últimas atualizações em 29/08/2025 – 08:25 Por Gazeta do Povo | Feed

“Dinheiro público deve ser gasto com responsabilidade, fazendo com que sobre dinheiro no caixa para poder investir ainda mais no salário de policiais que prendem vagabundos e de professores que formam gerações, não para a elite do funcionalismo público”. Foi com essa manifestação contundente nas redes sociais que o deputado estadual Guto Zacarias (União) anunciou seu rompimento com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

“Esse projeto é tão ruim, mas tão ruim, que até o PSOL teve coragem de votar a favor”, completou Guto Zacarias no dia seguinte, durante discurso no plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), no qual apresentava o PL 28/2025 como um dos motivos para sua renúncia do cargo de vice-líder do governo paulista no Legislativo estadual — além de outros projetos relacionados ao tema.

O deputado disse ainda que esta foi a terceira vez que levou a insatisfação com esse tipo de projeto ao governador de São Paulo. Apesar das promessas de que medidas desse tipo não chegariam à Alesp, Guto Zacarias disse que Tarcísio voltou a patrocinar medidas que ampliam privilégios do funcionalismo.

Publicamente, Zacarias usou o projeto de lei que aumenta pessoal e gastos do ecossistema relacionado ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) — de iniciativa da própria Corte e patrocinado politicamente pelo governador — para justificar seu afastamento do governo Tarcísio. Nos bastidores, porém, a entrega do cargo é vista como mais um movimento no xadrez que já é jogado pelos atores políticos tendo em vistas as eleições de 2026.

O deputado estadual pertence ao Movimento Brasil Livre (MBL), que ajudou a capitanear as manifestações de rua pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e depois passou a eleger parlamentares, como o deputado federal Kim Kataguiri (União). No final de junho, o partido Missão, orquestrado pelo MBL, atingiu 547 mil assinaturas para sua criação, quantidade mínima requisitada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para dar seguimento à fundação de uma nova legenda.

A sigla deve utilizar o 14 como número de urna e os integrantes do MBL contam com ela para disputar as eleições no ano que vem. A conquista, registrada no site do TSE, foi celebrada por Renan Santos, coordenador nacional do MBL sem cargo eletivo e futuro presidente nacional do novo partido, além de outros integrantes do movimento liberal nas redes sociais.

Com uma sigla própria, a ideia do grupo é se apresentar como uma alternativa, com um perfil um pouco mais liberal para o eleitor de direita. Atualmente, o MBL tem 13 vereadores eleitos, além da vice-prefeita de Meridiano (SP), Juliana Lima, Kim Kataguiri e o deputado estadual Guto Zacarias. A expectativa é que todos se filiem ao Missão no ano que vem.

VEJA TAMBÉM:

  • Centrão e empresários escolhem Tarcísio para 2026 à espera do aval da família Bolsonaro

Rompimento de MBL com governo Tarcísio não surpreende 

“Tudo indica que a debandada do MBL (do governo Tarcísio) já vinha sendo gestada por razões eleitorais”, afirma o cientista político Samuel Oliveira. “As queixas do deputado sobre o projeto do Judiciário foram usadas como gatilho público e até são justificadas, mas a mudança estratégica já vinha se desenhando nos bastidores, isso parece claro. Nos bastidores, lideranças do MBL trabalharam por meses na criação do partido Missão, passando do estágio de ‘dilemas’ sobre quem apoiar para a tarefa de escolher seus próprios nomes.”

Oliveira avalia que o rompimento promovido pelo deputado estadual não surpreende, pois se trata de um reposicionamento estratégico: o MBL quer distanciar-se de coligações tradicionais — como a de Tarcísio — e lançar-se como alternativa nas próximas eleições. “O grupo historicamente enfatiza sua independência de partidos tradicionais. Em anos eleitorais, usa esse discurso para atrair eleitores específicos: jovens digitalizados, liberais na economia e conservadores nos costumes. É semelhante ao PSOL à esquerda, que cultiva a imagem de ‘política limpa’ para nichos de esquerda”, afirma.

“O MBL e seus representantes eleitos tentam reforçar que o movimento é uma opção autônoma para o eleitorado de direita, que promete não se curvar nem ao Centrão nem ao núcleo duro ligado ao ex-presidente Bolsonaro. Essa estratégia atrai nichos específicos, mas pode queimar pontes políticas com os principais atores do seu espectro político”, analisa Oliveira.

Sobre o Missão, o cientista político avalia que embora o partido conte com o engajamento de figuras conhecidas do MBL e possa atrair um público segmentado, sua inserção no cenário de 2026 é uma incógnita. “Ao que me parece, pretendem lançar candidaturas próprias, apesar de não terem, hoje, musculatura e capilaridade para disputas nacionais”, afirma Juliana Fratini, doutora em Ciência Política.

“Tarcísio e Missão podem ser mais produtivos se coligados nas próximas eleições, pois conversam com núcleos sociais etários diferentes, mas com valores similares. Um serve de alavancagem para o outro, tanto em zonas urbanas quanto no interior, sobretudo nos colégios eleitorais de estados do Sudeste do país”, acrescenta ela.

VEJA TAMBÉM:

  • Governador Tarcísio de Freitas em parceria com o MP São Paulo.

    Dinheiro do crime organizado amplia orçamento do MP em meio a supersalários

O que falta para a criação do partido Missão

Pela legislação eleitoral, para a criação de um novo partido, é necessário que a entidade obtenha 0,5% dos votos válidos da última eleição para a Câmara dos Deputados, distribuídas pelo menos nove estados, com no mínimo 0,1% do eleitorado em cada um. As assinaturas coletadas devem ser validadas em cartórios eleitorais no período máximo de dois anos.

O próximo passo é a realização dos trâmites formais nos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) em pelo menos nove estados, para os quais a Missão deve formar diretórios estaduais. Após essa etapa, fica a cargo do Ministério Público Eleitoral (MPE) emitir um parecer em até dez dias.

Caso todas as etapas sejam dadas por concluídas, sem pendências, o processo será julgado pelo TRE. Após a conclusão dos registros estaduais, a Missão deverá registrar seu estatuto, além de sua direção nacional no TSE. Após o trâmite e sem pendências restantes, o TSE julgará em plenário.

Após o registro do TSE, Missão será oficialmente reconhecido como partido, podendo participar das próximas eleições. Em caso de aprovação, o Missão se tornará o 30º partido político do Brasil ativo em 2026. A última legenda criada do zero, sem considerar as fusões, foi a Unidade Popular (UP), em 2019.

Procurado pela reportagem da Gazeta do Povo para comentar a saída da base do governo Tarcísio na Alesp, a criação do novo partido pelo MBL e as eleições do ano que vem, por meio de sua assessoria de imprensa, Guto Zacarias não respondeu.

Gazeta do Povo
Sob a licença da Creative Commons (CC) Feed

Redes Sociais:
https://www.facebook.com/www.redegni.com.br/
https://www.instagram.com/redegnioficial/
https://gettr.com/user/redegni
https://x.com/redegni

Gazeta do Povo | Feed

Gazeta do Povo | Feed

A Gazeta do Povo é um jornal sediado em Curitiba, Paraná, e é considerado o maior e mais antigo jornal do estado. Apesar de ter cessado a publicação diária em formato impresso em 2017, o jornal mantém suas notícias diárias online e semanalmente em formato impresso. O jornal é publicado pela Editora Gazeta do Povo S.A., pertencente ao Grupo Paranaense de Comunicação (GRPCOM).

error: CONTEÚDO PROTEGIDO

AJWS   ThemeGrill   Wordpress   Cloudflare   Wordfence   Wordfence