Lula alia interesse e oportunismo ao falar sobre EUA e Brics
Últimas atualizações em 29/08/2025 – 21:27 Por Gazeta do Povo | Feed
Desde o anúncio do tarifaço imposto pelos Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem bravateado contra a medida e vocalizado seu alinhamento ao Brics, grupo antagônico aos EUA. A autorização para o Itamaraty iniciar a consulta para o uso da Lei de Reciprocidade contra as tarifas, nesta quinta-feira (28), foi o gesto mais direto contra a ofensiva americana.
A iniciativa, que vem corroborar as afirmações de Lula sobre a soberania do país, pode levar meses, e é vista como uma forma de pressionar a negociação por parte dos Estados Unidos, que praticamente obstruiu todos os canais de interlocução.
Na essência, é só isso que se quer. A diplomacia brasileira nunca deixou de se empenhar incessantemente nos bastidores para preservar relações comerciais essenciais com Washington. Enquanto Lula esbravejava, os chanceleres agiam em sentido contrário, buscando formas de entendimento.
A postura contraditória expõe o interesse de Lula em surfar na onda do discurso pela soberania do país – que conseguiu tirar o governo das cordas nas pesquisas de opinião – e o pragmatismo necessário às relações com o segundo maior parceiro comercial do país.
Apesar do estreitamento com a coalizão de países do Brics, vista como estratégica, Planalto e Itamaraty sabem que o bloco não é capaz de absorver as perdas decorrentes da redução de exportações ao mercado norte-americano, responsáveis por 12% de nossa balança comercial.
“A retórica do Lula é voltada para o público doméstico”, afirma Vinícius Rodrigues, professor de Relações Internacionais da Faap e da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). “Ele tenta faturar politicamente, porque estava fragilizado antes do tarifaço e agora tenta capitalizar o tema. Mas ‘tapar o buraco’ deixado pelos EUA é muito difícil no curto prazo.”
VEJA TAMBÉM:
-
Da semente ao porto: como a China se “infiltrou” na cadeia produtiva do agro brasileiro
-
“Guerra da soja”: China admite comprar mais dos EUA e põe em risco vendas do Brasil
Na prática, avalia o professor, a diplomacia profissional tem trabalhado ativamente para manter a relação entre os dois países no que é considerado seu ponto mais baixo em dois séculos: “São pelo menos três frentes: Itamaraty, por meio do chanceler Mauro Vieira; do ministro [da Fazenda, Fernando] Haddad; e do vice-presidente Geraldo Alckmin, que tem discutido com o setor privado e buscado canais de negociação”.
Os resultados até aqui, no entanto, não são animadores. A reunião entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado americano Marco Rubio, em julho, não impediu que as tarifas entrassem em vigor, o que representou um revés diplomático. Haddad teve uma reunião com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, cancelada sem justificativa. Alckmin só obteve uma conversa de 50 minutos com o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, em julho, sem impacto concreto.
As dificuldades esbarram nas exigências políticas de Trump, ligadas ao julgamento que se aproxima do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que são, segundo o governo e analistas, “inegociáveis”.
Na tentativa de uma saída negocial, o governo deu, nesta semana, uma última cartada: contratou, por meio da Advocacia-Geral da União (AGU), um escritório de advocacia dos Estados Unidos para fazer lobby e tentar reverter as sanções impostas pelo governo de Donald Trump ao país.
Trump jogou Brasil no colo do Brics?
A ofensiva do presidente americano Donald Trump foi classificada por analistas como um empurrão para a aproximação do Brasil com os parceiros do Brics, sobretudo com a China, hoje o principal destino das exportações brasileiras, em torno de 28% do total.
O impacto foi imediato: num telefonema ao presidente chinês Xi Jinping, logo após a vigência das tarifas, Lula reforçou o multilateralismo e negociou a cooperação bilateral em áreas como saúde, petróleo e gás, economia digital e satélites.
Também passou recorrentemente a provocar o presidente americano com a defesa de uma moeda alternativa ao dólar nas transações comerciais internacionais. A ideia, que interessa fortemente à China, é vista por Trump como ameaça à hegemonia econômica dos EUA, embora inexequível no curto prazo.
As oportunidades reais de incremento comercial entre China e Brasil, no entanto, se mostraram limitadas. Existe uma complementaridade nas commodities, especialmente nas agrícolas e minerais. Já os itens manufaturados ou as matérias-primas semiacabadas não apresentam a mesma abertura. “O que exportamos para lá [EUA] tem mais valor agregado”, explica Rodrigues. “Para a China, vendemos 90% de produtos básicos e, além disso, os chineses são concorrentes em alguns setores.”
O Brasil exporta, por exemplo, muito aço e alumínio para os Estados Unidos, mas os chineses não têm interesse nesses produtos; ao contrário, eles têm inundado o mercado brasileiro com aço chinês.
O mesmo vale para itens eletrônicos e material elétrico, como motores e partes elétricas fabricados no Brasil e exportados para os EUA: na China, esses produtos não encontram mercado, pois os fabricantes locais são muito mais competitivos. Também não há espaço para os aviões da Embraer, já que o país possui uma concorrente direta, a Comac (Commercial Aircraft Corporation of China), que atende à demanda doméstica e internacional.
Alguns segmentos do setor privado, no entanto, têm visto oportunidades para expandir a relação comercial com o gigante asiático. Fagner Santos, especialista em comércio exterior da JF Comex Consultoria, afirma que o “tarifaço” acelerou um redirecionamento natural de produtos brasileiros, abrindo espaço para pequenas e médias empresas de setores como café, sucos, açaí, calçados, moda praia e cosméticos naturais de origem amazônica.
“Além das commodities tradicionais, há grande potencial para produtos premium. A classe média e os consumidores mais ricos chineses estão cada vez mais abertos a produtos internacionais com diferencial de qualidade e autenticidade”, diz Santos. “Há um mercado expressivo para empresas brasileiras que se posicionam estrategicamente.” Mas há um longo caminho pela frente para atender à rígida regulamentação da China.
A opção pelo multilateralismo via Brics
Lia Valls, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), reconhece que os limites da estratégia de diversificação comercial são evidentes. “Não há como suprir o mercado americano redirecionando tudo para China, Rússia ou outros países, porque as pautas são distintas”, afirma.
Mesmo assim, ela vê no Brics uma opção estratégica dentro da ótica do multilateralismo. “A melhor aposta do Brasil continua sendo o multilateralismo. É nossa tradição e nossa estratégia mais segura, já que não temos poder de barganha em acordos bilaterais com economias muito maiores”, diz.
Rodrigues destaca que “o Brasil não entrou nesse grupo por acaso. Sempre tivemos pouco espaço junto às potências ocidentais”, diz. “No Brics conseguimos mais projeção global em fóruns internacionais e nas discussões sobre a ordem mundial.”
Para ele, o problema é que “Rússia e China tentam puxar o Brics para uma postura antiocidental, principalmente antiamericana”. “Mas o Brasil, nas últimas reuniões, tem resistido a isso, porque não lhe interessa romper com o Ocidente.”
“Apesar de declarações imprudentes de Lula — como apoiar Kamala Harris ou chamar Trump de fascista —, quando olhamos para a diplomacia profissional, para a proximidade do Itamaraty com agendas americanas, inclusive fornecimento de equipamentos militares, não houve grandes mudanças”, observa. “Dentro da esquerda existe uma linha antiamericana, daqueles que dizem que ‘tudo é culpa do império’, mas não é unanimidade dentro do governo.”
O Brasil, destaca o professor da Faap, não aderiu à Iniciativa Rota da Seda (Belt and Road), mesmo sob pressão chinesa, mostrando que não há alinhamento automático. “Interessa ao Brasil cooperar com potências emergentes, mas sem fechar as portas para as potências tradicionais”, acredita.
Estratégia de Trump favorece diversificação
Para Valls, a ideia é diversificar os mercados, aproveitando mudanças na geopolítica do comércio provocadas pelo efeito Trump, que podem favorecer uma maior integração do Brasil com Europa e Ásia.
“Nesse sentido, o país vem buscando uma série de acordos: finalizou um com a European Free Trade Association, está internalizando o acordo com Singapura, negocia com a União Europeia, mantém tratados limitados com México e Canadá e ainda negocia com Coreia do Sul e Japão”, explica.
Com o mesmo objetivo, Alckmin viajou ao México nesta semana com a ministra do Planejamento, Simone Tebet, para fortalecer as relações comerciais entre os dois países. Alckmin se encontrou com a presidente Claudia Sheinbaum e participou do Fórum Empresarial Brasil-México, que reuniu cerca de 250 empresários de ambos os países. Em 2024, o Brasil exportou US$ 7,8 bilhões ao país, enquanto importou US$ 5,8 bilhões.
Assim como o Brasil, o México também enfrenta barreiras tarifárias dos EUA, com sobretaxas de 25% sobre veículos e 50% sobre aço, alumínio e cobre, embora uma tarifa ampla de 30% esteja temporariamente suspensa.
As novas alíquotas elevaram o México ao lugar de segundo maior comprador de carne bovina brasileira, superando os EUA. Em julho, semanas após o anúncio das tarifas, o presidente Lula conversou com Sheinbaum, reforçando a importância de aprofundar as relações econômicas e comerciais entre os dois países em um “momento de incertezas”.
Nesta quinta-feira (28), porém, a presidente mexicana descartou fechar com o Brasil um acordo de livre comércio, tal como o que seu país mantém com os EUA. “Não estamos pensando em um acordo de livre comércio, mas sim em colaboração e cooperação em certa medida”, disse Sheinbaum em entrevista coletiva.
Gazeta do Povo
Sob a licença da Creative Commons (CC) Feed
Redes Sociais:
https://www.facebook.com/www.redegni.com.br/
https://www.instagram.com/redegnioficial/
https://gettr.com/user/redegni
https://x.com/redegni